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CRÍTICA | "Michael"

  • Foto do escritor: Guilherme Cândido
    Guilherme Cândido
  • há 7 dias
  • 4 min de leitura

Os feitos de Michael Jackson são públicos e notórios. A marca deixada por ele não apenas na Música, mas também na cultura mundial é indelével, ou alguém seria incapaz de reconhecer a jaqueta vermelha usada no clipe de Thriller, por exemplo? Aliás, alguém ainda não ouviu a música que encabeça o disco mais vendido de todos os tempos? E é seguro presumir que todos já ouviram falar no “moonwalk” ou nos soluços vocais durante canções? Tudo isso é ilustrado em Michael, longa-metragem biográfico dirigido por Antoine Fuqua que essa semana inicia a caminhada para se tornar mais um fenômeno. Mas quem é o homem por trás do Rei do Pop? Essa é uma pergunta para a qual a produção infelizmente não oferece uma resposta. Talvez no próximo filme, anunciado nos instantes finais.


Michael narra a história de Michael Jackson desde a infância em Gary, Indiana, quando foi obrigado pelo pai a trabalhar como membro do conjunto The Jackson 5, até o auge como um artista capaz de atrair multidões por onde passava. E então temos uma interrupção, mas voltaremos a esse ponto mais tarde.

A primeira impressão é a de uma narrativa chapa branca, o que talvez seja explicado pelo envolvimento direto da família Jackson que, como produtora, teve poder de veto no roteiro. Desta forma, nos resta aceitar que Michael era um homem praticamente sem defeitos: sempre amou os animais e tinha forte ligação com as crianças mesmo adulto, provavelmente em decorrência de nunca ter tido a oportunidade de ser uma, de fato (pistas de sua neotenia). Ele está sempre visitando hospitais e doando para caridade, além de amar o contato com fãs. Também odeia violência, outro traço decorrente do passado conturbado, quando sofria agressões do pai. Ele é amado pelos irmãos (todos sem defeitos aparentes), com quem trabalha exaustivamente durante ensaios e performances ao vivo e jamais entram em conflito.

Isso é tudo o que o roteirista John Logan (três vezes indicado ao Oscar e responsável por blockbusters como 007 Contra SPECTRE e Alien: Covenant) pôde incluir na enxuta trama guiada pela obra e não pelo artista. Nesse ponto, Michael se assemelha (até demais) a Bohemian Rhapsody, longa-metragem sobre o Queen e seu vocalista que acabou chamando mais atenção pela música do que por qualquer outro elemento narrativo.

Se Rami Malek já possuía experiência como ator profissional ao encarnar uma caricatura de Freddie Mercury, pelo qual recebeu o Oscar de Melhor Ator, Jaafar Jackson merece nossa boa vontade ao estrear como ator sob o peso de encarnar não só um ídolo multigeracional, mas... o próprio tio. Apesar de flertar com a caricatura ao tentar reforçar a aura timidamente sacra concebida pelo roteiro (com forte ênfase no tom de voz agudo e na postura artificialmente retraída), o rapaz merece créditos por capturar quase todos os maneirismos do tio, protagonizando sequências em que até parece estar possuído pelo espírito de Michael Jackson, especialmente em shows icônicos. As marcas registradas como os tiques vocais, a movimentação no palco e até os pés inquietos são retratadas com assustadora perfeição por Jaafar.

Por falar em pés, o diretor Antoine Fuqua, famoso pela colaboração com Denzel Washington em filmes como Dia de Treinamento e a trilogia O Protetor, adota uma abordagem comedida, quase como se estivesse determinado a manter imaculada a imagem do astro e/ou preocupado em desagradar a família dele. Quando resolve abandonar o conservadorismo, somos presenteados, por exemplo, com uma brincadeira extremamente perspicaz envolvendo uma solicitação feita por Michael Jackson ao cineasta John Landis durante as gravações do clipe de Thriller: Citando uma entrevista de Fred Astaire, o cantor pede para sempre ser filmado de corpo inteiro, pois os pés representam o elemento mais importante da coreografia. Em determinado momento, ao contrário de Landis, Fuqua parece ignorar, mas rapidamente ajusta o quadro para atender o pedido do biografado. É um detalhe com o qual Steven Spielberg já havia brincado no ótimo Os Fabelmans, mas que não deixa de ser sagaz. Outro ponto positivo é a ideia de utilizar os figurinos das apresentações de Jackson para marcar transições, inaugurando e encerrando eras.

Mas é claro que o forte da produção não poderia ser outro senão as canções imortais de Michael Jackson: por mais que a história soe burocrática em muitos momentos, a narrativa sempre recupera o fôlego quando o foco está numa apresentação do cantor, o que é potencializado pelo som absolutamente espetacular e que deverá ser reconhecido na próxima temporada de premiações. Tamanho cuidado com a obra do Rei do Pop só reforça a impressão de que Michael é um feito sob medida para os fãs, oferecendo uma experiência com alto potencial para se tornar inesquecível, principalmente se visto numa sala com bom equipamento sonoro.

É uma pena que esse afago não se estenda àqueles que buscam saber mais sobre a vida de um dos artistas mais importantes da nossa história. Desviando de praticamente todas as polêmicas (até aquelas recentemente esclarecidas) e controvérsias que orbitaram sua trajetória. E a promessa de continuá-la num próximo filme além de não servir como garantia de profundidade, tampouco deveria soar como desculpa para esvaziar essa primeira parte. Aliás, mesmo trazendo uma rima visual e sonora com o início da projeção, o desfecho não deixa de parecer abrupto, interrompendo a narrativa justamente no clímax, como se o terceiro ato tivesse ficado de fora.

Independentemente da postura gananciosa do estúdio, Michael deverá angariar novos fãs sem perder os antigos, mas ao contrário do astro em termos artísticos, não possui substância suficiente para se colocar no Panteão das cinebiografias.


NOTA 6

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