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CRÍTICA | 'Nuremberg'

  • Foto do escritor: Guilherme Cândido
    Guilherme Cândido
  • há 8 horas
  • 4 min de leitura

Já vimos tantas obras sobre o Tribunal de Nuremberg, que mais um filme sobre o processo que julgou e puniu os criminosos de guerra do Eixo, pode soar redundante. No entanto, em tempos belicosos como o que vivemos, a verdade não poderia ser mais diferente. Pois o maior objetivo do roteirista e cineasta James Vanderbilt, não é exatamente recriar fidedignamente aqueles acontecimentos, mas sim conduzir um conto de advertência no qual nos lembra do passado para que não sejamos condenados a repetí-lo.

A história tem início alguns dias após o suicídio de Hitler, com o Marechal Hermann Göring (Russell Crowe), o número dois do Regime Nazista, rendendo-se aos EUA. O ato, ao invés de ser encarado imediatamente como uma forma de submissão e desistência, despertou suspeita justamente pela possibilidade de ter sido pensado como parte de um plano maquiavélico do estrategista alemão. Quem atesta isso é o psiquiatra Douglas Kelley (Rami Malek), responsável por zelar pela saúde mental dos prisioneiros nazistas antes do julgamento, que além de reconhecer a inteligência de Göring, detecta traços de narcisismo e um potencial para manipular tudo e todos à sua volta. Em paralelo, o juiz Robert Jackson (Michael Shannon), se encarrega de superar a burocracia para legitimar o tribunal que ajudou a idealizar, articulando uma frente que inclui as principais potências do mundo.

À primeira vista, o que poderia ser o principal obstáculo de Nuremberg acaba sendo um de seus poucos trunfos, que é o de ser concebido como um clássico drama de tribunal, cortesia do arroz com feijão da direção de Vanderbilt. Por outro lado, é curioso que o tempo que passou escrevendo blockbusters formulaicos como A Fonte da Juventude (2025), Pânico VI (2023) e Independence Day: O Ressurgimento (2016) tenha contaminado o trabalho do realizador a ponto de incluir sequências dignas de um filme de super-herói, como aquela em que vemos Kelley e Göring se vestindo como se fossem travar uma batalha pelo destino da humanidade (o que não deixa de ser uma verdade, por assim dizer).

Antes fosse esse o pior problema da produção, que conta com um dos trabalhos mais anódinos de Vanderbilt como roteirista, a começar pelos diálogos óbvios e que subestimam a inteligência do espectador ao denotarem um grau tão irritante de didatismo que chega a ser cansativo. E as exposições, quase sempre iniciadas por “espera aí, então você está me dizendo que…”, começam já nos primeiros instantes, quando Jackson e outra personagem explicam o contexto narrativo como se estivessem dando uma sinopse do filme.

Tudo piora quando lidamos com personagens supostamente brilhantes, a começar pelo Dr. Douglas Kelley, cujas observações sagazes são desmontadas por explanações rasas completamente desnecessárias. Falando nele, é uma pena que um sujeito tão fascinante tenha caído no colo de um intérprete tão limitado como Rami Malek, cujo Oscar por Bohemian Rhapsody (2018) fica cada vez mais embaraçoso para a Academia. Incapaz de projectar o intelecto privilegiado de Kelley, Malek até possui alguns bons momentos, mas invariavelmente alterna entre o histrionismo e a apatia. Em contrapartida, Russell Crowe, sempre carismático, engole seu colega de cena ao dissecar as nuances de Göring com sutileza, seja pelos olhares expressivos ou pelos sorrisos debochados. A retórica do oficial também é trabalhada com cuidado pelo vencedor do Oscar (esse sim, justo, embora pelo filme que menos merecia). Pena que nem ele escapa do texto desastroso, perdendo todo o peso dramático na segunda metade, quando Nuremberg sacrifica a complexidade de Göring para transformá-lo num supervilão ponto para enfrentar James Bond.

Explicando absolutamente tudo, de piadas óbvias até funções básicas, o longa-metragem faz um tremendo mal uso de suas quase duas horas e meia de projeção, conduzindo o espectador por uma narrativa burocrática que mal reconhece o potencial de alguns raros bons momentos e a conversa entre o juiz Jackson e o Papa é o que desperta mais frustração nesse sentido. Previsível a ponto de permitir que telegrafemos foreshadowings e reviravoltas, há ainda a pachorra de incluir um “comentarista de tribunal”, responsável por pérolas como “ele o pegou!” e “fulano está em apuros, melhor passar para o próximo tópico”, pois Vanderbilt está convicto de apresentar seu filme para uma plateia de imbecis. Quanto a isso, ele só acerta quando resolve mostrar, uma vez mais, que o Nazismo nasceu a partir do ódio aos bolcheviques, iniciando uma “caçada aos comunistas” que perdura até hoje. Nesse caso podemos perdoar o didatismo excessivo do instante em que um oficial alemão diz “os campos de concentração foram criados para o combate aos comunistas”, pois quem mantém uma tese oposta, talvez não tenha motivos para reclamar do tratamento dado por Vanderbilt.

Coerente ao finalizar de forma tão simplória e ríspida como começou, Nuremberg é um projeto cheio de boas intenções, mas executado da forma mais canhestra possível, o que dilui até mesmo o impacto da lamentavelmente necessária declaração de Kelley para um programa de rádio, resvalando no proselitismo ao alertar para os perigos do Nazismo mesmo hoje em dia. Às vezes, mesmo a contragosto, precisamos tomar um remédio amargo, o que pode ser literal como um medicamento, ou figurativo, como a experiência de assistir ao novo longa-metragem de James Vanderbilt.


NOTA 4

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