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CRÍTICA | "Dia D"

  • Foto do escritor: Guilherme Cândido
    Guilherme Cândido
  • há 1 dia
  • 4 min de leitura

Reduzir a obra de um cineasta com mais de cinco décadas de experiência a um único tema pode parecer leviano, no entanto, analisar a carreira de Steven Spielberg sem mencionar uma certa obsessão por seres extraterrestres é quase inconcebível. O mestre responsável pela criação do blockbuster moderno e autor de alguns dos clássicos mais admiráveis do Cinema, pode ter se mostrado pessimista ao refazer Guerra dos Mundos (2005), mas o otimismo cândido tão caro à sua filmografia já estava presente em E.T. (1982) e, claro, em Contatos Imediatos do Terceiro Grau (1977), longa-metragem do qual este Dia D soa praticamente como uma versão alternativa/continuação espiritual.


Não sou muito chegado a trailers, pois são peças publicitárias feitas para instigar o espectador ao ponto de despertar vontade de assistir a um filme. Nada contra, apenas penso que, como não preciso ser “convencido” (minha ideia utópica é ver tudo o que for possível), consequentemente não faço parte do público-alvo, o que por tabela me permite fugir de eventuais spoilers. Nesse sentido, espero que você também tenha conseguido se esquivar das peças publicitários de Disclosure Day (no original), sob a pena de entrar no cinema sabendo mais do que deveria.

Isto posto, a história assinada pelo próprio Spielberg e transformada em roteiro por David Koepp, acompanha uma dupla de protagonistas: Margaret (Emily Blunt) é uma meteorologista que passa a apresentar um comportamento estranho após a visita de um simpático pássaro cardeal, como ao conseguir conversar em idiomas que não dominava (terráqueos ou não); Daniel (Josh O’Connor) é um especialista em segurança cibernética que após descobrir os segredos pelo qual era pago para guardar, decide compartilhá-los com o mundo, o que pode significar uma mudança gigantesca em escala global. Em paralelo, Scanlon (Colin Firth), o líder de uma organização contratada pelo governo para proteger dados confidenciais, articula uma caça implacável para pegar os dois antes que a resposta para a pergunta “Estamos sozinhos no Universo?” seja respondida.

Koepp pode ser um bom profissional, mas regularidade nunca foi um ponto forte de sua respeitável trajetória em Hollywood. É o que explica ter escrito Jurassic Park, Missão: Impossível e O Pagamento Final, mas também Você Deveria Ter Partido, A Múmia (a bomba detonada por Tom Cruise, não a aventura capitaneada por Brendan Fraser) e Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal, que além de ser disparadamente o pior capítulo estrelado por Harrison Ford, também tinha alienígenas no enredo, mesmo que indiretamente.

O roteirista, no entanto, não estava nos melhores dias quando trabalhou no script de Dia D, pois jamais consegue sair do óbvio na hora de levantar questionamentos. A discussão sobre o Cristianismo ganha argumentos tão rasos que nem deveria ter sido levantada (uma conversa envolvendo duas religiosas representa a epítome da superficialidade). A ideia de uma Terceira Guerra Mundial estar prestes a eclodir é intrigante, mas por não ser explorada, escancara o fato de ter sido concebida apenas como um subterfúgio para alegar a polarização do mundo e justificar determinadas atitudes da sociedade (a sequência do saqueamento, por exemplo). E nem os diálogos escapam, pois quando não soam ridículos (“Você é ela!” deve ter sido a fala mais dolorosa já proferida pelo sempre excelente Colin Firth), resvalam na exposição gratuita (pobre Colman Domingo). E nem vou mencionar a ausência de justificativas para a crença cega em seu personagem, por exemplo. Isso é o que impede a produção de alcançar a excelência, fazendo jus à ambição dos fascinantes conceitos saídos da mente de Spielberg.

É uma pena que o texto seja tão inconsistente, pois o diretor quatro vezes vencedor do Oscar demonstra uma inspiração inversamente proporcional, aparecendo para salvar a trama do tombo a cada vez que ela patina. Como um bom thriller conspiratório, Dia D é ágil e tenso, uma combinação administrada com perfeição e que resulta num ritmo absolutamente impecável, chegando a lembrar Todos os Homens do Presidente em alguns momentos. Em outros, nos remete ao grande contador de histórias que Spielberg é, mesmo lidando com uma narrativa sem grandes efeitos visuais ou sequências mirabolantes. Tanto que a mais impressionante (a do trem, uma referência direta a Os Fabelmans) ganha tom de espetáculo justamente pelas habilidades do diretor e não pela complexidade em si.

E já que citei uma referência, o filme possui vários momentos que espelham Contatos Imediatos do Terceiro Grau: repare, por exemplo, como a sequência-chave com luzes de uma nave alienígena agora dão lugar às sirenes policiais. O perigo é o mesmo, mas dessa vez parte dos humanos e não dos extraterrestres. Emily Blunt (de Oppenheimer) oferece uma das melhores atuações de sua carreira precisamente por dar continuidade ao trabalho de Richard Dreyfuss, sujeito que acaba engolido pela própria obsessão. Da mesma forma, Josh O’Connor (o mais trabalhador dos atores hollywoodianos!) representa a fé na humanidade, o virtuosismo ou, em outras palavras, o que invariavelmente acaba servindo como a bússola moral e tonal dos filmes de Spielberg.

Contando com mais uma trilha sonora inesquecível do gigante John Williams, Dia D finalmente tende a dividir o público quando adentra o terceiro ato. A geração ávida por explicações, talvez tenha que, mais uma vez, recorrer a vídeos de “final explicado” para entender que, na verdade, a grande “revelação” diz muito mais sobre a humanidade em si do que a uma óbvia confirmação de que não estamos sozinhos no universo.


Um trabalho sólido de um mestre que claramente ainda goza de pleno domínio da Arte Audiovisual, tanto que, mesmo sabotado por um roteiro fraco, seu mais novo filme oferece uma experiência cinematográfica de primeira linha. Daquelas que costumavam apaixonar e produzir cinéfilos...


NOTA 7,5

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