CRÍTICA | "O Morro dos Ventos Uivantes" (2026)
- Guilherme Cândido

- há 7 horas
- 3 min de leitura

Entre aqueles que leram a obra original da escritora britânica Emily Brontë (1818-1848), há aqueles mais puristas, ávidos por adaptações ipsis litteris, mas também existe o leitor aberto à possibilidade de uma reinterpretação. Particularmente, me identifico mais com esse segundo nicho, pois não me importo de ver a releitura de algo já estabelecido. Aliás, eu mesmo, durante a faculdade, roteirizei um remake "alternativo" de O Morro dos Ventos Uivantes.
Os clássicos já estão entre nós, nada mudará isso, mas há quem possa oferecer um olhar totalmente novo e isso é positivo, ao menos em minha modesta opinião. Porém, o que a cineasta estadunidense Emerald Fennell faz com esta nova adaptação de Wuthering Heights (no original) é completamente diferente. Um meio-termo agradável aos olhos, mas narrativamente inseguro, melindroso e que drena tudo aquilo que dava potência ao livro publicado por Brontë em 1847.

Repito, não vejo mal algum em produzir uma versão comercial da história protagonizada por Cathy e Heathcliff, diluindo as questões mais sérias para que uma história de amor impossível venha à tona. O grande problema desta decisão é a hesitação paralisante de Fennell, também autora do roteiro, que tem ótimas ideias, mas carece de coragem para desenvolvê-las, gerando um efeito cascata ao contaminar, inclusive o marketing da produção.

Com slogans do tipo “perca o controle”, “entregue-se” e “a maior história de amor de todos os tempos”, O Morro dos Ventos Uivantes chega aos cinemas prometendo uma reimaginação excitante, com imagens sugerindo inclusive um certo grau de erotismo. De fato, há dois ou três momentos nos quais vemos personagens fazendo coisas que não esperaríamos ver na versão de 1939, mas que não duram muito já que Fennell logo parte para outra.

Um exemplo claro é a sequência em que um casal sugere usar traquitanas metálicas durante o sexo (um BDSM arcaico, por assim dizer), provocando uma reação escandalizada de alguém que poderia facilmente ser um reflexo da própria cineasta vencedora do Oscar pelo bacana Bela Vingança (2020). Claro que a cena é cortada para o momento em que a tal pessoa arregala os olhos e leva a mão à boca, o que também pode ser uma referência à Dona Bela de A Escolinha do Professor Raimundo. Talvez, Emerald Fennell tenha medo de aproximar o filme do provinciano Cinquenta Tons de Cinza (2015), tal qual o neonato A Empregada. O ar pudico, no entanto, permanece intacto.

Sem o conflito de classes e o racismo, sobra pouca substância para a narrativa que passa a depender excessivamente do casal principal. Que por sua vez também é esvaziado à medida que a obsessão, o sadismo e a vingança perdem espaço para um arco narrativo prosaico em seus melhores momentos. Com belíssimos diálogos (espelhando o design de produção), é verdade, mas os créditos são de Brontë, não de Fennell, pois a roteirista não tem vergonha de resvalar na breguice, como no instante em que Cathy diz “o problema está aqui” apontando em direção ao próprio coração. Ou nas juras de amor trocadas com Heathcliff. Vale tudo para cavar uma estreia às vesperas do Dia dos Namorados, afinal.

Margot Robbie sempre alternou bem entre papéis radicalmente opostos, então não chega a ser uma surpresa vê-la abandonar o cinismo inebriante de Barbie para se entregar à melancolia teatral de Cathy. É Jacob Elordi, o par romântico, quem tem o que provar e vem fazendo-o com algum estardalhaço nos últimos anos. O australiano, vale ressaltar, está merecidamente indicado ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante por outro remake, no caso Frankenstein. Se o Heathcliff da vez é um sujeito mais atormentado do que rancoroso, vítima ao invés de vingativo, isso se deve ao texto, não à Elordi, que brilha através dos detalhes da composição adotada. Um sorriso aqui, um tom de voz acanhado ali. O olhar quase sempre em direção ao chão.

Ainda melhores são os figurinos da duplamente oscarizada Jacqueline Durran (Anna Karenina, Adoráveis Mulheres), esbanjando um luxo meticuloso que se reflete na fotografia pictórica de Linus Sandgren (Oscar por La La Land). A adoção do vermelho como estrela-guia, pode não ser uma surpresa em virtude de seu significado em relação ao Amor, mas dá o tom de enquadramentos suntuosos como aquele em que alguém surge num corredor ou na sequência em que Heathcliff cavalga ao amanhecer. Enquanto isso, as canções de Charlie XCX dão o empurrão comercial que faltava ao projeto, um solavanco pop que faz pulsar a sala de projeção e amplificará a experiência sensorial de quem se aventurar pelos multiplexes nos próximos dias.

E encontrará uma releitura que se proclama disruptiva, mas cuja proposta inicialmente provocativa não vai além de uma piscadela sapeca, como se Emerald Fennell resistisse aos próprios impulsos soltando um “recomponha-se” a cada flerte com a luxúria. O que fica é uma adaptação como tantas outras, mais conservadora do que o marketing sugere.
NOTA 5,5









