CRÍTICA | "Vidas Entrelaçadas"
- Guilherme Cândido

- há 3 horas
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Com o aguardadíssimo O Diabo Veste Prada 2 programado para estrear em duas semanas, Vidas Entrelaçadas chega aos cinemas tanto como um aquecimento, quanto como uma perspectiva diferente sobre o mundo da Moda. Exibido no Festival do Rio passado, a produção não é entitulada originalmente Couture à toa. A palavra, que dá significado aos pontos de costura, faz referência ao formato narrativo escolhido pela realizadora francesa Alice Winocour e ganhou uma (rara) satisfatória versão brasileira para estampar as fachadas dos multiplexes.
As trajetórias “costuradas” são as da cineasta Maxine Walker (Angelina Jolie), a da jovem modelo Ada (Anyier Anei) e a da maquiadora Angèle (Ella Rumpf), todas sobre o pano de fundo da Paris Fashion Week, um dos maiores eventos de moda do planeta. Maxine, por exemplo, está na Cidade Luz a fim de rodar um curta para uma importante, mas nunca revelada, grife, enquanto Ada não apenas estrela o tal projeto, como é o destaque de um desfile, sendo auxiliada por Angèle, que além do trabalho freelance durante o evento, dedica-se paralelamente a um livro de memórias.

Assim como aconteceu em Cinco Graças (2015), A Jornada (2019) e Memórias de Paris (2022), Winocour estabelece o olhar feminino como o condutor de uma história orbitada por um grande dilema, seja ele de cunho profissional ou pessoal. No caso de Maxine, por exemplo, significa decidir adiar ou não o sonho de fazer um filme pelo qual tanto trabalhou para tirar do papel, em prol da própria saúde. Afinal, é justamente em Paris que ela descobre estar com Câncer de Mama, notícia que sai dos lábios do oncologista interpretado pelo sempre fascinante Vincent Lindon. Essa trama acaba ganhando mais peso quando nos lembramos que a própria Angelina Jolie se submeteu a uma mastectomia dupla preventiva, o que talvez tenha lhe despertsdo interesse em produzir o longa.

Essa preferência pelo segmento da estrela hollywoodiana torna-se o calcanhar de Aquiles da narrativa, pois tira das demais personagens a chance de ganhar um aprofundamento, dando a impressão de que apenas Maxine importa, escanteando Ada e Angèle. Jolie, claro, aproveita a oportunidade para oferecer sua melhor atuação desde Garota Interrompida (1999), pelo qual levou o Oscar de Melhor Atriz (e olha que ano retrasado ela já havia encantado em Maria Callas). A californiana dá substância aos conflitos internos da personagem, angustiada ao dividir-se entre o trabalho e o papel como mãe. Dentre as migalhas jogadas ao restante do elenco, quem se farta é Lindon, curiosamente quem mais soa humano mesmo com tão pouco tempo de tela e sem um arco dramático.

Já o universo da moda é retratado com detalhes, ilustrando a camaradagem entre as modelos, mas também preconceito e vaidade. Quando não está preocupada em jogar luz sobre sua estrela maior, Winocour faz um retrato quase documental dos meandros dessa Indústria, mesmo que se perca no caminho com o excesso de personagens (a ótima Garance Marillier é desperdiçada numa personagem descartável).
Do jeito que ficou, somente uma vida é satisfatoriamente desenvolvida, pois as outras entrelaçadas soam como um mero primeiro ato do que poderiam ser dois filmes bem mais satisfatórios.
NOTA 6









