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CRÍTICA | "Devoradores de Estrelas"

  • Foto do escritor: Guilherme Cândido
    Guilherme Cândido
  • há 3 horas
  • 4 min de leitura

Um homem tentando sobreviver no espaço sideral enquanto busca uma forma de retornar para a Terra já foi tema de diversas ficções científicas ao longo das décadas, mas uma em específico serve de inspiração-mor para este Devoradores de Estrelas, filme da Amazon/MGM distribuído pela Sony nos cinemas. Trata-se de Perdido em Marte (2015), no qual Matt Damon emprestava seu carisma para um botânico deixado à deriva no planeta vermelho. Coincidentemente ou não, ambos os filmes são baseados em best-sellers homônimos de Andy Weir. Também não é obra do acaso a escolha de Ryan Gosling como a estrela da vez responsável por segurar praticamente sozinho uma narrativa de quase duas horas e meia de duração. Verdade seja dita, o maior trunfo da produção sequer passa pela escalação do canadense três vezes indicado ao Oscar, mas sim pela condução da dupla Phil Lord e Chris Miller, que ampliam o foco no humor para tornar a experiência ainda mais divertida do que o supracitado sucesso surpresa de Ridley Scott. E transformar uma aventura espacial densamente científica numa jornada longa, mas agradabilíssima é uma proeza que não devemos desmerecer.

Assim como tantos colegas de gênero, a premissa de Project Hail Mary, no original, passa por um futuro no qual o planeta está em risco. Devaneios sci-fi à parte, trata-se de um cenário pessimista em que o Sol está morrendo aos poucos e cabe a uma misteriosa entidade governamental liderar uma empreitada para reverter a situação. A brilhante Sandra Hüller, atriz alemã indicada ao Oscar por Anatomia de Uma Queda (2023), vive a general responsável por montar a equipe destinada a impedir o apocalipse, esbarrando no professor de Ciências encarnado charmosamente por Gosling.

Mas o roteiro escrito por Drew Goddard (indicado ao Oscar por Perdido em Marte, veja só) é desenvolvido de forma não-linear, de modo que a trama alterna entre os momentos nos quais Gosling já está no espaço e aqueles em que faz parte de um seleto grupo de cientistas e engenheiros encarregados de salvar o planeta. Como um professor de ensino fundamental acaba se tornando a última esperança da humanidade, faz parte de uma série de perguntas cujas respostas são salpicadas em vaivéns recorrentes dentro da narrativa.

Em grande parte da projeção, trata-se do show de um homem só, um solo executado com extrema habilidade por um artista cuja versatilidade deixou de ser um traço para se tornar uma marca registrada. Se nas passagens terráqueas ele tem com quem brincar, jogando com a seriedade de Hüller e a sisudez do ambiente militar, na nave ele é não o último, mas o único recurso de Lord e Miller, que apostam pesado no timing cômico do protagonista para manter as engrenagens narrativas em pleno funcionamento.

Responsáveis pelo duo diabolicamente divertido Anjos da Lei e pelo magistral Homem-Aranha no Aranhaverso (vencedor do Oscar de Melhor Animação), a dupla sabe muito bem provocar risos, mas parece ter esquecido de como equilibrá-los com o drama. O humor funciona lindamente quando operado no mesmo tom cartunesco dos grandes sucessos da Pixar, mas o exagero o torna intrusivo em vários instantes, chegando a lembrar a Marvel pós-Vingadores ao quebrar a gravidade de sequências-chave com piadas fora de hora. Os cineastas não resistem ao impulso de incluírem, por exemplo, uma gag física logo após uma revelação importante, ou mesmo durante um momento mais emotivo, diluindo o impacto de tais sequências. Falando em emoção, os realizadores também forçam a barra na tentativa de arrancarem lágrimas do espectador em cenas destinadas ao apogeu dos cortes em redes sociais.

Em contrapartida, Devoradores de Estrelas é tão seguro, que nada parece abalar sua verdadeira e principal diretriz: proporcionar uma viagem genuinamente leve, descomplicada e simpática pelos confins do universo. E quando Gosling enfim ganha um parceiro, que manterei em sigilo para não estragar surpresas, a história tem o fôlego renovado, dando uma guinada de 180° ao abraçar novas possibilidades que vão desde uma dinâmica estilo The Office, até um choque cultural enriquecido pela inventiva forma encontrada de simplificar a comunicação entre os envolvidos. Aliás, os pontos fortes de Devoradores de Estrelas são justamente aqueles nos quais uma parceria inusitada evolui para uma amizade improvável.

A cristalina intenção de deixar o espectador com uma impressão final positiva, afagando corações prontos receberem a dupla mais adorável do Cinema nesse início de ano, talvez tenha distraído Phil Lord e Chris Miller, resultando numa sequência de supostos finais que faria inveja a Pecadores, justamente quando a produção apresentava seus melhores atributos técnicos. E da mesma forma que devo elogiar os efeitos visuais, não deixarei de lamentar o trabalho do normalmente competente Daniel Pemberton (que admiro desde O Agente da U.N.C.L.E.), cuja trilha sonora parece indecisa entre abraçar a escala épica do projeto ou acompanhar seu tom cômico. Já os figurinos são eficientes ao demonstrar como o protagonista não pertence àquele ambiente, seja ao destacá-lo com cores fortes (amarelo) perante os militares e cientistas ou ao vestí-lo com camisas diametralmente opostas aos trajes que normalmente esperaríamos ver em viajantes espaciais.

Honesto ao não esconder suas inspirações, acenando com referências a Contatos Imediatos do Terceiro Grau (1977), Interestelar (2014) e A Chegada (2016), Devoradores de Estrelas entra para o exclusivo rol de filmes de ficção científica que não precisam menosprezar a inteligência do espectador para divertí-lo, o que por si só já merece nosso reconhecimento.


NOTA 7

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