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CRÍTICA | "Yes"

  • Foto do escritor: Guilherme Cândido
    Guilherme Cândido
  • há 1 dia
  • 2 min de leitura

*Crítica publicada durante o Festival do Rio 2025


Quando pensamos na situação do Oriente Médio como material para uma produção cinematográfica, especialmente os massacres em Gaza perpetrados pelo Estado de Israel, uns imaginarão um documentário-denúncia, outros um drama pungente, mas todos terão em mente um projeto que trata com seriedade absoluta os acontecimentos desencadeados em 7 de outubro. Isso significa que Yes passa muito longe de se encaixar no que entenderíamos ser uma abordagem sóbria de um tópico tão sensível. Pois “sóbria” é um adjetivo que definitivamente não se encaixa à filmografia do cineasta israelense Nadav Lapid.


Seu mais novo filme é ainda mais anárquico do que Sinônimos, que o alçou à fama ao levar o Leão de Ouro na Berlinale de 2019.

A trama acompanha a trajetória do músico Y. (vivido pelo estreante Ariel Bronz), desde seu relacionamento com a dançarina Yasmine (Efrat Dor, de O Zoológico de Varsóvia) com tem quem um bebê, até a encomenda de um novo hino nacional para Israel.

Dividida em capítulos, a narrativa começa com o pé na porta ao mostrar de perto como o casal central ganha a vida, isto é, animando festas dadas por membros da alta sociedade, o que inclui danças extravagantes ao pé e até dentro da piscina. Tudo para agradar quem pode pagar. Mas Y. também tem suas próprias questões com o chamado Estado-Maior, especificamente um grito entalado na garganta sobre a vergonha que sente do próprio país na relação com a Palestina, lugar que ele acaba visitando para se inspirar, mas acaba passando por um processo no qual exorciza seus demônios internos.

Tudo isso, claro, captado pela câmera maníaca e intrusiva de Lapid, uma espécie de organismo que vive ao lado dos personagens, tanto que durante uma sequência tórrida, Y. e Yasmine chegam a esbarrar no equipamento. Da mesma forma, um personagem secundário fala diretamente em nossa direção, como se através das lentes fizéssemos parte daquela conversa.

Lapid é feliz extrapolando os limites do próprio roteiro, arbitrariamente introduzindo elementos surrealistas, quebrando a quarta parede, exibindo trechos de gravações reais e interrompendo o desenvolvimento da trama para apresentar interlúdios. Assim como aconteceu em seus filmes anteriores, a impressão é a de somente ele seria capaz de dirigir o que vemos na tela, na potência do que é mostrado.

Inimigo da sutileza e do politicamente correto, ele constrói uma sátira singular, do tipo que respeita a seriedade da pauta principal, mesmo adotando uma estratégia quase ofensiva para embasar o seu discurso. O que seria contraditório e até contraproducente em mãos menos seguras, com Lapid se torna uma obra peculiar: vibrante, indigesta, irresistível, estranha e esporadicamente repulsiva.


Sentimentos conflitantes que, no final das contas, mostram que o objetivo de Lapid, um artista provocador por natureza, foi alcançado com extremo sucesso.


NOTA 7,5

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