CRÍTICA | "Missão Refúgio"
- Guilherme Cândido

- há 1 hora
- 3 min de leitura

Somente uma pandemia global pode parar Jason Statham e digo isso com toda a convicção possível, pois desde 2000, o britânico lançou ao menos um longa-metragem por ano. A exceção? Pois é. Aliás, me corrijo: em 2022 ele também não deu o ar da graça. Mas em compensação, ele apareceu em quatro filmes no ano seguinte, mantendo a média anual incólume.
Se Statham nem de longe aparenta lassitude, seus papéis, ao contrário, estão variando cada vez menos. Não me refiro à persona durona como o astro de ação que é e dos melhores ainda em atividade, vale ressaltar. Trocando em miúdos, no fraco Beekeper - Rede de Vingança (2024), seu personagem era um apicultor que escondia um passado sombrio; o razoável Resgate Implacável (2025) trazia o ator na pele de um empreiteiro que escondia um passado sombrio. Neste Missão Refúgio, Jason Statham é um faroleiro que… esconde um passado sombrio. Desta forma, o primeiro ato de seus longas-metragens está se tornando uma mera redundância.

E assim como ocorreu no bom O Código (2012), as circunstâncias o levam a proteger uma jovem de assassinos. A moça da vez é Jessie, interpretada pela expressiva Bodhi Rae Breathnach, a Susanna do indicado ao Oscar Hamnet: A Vida Antes de Hamlet. É ela quem faz Mason (Statham) abandonar as sombras para ajudá-la, tirando-o de um pacato esconderijo nas Ilhas Hébridas Escocesas para chafurdar o lamaçal político que acontece por baixo dos panos londrinos. Para quem assistiu a três ou quatro produções estreladas por Statham, já é de se esperar que seu personagem fez carreira em algum tipo de esquadrão, a desculpa padrão para justificar o talento inigualável para distribuir sopapos na rapaziada. E convenhamos, quem for ao cinema assistir a Shelter (no original), estará procurando exatamente isso.

O diretor Ric Roman Waugh sabe as regras do jogo, pois é o parceiro habitual de Gerard Butler, outra figurinha carimbada do Cinema Brucutu. Sim, esse ano eles já deram uma bola fora com o decepcionante Destruição Final 2, mas Statham resgata os talentos de Waugh para filmar sequências de ação, principalmente aquelas envolvendo combates corporais. Evitando cortes frenéticos e adotando planos amplos o bastante para que possamos entender a geografia das cenas, o cineasta torna os golpes intensos sem perder a compreensão das eficazes coreografias. Não por acaso, em termos de ação, os pontos altos são a invasão à ilha, com a câmera praticamente acoplada ao rosto de Statham durante uma execução, e o quebra-pau na casa de um aliado. Completando a cartilha clássica, também há a tradicional perseguição de carros e o tiroteio dentro de uma boate, tornado indispensável por John Wick.

Já o roteiro de Ward Parry (A Chamada) busca referências para chancelar os protocolos que aciona e chama atenção a óbvia inspiração na franquia Bourne, com a personagem de Naomie Ackie (Sorry, Baby) em longas passagens gritando em frente a telões num escritório de Inteligência. Confesso, inclusive, ter aguardado alguém soltar um "meu Deus, é Michael Mason!". Bill Nighy quase faz isso e até deveria ter feito, pois jogaria algum brilho no apático vilão burocrata que interpreta.

O diferencial narrativo e que realmente faz de Missão Refúgio o melhor dos seis últimos filmes com Jason Statham é justamente Jessie, que ao invés de se comportar como a menininha inocente e indefesa de sempre, apresenta personalidade e coragem suficientes para apoiar Mason durante os confrontos, agregando à ação. Isso acaba fortalecendo o elo entre os dois ainda mais do que qualquer construção dramática feita por Parry e se beneficia imensamente da química entre eles.

Sem qualquer ambição de reinventar o Cinema de Ação ou postular uma vaga no próximo Oscar, a principal missão do longa-metragem junto ao público é bem simples e bastará um senso adequado de expectativa para ser cumprida.
NOTA 6









