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CRÍTICA | "Natal Amargo"

  • Foto do escritor: Guilherme Cândido
    Guilherme Cândido
  • há 1 hora
  • 3 min de leitura

A comunidade cinéfila cultiva uma tradição quase secular de reclamar (geralmente com razão) dos títulos nacionais atribuídos a produções estrangeiras. Escolhas, no mínimo, inusitadas feitas pelo departamento de marketing das grandes distribuidoras que rendem artigos revoltados até hoje. Afinal, como não se indignar ao ver Persona (1966), obra-prima de Ingmar Bergman, ser intitulado Quando Duas Mulheres Pecam? O monumental All About Eve (Tudo Sobre Eve, em tradução literal) se tornar A Malvada (1950)? O que dizer sobre Parenthood (Paternidade) virar O Tiro Que Não Saiu Pela Culatra (1989)? E nem precisamos ir tão longe, pois The Hangover (A Ressaca) ganhou o título Se Beber, Não Case! em 2009. Não devemos esquecer a desonestidade de chamar Blue Valentine (algo como “namoro melancólico”, em tradução livre) de Namorados Para Sempre e lançá-lo no Dia dos Namorados! Isso tudo só para dizer que o novo filme de Pedro Almodóvar chegou à Cannes para disputar a Palma de Ouro sob um título que consegue ser ainda melhor do que o original. Pois Autofiction não poderia descrever melhor Natal Amargo (essa, sim, uma tradução literal de Amarga Navidad).

Não chega a ser uma novidade ver o cineasta espanhol expiar memórias ou analisar bastidores de suas produções, como aconteceu no ótimo Má Educação (2004) e no razoável Abraços Partidos (2009), por exemplo. Aliás, a maior investida dele na “autoficção” é também um de seus trabalhos mais recentes, o soberbo Dor e Glória (2019), em que elegeu o parceiro de longa data Antonio Banderas como seu avatar.

Dessa vez, Almodóvar opta por um caminho um pouco mais truncado ao separar a narrativa em dois núcleos: um no presente, onde o argentino Leonardo Sbaraglia (do excelente, mas pouco visto O Silêncio do Céu) encarna um diretor e roteirista solucionando um bloqueio criativo ao incorporar elementos da vida de uma amiga; e outro em 2004 em que uma realizadora se encontra paralisada por uma crise de ansiedade. O que não demora a ficar claro é que a tal realizadora é ninguém menos que Elsa (Bárbara Lennie, de Todos Já Sabem) a protagonista do roteiro que está sendo escrito por Raúl (Sbaraglia). O que impede a narrativa de soar como mais um satélite orbitando o ego de proporções planetárias do mestre espanhol é a disposição dele em discutir os limites éticos de usar a vivência de outrem como matéria-prima da Arte.

O problema reside na densidade excessiva do texto, que além de lidar com a convolução de subtramas protagonizadas por uma gama já considerável de personagens, ainda tem de lidar com conexões e interpretações não-diegéticas. Em determinados momentos, identificar quem é quem remete a um exaustivo jogo de espelhos, pois até uma fusão de personas torna-se plausível. Felizmente, o próprio Almodóvar demonstra ciência ao articular um discurso (novamente) irreverente sobre um certo narcisismo artístico, como se reconhecesse o ego que tem.

Dessa forma, assim como o excepcional O Quarto ao Lado, seu filme anterior, o permitiu tratar de anseios e receios sobre morte, legado e ressentimento, Natal Amargo lhe dá a oportunidade de tecer observações sobre o próprio metiê: quando não está debochando das propostas milionárias que recusou da Netflix, Almodóvar fala sobre o que o move criativamente (“agora você pode viver apenas do seu nome!”, alguém chega a dizer). Se o supracitado longa protagonizado por Julianne Moore e Tilda Swinton exorcizavam demônios internos, dessa vez o acerto de contas é com o artista.

Apesar do fascínio inicial, Natal Amargo não passa perto de arrebatar o espectador como fez Dor e Glória. Lá, a distância entre criador e espectador era marcada por uma linha tênue, através da qual embarcávamos numa jornada catártica pelo que tornou Pedro, Almodóvar. Aqui, a complexidade serve mais como um obstáculo e menos como um estimulante, distanciando ainda mais os personagens de nós.

Do ponto de vista estético, os entusiastas do cinema almodovariano terão mais um banquete pela frente: o prato principal não poderia ser outro senão o delicioso melodrama pelo qual o chef é famoso. A sobremesa? A combinação irresistível de cores fortes se complementando entre cenários e figurinos, outra especialidade da casa. Para acompanhar, uma trilha sonora da safra de Alberto Iglesias (quatro vezes indicado ao Oscar) cujas notas à moda antiga (Música orquestrada nunca deveria sair de moda) evitam sublinhar os aspectos narrativos e chamam atenção pela força dos tons graves.

Uma refeição saborosa, mas que não sacia plenamente como outras preparadas pelo chef espanhol, que ao menos merece nossos cumprimentos por seguir cozinhando sem perder a identidade.


NOTA 7,5

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