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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

"Barbie" esbanja criatividade em debochado manifesto feminista

Atualizado: 20 de jul.


Extremamente criativa (palavra-chave do projeto), a origem de Barbie é narrada através de uma referência improvável a 2001 – Uma Odisseia no Espaço, utilizando o clássico seminal de Stanley Kubrick para conferir uma aura transcendental à boneca. Em meio a meninas atônitas com a imagem colossal de Margot Robbie (Babilônia) num extravagante maiô listrado substituindo o indefectível monólito, a narração de Helen Mirren (Shazam! - Fúria dos Deuses) nos lembra que antes de Ruth Handler criar o brinquedo que se tornou uma das marcas mais poderosas do mundo, as bonecas limitavam-se à forma de bebês, corroborando um discurso que demorou a ser entendido como uma indução pouco sutil ao papel da mulher na sociedade. Apesar de extremamente popular (gera mais de 1 bilhão de dólares anualmente aos cofres da Mattel), a boneca batizada em homenagem à filha de sua criadora, nunca deixou de receber críticas, seja por difundir um padrão inalcançável de beleza (ao menos por vias saudáveis) ou pelo simples fato de Barbie possuir bens e imóveis numa época em que as mulheres sequer possuíam os direitos dos quais goza hoje.

A ideia, subversiva por natureza, pode soar original ao público casual, mas na realidade possui uma parcela considerável de conceitos extraídos de Uma Aventura LEGO, outro sucesso da Warner com Will Ferrell (Spirited: Um Conto Natalino) no elenco. No entanto, enquanto o filme sobre os famosos blocos de montar trabalhava dentro dos limites estabelecidos por seu público-alvo, Barbie expande o escopo a níveis que jamais deixam de surpreender e isso já é um alerta e tanto para aqueles que equivocadamente pensam no filme como um passatempo voltado completamente para o público infantil, quando, na verdade, se revela um poderoso manifesto feminista com altas doses de ironia e acidez. Uma sátira debochada e escrachada cuja complexidade temática, apesar de corajosa, tenderá a escapar às mentes mais joviais, enquanto motivará debates acalorados entre os adultos ao longo das semanas que permanecer em cartaz.

Se há cerca de dez, quinze anos alguém viesse do futuro me contar como seria o primeiro filme live-action sobre a Barbie eu simplesmente acharia que o tal viajante do tempo estivesse sob efeito de entorpecentes ou querendo me pregar uma peça. Aliás, é possível que qualquer produtor de Hollywood pensasse o mesmo naquela época, anos antes da explosão de popularidade das redes sociais (especialmente o Twitter) e do #MeToo.

Isso porque o roteiro escrito pela cineasta/atriz Greta Gerwig (Lady Bird - A Hora de Voar) em parceria com o marido Noah Baumbach (diretor do excelente História de Um Casamento), desafia convenções e gêneros ao contar a história de Barbie em sua rotina enquanto popular habitante da Barbielândia, um paraíso idílico que chama a atenção pela arquitetura plastificada, como se casas, carros e demais elementos fossem meros brinquedos. Mas o que faz o lugar soar como uma utopia não são as cores fortes (especialmente o rosa), a estilização ou a energia e o otimismo contagiantes dos demais residentes, e sim o fato de ser uma cidade dominada por mulheres.

Intocada pelo patriarcado (outra palavra-chave do projeto), a Barbielândia possui figuras femininas ocupando cargos de poder e exercendo funções notoriamente ‘masculinas’, como deixa claro a sequência das “mulheres trabalhando”, com diversas cidadãs atuando como pedreiras. Numa inversão jocosa, os homens são vistos como ‘supérfluos’, pessoas que se definem pela aparência e nutrem comportamentos frívolos, além de exibirem uma personalidade potencialmente submissa. O roteiro, em contrapartida, não vende um discurso de reparação ou vendeta, pois a solução para os extremos representados pela Barbielândia e pelo “Mundo Real” repousa num meio-termo que nem sempre é bem articulado, mas cujas intenções não devem ser desprezadas.

A trama ganha corpo quando a Barbie original de Margot Robbie (também chamada de “Barbie Estereotipada”) começa a apresentar ‘defeitos’. Isto é, ao invés de manter-se como a representação física e psicológica da perfeição, ela passa a ter a mente dominada por pensamentos estranhos àquele universo, como um fascínio por temas como morte e celulite (tratadas com a mesma gravidade) e uma misteriosa melancolia frequentemente seguida por lágrimas derramadas sem um motivo aparente. Mas o que faz a Barbie “Estereotipada” procurar por ajuda mesmo, é quando percebe que deixou de andar na ponta dos pés, com os calcanhares tocando o chão ao invés de seguirem em modo “salto alto”. Esse episódio a leva a uma crise existencial que será responsável por conduzí-la até o temível “Mundo Real”, onde a solução para seus problemas repousa nos ombros de uma suposta criança entristecida.

Além da encarnação original (ou “Estereotipada”), o filme faz uma reparação que demorou décadas a ser implementada pela Mattel, incluindo diversas versões que vão desde uma boneca grávida, passando por etnias distintas e até uma edição tresloucada que parece ter sido concebida sob medida para a comediante Kate McKinnon (A Bolha). Assim, Barbie deixa de ser uma figura e torna-se uma ideia, por mais que os executivos da Mattel insistam enxergá-la como uma marca. E se você está estranhando o fato de a Mattel aparecer tantas vezes nesse texto, saiba que a empresa também é incorporada pelo roteiro, que faz questão de mostrar seus executivos como figuras unidimensionais e com olhos apenas para os lucros.

Pois Greta Gerwig e Noah Baumbach encaram todas as críticas feitas à empresa e à boneca de peito aberto, não se esquivando de polêmicas e nem de assuntos espinhosos. A ausência de uma mulher na cúpula de uma divisão voltada para o público feminino é debochada pelo script, que faz de Will Ferrell um perfeito avatar da hipocrisia que rege o mundo corporativo. Ao ser questionado, por exemplo, seu personagem (cujo nome “Executivo 1” escancara sua impessoalidade) chega a dizer, entre outros impropérios, que “tem uma mãe” e que “seus melhores amigos são judeus”. A troça sobre a misoginia não poupa sequer o formato “fálico” do prédio que abriga a empresa. Diante do poderoso engravatado, surge um modesto funcionário no meio da reunião, aproveitando a intromissão para perguntar “eu não tenho poder algum, isso faz de mim uma mulher?”. Nessa mesma sequência, inclusive, é possível ver a sede da Warner Bros. Discovery. Essa metalinguagem rende alguns dos momentos mais irreverentes da obra, que aproveita para tirar sarro de pérolas do próprio estúdio como o famigerado Liga da Justiça de Zack Snyder (ou SnyderCut) e até Matrix (aquele emblemático momento envolvendo a escolha de uma pílula). Sobra até mesmo para Top Gun e sua vastamente referenciada partida de vôlei de praia que ganha contornos hilários e inesperadamente complexos na visão de Gerwig e Baumbach.

Diante de tantas passagens musicais, é compreensível ceder à tentação de comparar o trabalho de Gerwig em Barbie com aquele desempenhado por Baumbach no fraco Ruído Branco, no qual o cineasta nova-iorquino até tentou sair de sua zona de conforto, mas fracassou miseravelmente ao conduzir o péssimo número musical que encerrou o filme da Netflix. Já Gerwig, por outro lado, é eficiente ao investir em planos abertos que salientam a magnitude das cenas, ao mesmo tempo em que permitem ao espectador desfrutar da coreografia, que por sua vez é beneficiada pelos cortes econômicos. E se as melodias são sempre contagiantes, as letras dão um show à parte, com versos espirituosos que ilustram a personalidade de quem está cantando, mas que não deixam de manter a trama em movimento, como os ótimos números protagonizados por Ryan Gosling.

E já que mencionei Gosling, um ator cuja versatilidade pode ser comprovada em produções como Namorados Para Sempre, Drive e A Garota Ideal, é preciso reconhecer a forma com que o canadense abraçou a ideia de Barbie: misturando as composições do romântico Sebastian de La La Land com alguns traços do atrapalhado detetive Holland March de Dois Caras Legais, Ryan Gosling mostra um desprendimento notável, despindo-se de qualquer vestígio de vaidade ao dar vazão a toda a ironia irradiada pelo script. Investindo numa linguagem corporal que serve com perfeição à proposta satírica do filme, Gosling arranca várias gargalhadas com um personagem assumidamente fútil e as inflexões utilizadas durante os diálogos são a cereja de um bolo que fica ainda mais delicioso quando compartilhado com Margot Robbie, intérprete talentosa que não tem dificuldades para transmitir os efeitos da crise existencial que acomete a protagonista.

Tratando-a inicialmente como um ícone do feminismo, os roteiristas são inteligentes ao escolherem estrategicamente aqueles que irão confrontar Barbie. Pois ver a adolescente vivida por Ariana Greenblatt (65 - Ameaça Pré-Histórica) vociferando contra a boneca, utilizando a mesma retórica tóxica que empesteia o ambiente virtual, remete a uma geração conhecida pela postura beligerante. Não por acaso, as justificativas utilizadas para embasar tamanho desprezo pelo que a Barbie (a boneca) representa parecem saídas diretamente do Twitter, ambiente confortavelmente utilizado para dar voz a problematizações, mesmo que nem sempre se apeguem ao contexto.

Enriquecido por um design de produção destinado a ser reconhecido na próxima temporada de premiações, Barbie exibe uma atenção minuciosa aos detalhes, sempre adotando referências para facilitar a conexão do espectador com a proposta. Repare, por exemplo, como a estrada que liga Barbielândia ao Mundo Real é composta por tijolos cor-de-rosa, remetendo diretamente a O Mágico de Oz, ou as dobradiças que marcam os elementos de cena e que ganham uma animação estilizada em momentos específicos (como a enfermaria que se monta sozinha). E se fica difícil imaginar a forma que a produção encontra de conectar os dois mundos, espere para ver as transições que brincam com a diversidade de veículos possuídos pela boneca.

Engana-se também quem pensa que os figurinos batem apenas na tecla da extravagância. O exagero pode até estar presente nas roupas utilizadas por Ken e Barbie, mas a figurinista Jacqueline Durran (vencedora do Oscar por Adoráveis Mulheres), além de utilizar suas criações para refletirem a personalidade dos protagonistas, também mostra repertório, especialmente nas sequências musicais (aquela que homenageia uma boy band muito popular no final dos anos 90, por exemplo). Além disso, note como a cor preta é sempre associada a elementos que vão contra a natureza de Barbie, como a adolescente com quem trava uma feroz discussão (com resultados catastróficos para a boneca) ou para ilustrar a mudança de Ken justamente quando este toma conhecimento do patriarcado.

Diante de dois atos tão divertidos e diabolicamente certeiros na utilização do humor autodepreciativo, é uma pena que Barbie descambe para um final tão hesitante, como se Greta Gerwig e Noah Baumbach não soubessem exatamente como solucionar seus conflitos de forma plenamente satisfatória, perdendo o controle (e o ritmo) nos minutos finais, quando finalmente resolve se debruçar sobre Barbie (a personagem). Na ânsia de mostrar Barbie encontrando seu lugar no mundo, o roteiro entrega-se a diálogos panfletários em momentos que não são construídos para abrigarem aquele tom e nem estou me referindo ao monólogo da personagem interpretada por America Ferrera e sim ao discurso da presidente de Issa Rae, apressado em amarrar pontas e oportunizar o desfecho moral.

Embalado por uma trilha sonora repleta de batidas oitentistas, mostrando que definitivamente se trata de um filme voltado para o público adulto, Barbie é uma experiência imprevisível que deve ressoar não apenas com as pessoas que cresceram com a boneca, mas principalmente com aqueles que sabem apreciar quando o pensamento crítico é estimulado pela Arte, especialmente num blockbuster hollywoodiano voltado para as massas.


NOTA 8


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