CRÍTICA | “A Voz de Hind Hajab”
- Guilherme Cândido

- há 1 hora
- 2 min de leitura

*Crítica publicada durante o Festival do Rio 2025
Às vezes um filme é mais do que uma obra de Arte. Às vezes ele é uma obra necessária. Um testemunho, um manifesto ou até mesmo uma denúncia. The Voice of Hind Rajab, no original, é exatamente isso, um projeto essencialmente político adaptado para uma linguagem cinematográfica a fim de ter um alcance maior.
A denúncia, no caso, é dos crimes hediondos cometidos pelo Estado de Israel contra a Palestina, utilizando força militar para subjugar um povo praticamente indefeso. Essa covardia vem polarizando as discussões geopolíticas e a produção dirigida pela tunisiana Kaouther Ben Hania certamente e felizmente intensificará o debate ao chamar atenção para uma situação que se tornou insustentável já há algum tempo.

Ben Hania faz uma dramatização de um episódio triste envolvendo o massacre perpetrado pelos israelenses, utilizando de arquivos reais para potencializar o impacto de sua abordagem, como ligações do serviço de emergência palestino que foram gravadas. Numa dessas gravações, está a menininha Hind Rajab, única sobrevivente de uma viagem de carro em família que termina em brutalidade. Como única sobrevivente, ela mobiliza todo o departamento de emergência, num esforço coletivo para conseguir um resgate.

Atores foram escalados para interpretarem os funcionários públicos, mas tudo o que eles ouvem (e consequentemente nós também) são reproduções de chamadas reais, mostrando o desespero genuíno de pessoas marcadas para morrer por um regime genocida que segue operando impunemente.

Se a força do filme é incontestável do ponto de vista político, como arte possui problemas, efeitos colaterais dessa lógica invertida que gerou o longa-metragem. Afinal, ao invés de um filme feito para absorver as denúncias, temos a denúncia ditando escolhas narrativas. Assim, o resultado é um projeto que se adapta ao meio utilizado (o Cinema) para conquistar seu principal objetivo: fazer uma denúncia chegar ao maior público possível.

Não que A Voz de Hind Rajab seja execrável (e não é), mas é difícil de defender o modelo escolhido para acolher a narrativa, que em seus melhores momentos remete a outro filme, o soberbo Culpa (que gerou um bom remake hollywoodiano com Jake Gyllenhaal). As comparações com a película norueguesa, que também se passa num único ambiente trazendo um telefonista de emergência tentando ajudar pessoas em risco, só enfraquecem os esforços de Kaouther Ben Hania.

Quem não está familiarizado com a linguagem adotada, certamente aplaudirá os recursos utilizados. Aos demais, sobrará uma trama enxuta que visa torturar ao máximo o espectador, impondo obstáculos aparentemente inesgotáveis a seus bravos personagens. Nesse ponto, as repetições são inevitáveis, com destaque para a burocracia invencível do país. Por outro lado, o roteiro merece elogios ao não eleger um vilão, construindo personagens que possuem a boa vontade em comum, colaborando para a construção de uma atmosfera tensa, mas que permite o conforto do humanismo, que surge como um abraço figurativo no espectador.

O que não impede A Voz de Hind Rajab de ser um filme envolvente, tenso e extremamente impactante, justificando os nove prêmios recebidos no Festival de Veneza, onde além de ter vencido o Grande Prêmio do Júri, foi aplaudido de pé por 24 minutos, um recorde para o evento.
NOTA 7,5









