CRÍTICA | “Transamazônia”
- Guilherme Cândido

- há 13 minutos
- 3 min de leitura
*Crítica publicada durante a cobertura do Festival do Rio 2025

Já passava das 22:00 quando o público finalmente pôde se acomodar na sala de projeção para assistir a Transamazônia, produção financiada por diversos país em prol de um único objetivo: denunciar os maus-tratos ao pulmão do mundo. A diretora-executiva do Festival, Ilda Santiago, subiu ao palco para explicar os critérios utilizados na escolha desse filme para compor a curadoria esse ano. O atraso de mais de meia hora foi sumariamente ignorado por um público recheado de membros do elenco e fãs do longa-metragem prestes a ser exibido. A sul-africana Pia Maraïs, simpática, se esforçava para pronunciar uma ou outra palavra em português enquanto agradecia por estar ali apresentando seu projeto para brasileiros. O destaque dessa apresentação, no entanto, foi o jovem ator membro de uma tribo amazônica, explicando os impactos do desmatamento em seu povo.

O filme em si, belissimamente fotografado pelo francês Mathieu De Montgrand, adepto do aspecto enevoado e do contra-plongée para valorizar a magnitude da floresta, tem mais predicados técnicos do que dramáticos, apesar do prólogo interessante e da premissa instigante. Tudo começa com uma garotinha acordando machucada no meio da floresta. A câmera se afasta e a mostra sentada no que parece ser uma poltrona de avião. Pia Maraïs, ainda bem, não é o tipo de diretora que gosta de explicar o que estamos vendo, então podemos deduzir um acidente aéreo, sem grandes intervenções.

A tal garotinha é salva por um indígena, que a leva para um local seguro poucos segundos antes de a história avançar nove anos no tempo. Descobrimos que a garotinha atende pelo nome Rebecca (interpretada pela garota prodígio Helena Zengeldo cult Transtorno Explosivo), cujo pai, Byrne (vivido pelo norte-americano) tornou-se pastor de uma igreja local e a utiliza para operar milagres nos fiéis. Por se passar no coração da Amazônia, é de se esperar um enredo envolvendo funcionários de uma serraria e o respectivo confronto com a população. A chave para apaziguar os ânimos se apresenta com Artur Alves (Rômulo Braga, do bom O Rio do Desejo), que promete deixar o local caso Rebecca cure sua esposa. Mas afinal, Rebecca realmente é capaz de curar alguém? Que bruxaria é essa? A falta de respostas alimenta a curiosidade e esvazia a trama, jogando luz, felizmente, no assunto principal: o desmatamento.

Zengel e Xido formam boa dupla e ecoam a influência dos evangélicos na população brasileira. Sobre a primeira, o único problema passível de relato é seu sotaque, por vezes incompreensível a ouvidos brasileiros. Os diálogos em inglês também desafiam a suspensão da descrença, difundindo a ideia de que qualquer um entre as pessoas humildes do norte seria capaz de interagir em inglês. Xido, em sua entrega e na energia empregada, merece ganhar mais oportunidades no futuro. Há, no entanto, mais mistério do que o adequado, fazendo com que a trama circular envolvendo as agressões ambientais patine durante desvios esporádicos da trama principal.

Especialmente quando entra em cena a enfermeira interpretada por Sabrina Timoteo, responsável por derrubar os alicerces do relacionamento entre Rebecca e Byrne. Nesses momentos, Transamazônia flerta com o drama de folhetim, diluindo o foco e, consequentemente, a credibilidade da história, mas sem eliminar as conquistas da produção, que se encerra no tom certo ao deixar uma brecha para reflexão.
NOTA 6,5









