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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

"Oppenheimer" promove estudo de personagem tenso e deslumbrante


Sou um grande admirador da maioria das produções dirigidas pelo britânico Christopher Nolan, especialmente aquelas lançadas entre 2005 e 2010, auge criativo representado por quatro obras superlativas (Batman Begins, O Grande Truque, Batman – O Cavaleiro das Trevas e A Origem). Um detalhe curioso e que talvez seja mais do que uma mera coincidência é que todos os títulos supracitados foram escritos por Nolan juntamente com seu irmão Jonathan, cuja parceria foi finalizada com o superestimado Interestelar. Oppenheimer, mais novo projeto solo de Christopher Nolan ratifica uma impressão construída ao longo dos anos, expondo fragilidades que ficaram escancaradas, por exemplo, em Tenet, seu filme anterior e que conta com mais predicados técnicos do que narrativos. Como realizador, Nolan se revelou um homem de ideias inovadoras, tanto que sua releitura de Batman revolucionou a Indústria, mas sua maior fraqueza como roteirista reside no apego incondicional à exposição excessiva de informações nos diálogos, algo que também prejudica sensivelmente sua mais nova produção a ser lançada nos cinemas.

Adaptando a biografia Oppenheimer: O triunfo e a tragédia do Prometeu americano, best-seller que rendeu o Pullitzer aos escritores Kai Bird e Martin Sherwin, o roteiro assinado por Christopher Nolan narra a jornada de J. Robert Oppenheimer (Cillian Murphy, da série Peaky Blinders) desde seus estudos acadêmicos até se tornar o “pai da bomba atômica”, num arriscado esforço coletivo que envolveu as forças armadas estadunidenses representadas pelo General Leslie Groves (Matt Damon) e um grupo formado por notáveis cientistas que inclui direta ou indiretamente a participação de nomes como Enrico Fermi, Niels Bohr e até mesmo Albert Einstein. A iniciativa batizada de “Projeto Manhattan”, no entanto, embora apressada após os nazistas começarem a desenvolver seu próprio armamento nuclear, despertou a atenção dos políticos norte-americanos, já que a participação de Oppenheimer em atividades consideradas “de esquerda” levantavam suspeitas sobre a lealdade do cientista (seria ele um agente duplo trabalhando para a União Soviética?). Não nos esqueçamos que o desenvolvimento da bomba prenunciou a corrida armamentista que mais tarde evoluiria para a Guerra Fria.

Aliás, ao dividir a narrativa entre diversas linhas temporais (algo já feito com eficiência no ótimo Dunkirk), Christopher Nolan nos lembra o tempo todo das consequências do sucesso de Oppenheimer e sua equipe antes mesmo do artefato finalmente ser utilizado. Com essa união entre ação e reação, causa e efeito, Nolan cria uma atmosfera de apreensão que facilita a empatia do espectador pelo homem, sujeito que quando surge em cena pela primeira vez já mostra um desequilíbrio psicológico, atormentado por “visões do futuro” que são traduzidas por Nolan em sequências abstratas que reforçam a abordagem subjetiva do roteiro. Se num dado momento vemos o protagonista determinado em sua missão de “acabar com todas as guerras”, logo somos atirados a uma linha temporal em que ele confessa ter sangue em suas mãos, demonstrando culpa por ter entregue à humanidade uma arma capaz de destruir o planeta (daí a menção a Prometeu).

E Cillian Murphy é eficaz ao transmitir esse tumulto interno, com os olhos perplexos sugerindo um sujeito permanentemente preocupado, carregando o peso de uma missão cujo legado é obviamente grande demais para um simples ser humano. Transitando com desenvoltura entre os diferentes estágios de vida do físico teórico, Murphy é inteligente ao utilizar a melancolia como o único sentimento compartilhado por suas versões, fazendo uma distinção ainda mais eficiente do que o sutil trabalho de maquiagem desempenhado por Luisa Abel (Air: A História Por Trás do Logo). Seguro e expressivo, o ator irlandês estava tão acostumado a interpretar papéis como coadjuvante que às vezes nos esquecemos de que também é talentoso o bastante para protagonizar um estudo de personagem.

Aparentemente incapaz de escrever uma narrativa convencional (vide a elaborada estrutura de Dunkirk e as camadas de A Origem), Nolan fragmenta a narrativa em épocas e perspectivas específicas, recebendo a ajuda do diretor de fotografia Hoyte Van Hoytema (Tenet) para distinguir cada uma delas. Um esforço que, embora se revele admirável pela intenção de fugir do mundano, traz desafios não apenas à montagem de Jennifer Lame (Pantera Negra – Wakanda Para Sempre), como também ao próprio espectador, que precisa estar atento não apenas aos acontecimentos, mas principalmente aos inúmeros personagens que se avolumam conforme a história avança.

A estrutura segmentada da história nada mais é do que um recurso utilizado por Nolan para acomodar seu indefectível apreço pelos diálogos expositivos, seguindo uma tradição já longamente estabelecida. Quando dois personagens se aproximam para conversar num filme de Christopher Nolan, é porque alguma informação importante deve ser passada para o público, não há espaço para interações corriqueiras ou que oportunizem um desenvolvimento mais cuidadoso dos personagens, a exemplo das mulheres que passam pela vida do protagonista, figuras unidimensionais e passivas concebidas sob medida para servirem de apoio a Oppenheimer, como a Kitty vivida por Emily Blunt (Um Lugar Silencioso). Num elenco absolutamente estelar, Blunt ainda ganha a companhia de Matt Damon, cujo carisma e bom humor fazem do General Groves um dos personagens mais simpáticos da história, Florence Pugh (Viúva Negra), infelizmente limitada pelo tempo de tela escasso, e Robert Downey Jr. (Vingadores: Ultimato), que agarra com unhas e dentes a oportunidade de trabalhar com Nolan pela primeira vez.

O cineasta também se dá ao luxo de escalar nomes importantes da indústria (alguns vencedores do Oscar, inclusive) em papéis pouco maiores do que pontas. É o caso de Kenneth Branagh (Morte no Nilo), por exemplo, que ganha a chance de encarnar um dos físicos mais importantes de sua geração, o dinamarquês Niels Bohr (vencedor do Prêmio Nobel em 1922 pelas contribuições no campo da mecânica quântica). Já Rami Malek segue oferecendo argumentos para aqueles que questionam a estatueta que recebeu pela interpretação de Freddie Mercury em Bohemian Rhapsody, já que, assim como aconteceu em 007 – Sem Tempo Para Morrer, desperdiça suas poucas cenas com uma performance apática e que não faz jus à importância de seu personagem para um evento crucial durante o terceiro ato.

E por falar em desfecho, é uma pena que logo após o clímax, a sequência envolvendo o teste prático da bomba, Oppenheimer caia tanto de produção, perdendo ritmo gradativamente enquanto se entrega a uma sequência interminável de inquéritos que acaba salva pela capacidade de Nolan evocar tensão, mesmo que num simples diálogo travado numa sala minúscula. Nesse momento, aliás, a trilha do sueco Ludwig Göransson (vencedor do Oscar por Pantera Negra) é essencial para construir um crescente de apreensão. Aliás, há um momento particularmente inspirado de Göransson que, logo após Oppenheimer ouvir de alguém que a Álgebra é como a partitura de uma música, sendo mais importante ouví-la do que lê-la, introduz uma singela melodia ao violino assim que o físico vai ao quadro negro tentar solucionar uma equação.

É claro que ao mencionar Oppenheimer, não daria para deixar de lado a sequência que vem dominando as conversas sobre o filme, alardeada pelo departamento de marketing graças a aversão de Nolan ao CGI. Carro-chefe da produção e mantida em segredo (ao contrário do que foi feito com o salto de moto de Tom Cruise no novo Missão: Impossível, exaustivamente divulgado), a passagem envolvendo a primeira detonação de uma bomba atômica, isto é, o Teste Trinity, é encenado de forma absolutamente espetacular. Não apenas a construção da expectativa, como também a preparação até a explosão, é cuidadosamente orquestrada por Christopher Nolan e sua equipe técnica. Repare como o diretor mantém o suspense prolongando ao máximo a espera pelo momento histórico (a própria ideia de começar a contagem regressiva em 17 segundos ao invés dos tradicionais 10 já mostra as intenções sádicas do cineasta, que até as reconhece, brincando ao colocar Oppenheimer para dizer que a tal expectativa “não é boa para o coração). Além disso, a preocupação de Nolan com a verossimilhança beneficia imensamente esse momento, respeitando o tempo que o som da explosão leva para chegar aos personagens e, consequentemente, ao espectador. O departamento de som, diga-se de passagem, é um dos maiores trunfos de Oppenheimer e dificilmente ficará de fora do próximo Oscar.

Tematicamente denso ao construir um estudo de personagem sem se esquivar das consequências morais dos atos de seu atormentado protagonista, Oppenheimer oferece uma experiência ainda mais impressionante quando visto numa sala IMAX, usufruindo da capacidade ímpar de Christopher Nolan em provocar tensão, tornando dinâmica uma narrativa de bem aproveitadas três horas de duração.


NOTA 8

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