CRÍTICA | "Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra"
- Guilherme Cândido

- há 17 horas
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Às vezes é possível se esquecer de que, antes de comandar a bilionária trilogia Piratas do Caribe, o realizador Gore Verbinski ficou conhecido não apenas pela versatilidade, mas por entregar muito, mesmo trabalhando com pouco. É justamente o orçamento enxuto que estimula a criatividade de grandes contadores de histórias, obrigados a substituírem os recursos financeiros pelos criativos. Ainda que o trabalho na franquia bucaneira tenha sido excepcional, foi precisamente ao sair dela que o diretor norte-americano pôde voltar às origens como criativo, nos presenteando com produções sempre diferentes entre si.
Quase dez anos após o irregular (mas inventivo) A Cura, Verbinski retorna com mais um longa amalucado, uma mistura absolutamente heterogênea entre O Exterminador do Futuro 2, Feitiço do Tempo, Os 12 Macacos, Piratas do Caribe – No Fim do Mundo e... Um Ratinho Encrenqueiro. Estes dois últimos, claro, inspirações autorreferenciais.

Parte conto de advertência, parte aventura de viagem no tempo, parte comédia de loop temporal... o roteiro de Matthew Robinson (do subestimado Amor e Monstros) começa com o sempre magnético Sam Rockwell na pele do que parece ser um Doc Brown em situação de rua invadindo uma lanchonete numa aparentemente pacata noite de Los Angeles. Clamando vir de um futuro apocalíptico em busca de salvação, o sujeito alega estar na 117ª tentativa de encontrar “o grupo perfeito” para realizar uma missão capaz de impedir uma Inteligência Artificial de eliminar metade da população humana e alienar os sobreviventes.

Saltando entre objetivos como num videogame sem muita lógica, a narrativa resgata não apenas o espírito anárquico dos primeiros filmes de Gore Verbinski, mas também seu senso cômico peculiar, investindo num repertório de piadas que vai desde tiradas sarcásticas, passando pelo humor negro e até uma pitada de nonsense. No entanto, engana-se quem pensa se tratar de um besteirol desmiolado, pois o texto levanta questionamentos fortes o suficiente para provocar reflexões, é o caso das possíveis consequências de uma dependência cada vez maior de telas, por exemplo. Aliás, esse é o único tópico desenvolvido a contento pois, verdade seja dita, Robinson acaba se perdendo ao atirar para todos os lados tentando abarcar temas pertinentes.

O mais fascinante é perceber como, mesmo num aparente e absoluto caos, Verbinski parece jamais perder o controle, o que resulta numa bagunça organizada tremendamente divertida e que fica ainda melhor por estimular nossos neurônios (algo raro, hoje em dia). Até mesmo quando a história faz duas ou três pausas para contextualizar alguns personagens, o cineasta investe em transições espertas que suavizam o impacto da mudança brusca de marcha.

Mesmo assim, o teor exótico da história deve dividir os espectadores, algo com o qual confesso ter me acostumado quando Sam Rockwell está no elenco. Dono de um carisma inexorável, o ator vencedor do Oscar pelo soberbo Três Anúncios Para um Crime encarna o tipo do adorável vagabundo que tanto encarnou durante a carreira. Haley Lu Richardson, burocrática em filmes como Quase 18, Fragmentado e A Cinco Passos de Você, tem a oportunidade de mostrar força num papel que atualmente tem caído no colo de intérpretes como Samara Weaving e Kathryn Newton. Já o pouco valorizado Michael Peña aproveita mais uma chance de divertir (a si e ao público), além de protagonizar ao lado da correta Zazie Beetz (vista mês passado em Eles Vão Te Matar, uma maluquice menos inventiva) a sequência mais inspirada do filme.

Prestando respeito às regras da viagem no tempo, Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra, ainda se dá ao luxo de tropeçar no ato final, quando Verbinski finalmente é engolido pela própria loucura (e piora a situação ao incluir uma narração para tentar remediar o estrago), mas que não apaga a inventividade sem fim de uma raríssima obra que ousa provocar gargalhadas e reflexões na mesma medida.
NOTA 7,5









