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CRÍTICA | 'Eles Vão Te Matar'

  • Foto do escritor: Guilherme Cândido
    Guilherme Cândido
  • há 22 horas
  • 3 min de leitura

Zazie Beetz vinha construindo uma carreira interessante, conhecida basicamente como aquele tipo de coadjuvante destinado a roubar a cena. Foi assim com Coringa e, principalmente, em Deadpool 2. No sucesso protagonizado por Ryan Reynolds, inclusive, vimos lampejos de uma atriz destinada ao estrelato, exibindo carisma e convencendo na ação, como uma espécie de preparação. Em Eles Vão Te Matar, Beetz finalmente tem a oportunidade de mostrar estar pronta para encarar o desafio de liderar seu próprio filme, mesmo que esse debute como protagonista aconteça numa produção muito mais preocupada em escancarar inspirações do que exibir uma visão própria.


O russo Kirill Sokolov escreve e dirige uma história com muitas influências, desde quadrinhos e videogames até, logicamente, o Cinema, do qual bebe até demais da fonte do Blaxploitation e de Quentin Tarantino, especialmente de seu Kill Bill: Volume 1. Há planos indubitavelmente estilosos, como a perseguição por corredores claustrofóbicos, no qual a anti-heroína se desloca pelas laterais como num jogo de plataforma e tomadas escurecidas que mais parecem saídas diretamente de HQs. Aliás, até a estrutura narrativa deriva de um videogame, com o chefão guardado a sete chaves para o embate final. Em meio a tantas derivações, o que sobra da voz de Sokolov? Uma emulação da de Tarantino, podemos responder de bate-pronto. Vale dizer, no entanto, que até mesmo a obra-prima estrelada por Uma Thurman representava uma homenagem aos filmes de artes marciais produzidos no Japão e na China durante as décadas de 60 e 70.

Não à toa, o primeiro grande set-piece (talvez o melhor) de They Will Kill You, no original, seja aquele em que Asia Reaves faz picadinho de um quarteto de vilões mascarados tal qual o embate da Noiva contra os Loucos 88, com membros voando e muito sangue esguichando. A única diferença, no entanto, é que o filme prestes a estrear nos cinemas brasileiros se assume mais como um trash do que qualquer outra coisa. Basta ver a natureza artificial dos esguichos de sangue e dos membros falsos (até uma cabeça), para ter uma noção das pretensões de Sokolov. A piada envolvendo um olho arrancado é a cereja do bolo nas referências a Kill Bill.

Já o roteiro é frágil demais para ser encarado como algo além de um respiro entre sequências de ação. Pois a tentativa de evocar alguma emoção entre os personagens soa tão torpe e cínico como a própria narrativa. Que, vale dizer, sequer funciona como comentário social, pois a ideia de vilanizar “ricos e poderosos”, não passa da premissa. Sucedendo as grandes corporações, como os novos vilões favoritos de Hollywood, os ricaços daqui são um mero rascunho e impossibilitam a Sokolov formular um discurso sobre conflito de classes por exemplo. Quando tenta, soa como um adolescente raivoso, do tipo que se distrai com a própria retórica ou, nesse caso, com a própria direção.

Nesse aspecto, o cineasta combina todas as inspirações supracitadas com floreios estéticos que jamais se justificam. Ora, se até os zooms repentinos de Kill Bill conectavam a produção ao western spaghetti de Sergio Leone, qual o motivo de saltar o eixo ou circular personagens por aqui? Há sim, um cuidado na hora de elaborar as boas cenas de luta, cujas criativas coreografias são executadas no limiar do comprometimento por parte de Zazie Beetz. O problema é que nem a curta duração impede o filme de incorrer em repetições, vendo o ritmo desvanecer em momentos nos quais a história parece não sair do lugar (literalmente).


Da mesma forma, o design de produção é competente apenas como pano de fundo, pois sequer há o interesse em se aprofundar na mitologia do local. Inclusive, é uma pena que o roteiro não tenha dedicado algum tempo para nos apresentar aos andares do Virgil (espécie de genérico do Continental de John Wick), limitando-se a informar a existência de um "andar do sexo". Ao menos serve para se conectar a um famoso escândalo que continua a manchar a imagem de várias celebridades.

E se você chegou aqui na esperança de saber do que se trata a história, saiba que Beetz entra numa espécie de hotel procurando pela irmã e descobre estar no meio de um culto satânico em que os membros venderam a alma em troca de imortalidade (o que enfraquece a história, já que as consequências inexistem). No final do dia, ela precisará não apenas resgatar a moça, como também descobrir um jeito de fugir daquele lugar, tudo isso tentando se manter viva enquanto despedaça satanistas.

Contando com um dos finais mais bizarros dos últimos anos, Eles Vão Te Matar é um subproduto que até chega a divertir, mas só até percebermos que não oferece muito mais do que ideias derivadas de filmes melhores.


NOTA 5

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