CRÍTICA | "O Diabo Veste Prada 2"
- Guilherme Cândido

- há 7 horas
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Na onda de continuações tardias e projetos nostálgicos que assola Hollywood atualmente, era uma questão de tempo até O Diabo Veste Prada 2 chegar aos cinemas. Gosto do primeiro filme, que apesar de ter um roteiro formulaico (a jovem aprendiz que passa por percalços antes de finalmente se dedicar e vencer no trabalho, mas deixando de lado amigos e familiares até se redimir e encontrar equilíbrio num final catártico), elevava-se com a presença irresistível de Meryl Streep. Mais do que irresistível, Streep recebeu uma merecida indicação ao Oscar (a décima quarta!) por adicionar nuances à megera Miranda Priestly, numa performance tão acima da média que acabou potencializando a produção.
O orçamento já enxuto de 35 milhões de dólares ficou ainda mais modesto quando comparado aos mais de 326 milhões de dólares arrecadados nas bilheterias ao redor do mundo. No entanto, não caio na armadilha de estabelecer uma ligação direta entre o sucesso acachapante de público e um suposto status de “clássico” contemporâneo, “marco”, “ícone”, ou derivados, como está sendo dito por aí. Afinal, se bilheteria realmente for o principal parâmetro para cravar um título na História, teremos o mesmo ímpeto para louvar a franquia Transformers, por exemplo? O Diabo Veste Prada, de fato, foi um filme divertido, mas não o enxergo muito a frente de De Repente 30, por exemplo, só para citar um longa-metragem tematicamente semelhante, mas sem a mesma aclamação global.

Isto posto, Diabo Veste Prada 2 chega aos cinemas quase duas décadas após o original e, ao menos, faz questão de reconhecer isso. Revistas agora são quase completamente digitais, o êxito de publicações é medido por cliques e as tendências são cada vez mais fugazes, dificultando ainda mais o trabalho de Miranda Priestly, ainda a frente da renomada Runway. Mas o roteiro novamente assinado por Aline Brosh McKenna expande o escopo para mostrar também as mudanças na área jornalística, especificamente aquelas vividas por Andy Sachs, que inicia a projeção sendo demitida por uma mensagem de texto pouco antes de receber um prêmio pela excelência de um artigo.

Pena que a credibilidade adquirida com o discurso de Andy escorre pela mão pesada da roteirista, ansiosa para contextualizar a história, refrescar a memória dos espectadores casuais e, claro, apelar para a memória afetiva daqueles que farão do filme um dos grandes blockbusters da temporada. Quem tiver o antecessor fresco na lembrança, será recompensado por uma saraivada de referências que vão de frases e diálogos recitados na íntegra (as garotas que matariam para trabalhar com Miranda, isso é tudo), passando por repetições de sequências (os créditos iniciais, a montagem ilustrando trocas de figurinos) e até momentos mais sutis (os cintos azuis, a risada debochada).

Pois, afinal, O Diabo Veste Prada 2 é (novamente) dirigido por David Frankel com a única diretriz de não desagradar aos fãs. Pode não parecer muito, mas provavelmente será o suficiente para grande parte do público que for assistir e certamente para os executivos da Disney, ávidos por capitalizar mais uma vez a memória afetiva do espectador. No entanto, o longa se recupera do tombo inicial e, se tem mais dificuldades para provocar gargalhadas dessa vez, ao menos garante o sorriso da plateia até o final.

A maior parte dessa nova percepção passa pela readequação de Miranda num plano maior. Antes, todos orbitavam a diretora da Runway, a principal fonte de inspiração do roteiro, agora, há quase uma equiparação entre as personagens. Se a igualdade não chega a ser plenamente concretizada, é porque Meryl Streep mantém a altivez do papel, ainda nos brindando com olhares de julgamento e comentários ácidos (que ganham uma divertida “moderação” da nova assistente, preocupada com o politicamente correto). Desta vez, porém, nada de ordens absurdas e tarefas improváveis, já que Miranda Priestly é apenas mais uma mulher tentando sobreviver num mundo em constante mudança.

Um dos momentos mais reveladores de O Diabo Veste Prada foi aquele em que Andy testemunha uma discussão entre a chefe e o marido dela, num raro lapso de vulnerabilidade que Streep utilizava para humanizar a personagem, até então implacável. Nesta continuação, vemos Miranda ser repreendida por superiores, persuadida por colegas e descendo do panteão para jogar com a equipe. Aqueles que forem ao cinema esperando um repeteco, deverão ajustar expectativas, portanto. Por outro lado, Anne Hathaway se concentra em tornar Andy ainda mais simpática e inocente, cumprindo a missão sem dificuldade (nem uma burocrática subtrama amorosa ofusca o brilho da atriz). Quem se sai melhor nesse novo cenário é o Nigel de Stanley Tucci, um oásis de sensatez e calor humano que agora é presenteado com o melhor arco dramático da narrativa. Aliás, a nova produção merece créditos por se debruçar sobre o final polêmico do personagem na produção original, oferecendo um desenvolvimento que vai além do adequado.

Mais do que adequada é a participação de Emily Blunt, responsável por trazer o mundo das corporações para dentro da trama. Em tempos de aquisições e fusões (em especial a da Warner) enlouquecendo o Mercado, a ideia de abordar a influência cada vez maior dos conglomerados empresariais é bem-vinda e corresponde à melhor atualização do roteiro. É quando se propõe a discutir a crise do jornalismo e a comoditização dos princípios que o texto alcança os melhores resultados, dando-se ao luxo, inclusive, de pavimentar o caminho para algumas boas surpresas.
Mesmo inferior ao filme de 2006, O Diabo Veste Prada 2 acaba sendo tão agradável quanto um passeio no parque ao lado de velhos amigos e, para muitos, talvez isso seja o bastante.
NOTA 6









