CRÍTICA | "A Noiva!"
- Guilherme Cândido

- 6 de mar.
- 3 min de leitura

É impossível assistir a este A Noiva! sem lembrar do controverso Coringa: Delírio a Dois. E mais, o segundo trabalho da atriz Maggie Gyllenhaal como cineasta soa como a materialização dos sonhos molhados de Todd Phillips, inacreditavelmente responsável pelos dois filmes do vilão interpretado por Joaquin Phoenix. Mais preocupado em contrariar a ala xiita dos fãs de sua primeira adaptação dos quadrinhos da DC, o realizador manchou o legado de sua bilionária e premiada franquia enquanto tentava contar na tela uma história claramente acima de suas limitadas capacidades criativas. Enquanto isso, Gyllenhaal, cujo filme de estreia foi o ótimo A Filha Perdida (pelo qual foi nomeada ao Oscar de Melhor Roteiro Adaptado), demonstra coragem e aptidão não apenas para conceber uma narrativa sobre uma figura marginalizada inspirando um levante, mas principalmente por fazê-lo ao adaptar um dos grandes clássicos da Literatura e, por consequência, do Cinema.

A nova-iorquina o imagina o Monstro de Frankenstein em plena década de 1930, num estado de profunda tristeza após vagar sozinho por um século. A solução encontrada é implorar para uma cientista (famosa pela reanimação de cadáveres) lhe dar uma companheira, a quem amará incondicionalmente por tirá-lo da agonia da solidão. O corpo escolhido é o de uma jovem vítima do temível gângster local, renascida sem recordações de sua vida pré-assassinato. A moça, no caso, é Ida frequentadora de círculos sociais repletos de figuras repugnantes, o que também a coloca à mercê de situações desconfortáveis, mas que só outras mulheres são capazes de entender plenamente.

Gyllenhaal, também autora do roteiro, é hábil ao costurar sua ode à sororidade junto a uma trama desafiadora que recusa amarras estéticas. Demonstrando conhecimento acerca dos gêneros que aborda, ela incrementa sua aventura à la Bonnie e Clyde - Uma Rajada de Balas (1967) com elementos góticos sem se furtar de prestar homenagens a mulheres emblemáticas como as atrizes Ida Lupino, Marlene Dietrich e, claro, Ginger Rogers, uma de suas maiores inspirações. Tanto que há várias sequências remetendo a clássicos estrelados por Rogers ao lado de Fred Astaire, aqui referenciado na pele do Ronnie Reed de Jake Gyllenhaal, irmão de Maggie. Se nem tudo funciona, pois há o claro interesse em mirar em mais alvos do que seria possível acertar, a realizadora merece aplausos de pé, por exemplo, ao relembrar um dos momentos mais marcantes de O Jovem Frankenstein (1974), obra-prima de Mel Brooks que também adaptou o romance de Mary Shelley, mas sob o viés do humor.

A própria Shelley, aliás, é incorporada à narrativa dividindo com Ida o rosto de Jessie Buckley, que na próxima semana tem tudo para ganhar o Oscar de Melhor Atriz por seu trabalho em Hamnet- A Vida Antes de Hamlet. Em mais uma masterclass performática, a britânica ilustra a intrincada fusão de personagens através de um aceno à Síndrome de Tourette, colhendo resultados não menos que extraordinários e sob um nível altíssimo de dificuldade. Alternando entre o sotaque estadunidense de Ida e o bretão de Shelley, Buckley ainda se propõe a espasmos verborrágicos, refletindo diretamente o ofício e a competência da escritora, outra vítima do preconceito de gênero. Que, como não poderia deixar de ser, torna-se a tônica do texto, ganhando força especialmente no monólogo inicial da Dra. Euphronius de Annette Bening, revelando usar o sobrenome para evitar o julgamento de seus colegas machistas (situação semelhante à da própria autora de Frankenstein, diga-se de passagem).

Com aparente liberdade ao fazer sua própria versão de A Noiva de Frankenstein e espelhando a natureza de seus protagonistas ao se assumir parte filme de gângster, parte terror gótico, parte romance punk, parte musical, parte filme de monstro, Maggie Gyllenhaal alia talento e bravura ao colocar na tela tudo aquilo que Todd Phillips tentou fazer, mas não teve habilidade e nem coragem para tal. Um filme que se propõe a desafiar, tirar da zona de conforto, tal qual se espera da Arte, por isso talvez encontre dificuldade em ressoar com o público casual. Em contrapartida, a impossibilidade de ficar indiferente é apenas um atestado de que o objetivo foi cumprido com louvor.
NOTA 8









