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CRÍTICA | "Destruição Final 2"

  • Foto do escritor: Guilherme Cândido
    Guilherme Cândido
  • há 12 minutos
  • 4 min de leitura

Esses dias estava conversando com amigos e comentei que iria à cabine de Destruição Final 2, ao que imediatamente ouvi: “você gosta mesmo desses filmes de brucutu com o Gerard Butler!”. Se por um lado essa conjectura me divertiu, pois apesar das aparências o original passa longe de ser um “filme de brucutu”, por outro, me impôs uma inesperada reflexão. Afinal, escrevi sobre nada menos do que seis filmes estrelados por Butler. E esse número está aumentando nesse exato momento.

 

O longa anterior, Destruição Final: O Último Refúgio (2020), foi o clímax da epopeia do astro escocês na busca por um bom filme-catástrofe para chamar de seu, mas apesar de cumprido o objetivo, ele não se deu por satisfeito, embarcando numa inusitada e incongruente sequência. Ao menos se levarmos em conta o título brasileiro, como dar continuidade a uma história que se dispôs a uma “destruição FINAL”?

Esse foi o primeiro desafio encontrado por Ric Roman Waugh, californiano que retorna à cadeira de diretor incumbido da tarefa de imaginar a família Garrity após cinco anos de vida sob a superfície devastada pelo cometa Clarke. Ainda confinados no mesmo bunker groenlandês ao qual tanto batalharam para chegar, John (Butler), Alison (Morena Baccarin) e Nathan (Roman Griffin Davies, de Jojo Rabbit) vivem uma realidade carente de maravilhas subvalorizadas, como luz solar, vegetação, estrelas e ar puro. Este último, inclusive, é o principal impeditivo para os humanos restantes não tentarem mensurar pessoalmente a escala dos estragos causados pelo gigantesco corpo celeste. Os poucos que se arriscam, se tornam presas fáceis de problemas respiratórios, como denuncia a tosse persistente de John.

Meia década de calmaria parece ser o suficiente para o Universo, que logo trata de voltar a pregar peças nos pobres sobreviventes, desta vez através de uma tempestade de radiação seguida por um terremoto forte o bastante para abalar as estruturas do suposto “último refúgio”. Não demora até o trio protagonista cair na estrada novamente, lutando pela sobrevivência à procura de um novo lar.

É a desculpa quase perfeita para o roteirista Chris Sparling, agora acompanhado de Mitchell LaFortune (do razoável Missão de Sobrevivência, outro veículo de Butler), tentar repetir os acertos do original. Cujos créditos vão majoritariamente para a acertada percepção de que a reação dos personagens é mais potente do que qualquer catástrofe em si, independentemente da magnitude. Em outras palavras, o drama familiar seria mais eloquente do que um show de pirotecnia computadorizada. E não havia nada mais aterrorizante do que a ideia de ter um Rei Leônidas em absoluto desespero ao confrontar um obstáculo humanamente intransponível. Nem mesmo as contumazes limitações dramáticas de nosso bravo astro de ação foram capazes de impedir o retrato humano e verossímil de um pai tentando proteger a família. O bônus de a narrativa ser, também, ininterruptamente tensa e envolvente, era uma cortesia da condução sóbria e apodítica de Waugh, isso para não mencionar o contexto pandêmico potencializando a identificação para com o espectador e os impactos da trama.

Já essa continuação limita-se a enfileirar peripécias conceitualmente decepcionantes, seja por não causaram o mesmo efeito do primeiro filme e/ou pela forma repetitiva com que são estruturadas. Se antes nos preocupávamos com o desfecho de uma aflitiva corrida por insulina, agora precisamos suportar passagens em que o planeta parece tentar matar nossos heróis a todo custo, utilizando desde uma implacável chuva de meteoros até uma brisa assassina que resolve aparecer durante a travessia de uma ponte precária.

E quando a poeira abaixa, os roteiristas cometem o pecado capital de se levarem a sério demais, tentando introduzir uma alegoria contraproducente dentro dos potenciais chamarizes da recém-criada franquia. Ou alguém dirá que escolheu assistir um filme intitulado “Destruição Final” buscando questionamentos sociológicos ou alusões políticas? Na verdade, o pior nem é salpicar óbvias referências à crise dos refugiados na Europa e à política anti-imigração perpetrada pelo atual (des)governo estadunidense, mas sim a lassitude em desenvolvê-las ou sequer transformá-las em algo mais do que uma mera desculpa para um set-piece. Aliás, como encarar com seriedade um roteiro tão prosaico e inane como este julgando necessário mastigar de cinco em cinco minutos a parca narrativa que leva às telas?

Da mesma forma, é um tremendo desperdício ter como protagonista um ator conhecido pela fisicalidade e colocá-lo para interpretar um papel essencialmente dramático e estoico. Não há correria, lutas ou urros, desta vez (especialidade da casa) apenas sofrimento e uma pontual crise de tosse. John Garrity em sua longa caminhada só faz pausas para sobreviver a pequenas e banais intercorrências naturais, como um carro sendo violentamente arremessado em sua direção. Em contrapartida, a química com a carioca Morena Baccarin (a Vanessa de Deadpool) permanece forte, funcionando como o único pilar impedindo o projeto de desmoronar.

Por mais que tente nos convencer do contrário em seus pouco mais de noventa minutos de projeção, Destruição Final 2 é tolo, insípido e só existe mesmo porque seus produtores foram incapazes de cumprir a promessa presente no título brasileiro.


NOTA 4

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