CRÍTICA | "Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria"
- Guilherme Cândido

- há 12 minutos
- 2 min de leitura

*Crítica publicada durante o Festival do Rio 2025
O Festival do Rio 2025 não tem sido muito amigável para com as mulheres que sonham com a maternidade. Após filmes como Me Ame Com Ternura, Morra, Amor, Hamnet e agora este Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria, é bem provável que as espectadoras pensem com mais cuidado antes de decidir ser mãe.
O título já diz tudo, ilustrando a estafa mental e física da personagem de Rose Byrne, uma mulher que tem de se desdobrar em múltiplas funções no dia-a-dia. Além das obrigações com a filha pequena, portadora de uma doença jamais plenamente esclarecida, mas que claramente necessita de cuidados especiais (como uma máquina responsável por alimentá-la através de um tubo conectado diretamente em seu estômago), o teto de um dos cômodos de seu apartamento simplesmente desaba, inundando o local e obrigando-a a morar provisoriamente num hotel de beira de estrada. Tudo isso sozinha, pois o marido, militar, está no meio de uma longa viagem. Como se isso tudo não bastasse, ela ainda deve parecer mentalmente equilibrada para suas pacientes, já que também trabalha como terapeuta.

Se parece cansativo só de ler o parágrafo anterior, prepare-se para uma experiência ainda mais intensa, pois a diretora/roteirista Mary Bronstein faz o espectador ter a mesma sensação excruciante experimentada por Linda. Para isso, a nova-iorquina lança mão de quadros fechadíssimos, sempre buscando a expressividade de Byrne, que oferece de longe sua atuação mais visceral. Aliás, com a câmera tão próxima de seu rosto, é possível perceber até a mais sutil mudança de expressão, o que só engrandece seu desempenho.

O design de som também é diretamente responsável por provocar essa ansiedade que Linda acaba compartilhando conosco. Seja pelo som da máquina de alimentação, os ruídos da babá eletrônica ou mesmo a voz da filha (cujo rosto não é revelado), somos lembrados o tempo todo das responsabilidades da protagonista. E o fato de demorarmos a ver o rosto da menina, além de desumanizá-la, ajuda a manter o foco em Linda, como se só seus problemas importassem no momento.

O roteiro não fica atrás e promove uma série de debates, a começar pelo papel da mulher na Sociedade para além da função de mãe, outra tônica dessa edição do Festival, diga-se de passagem. A maternidade é outro ponto friamente debatido pela perspectiva de Linda, que talvez não seja capaz de carregar o fardo de ser mãe. O problema, desenvolvido com cuidado pelo texto, é o acúmulo de responsabilidades, o que acaba sendo desumano para qualquer um.

Incluindo ainda uma ponta de Conan O’Brien, apresentador da cerimônia mais recente do Oscar, que surpreende pela complexidade, Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria, é um filme que apesar de todo o estresse provocado, ainda se deixa levar pelo humor inexpugnável de Rose Byrne, trazendo doses esporádicas de leveza numa história pesadíssima e digna de reflexão.
NOTA 8









