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CRÍTICA | "Dois Procuradores"

  • Foto do escritor: Guilherme Cândido
    Guilherme Cândido
  • há 26 minutos
  • 2 min de leitura

*Crítica publicada originalmente como parte da cobertura do Festival do Rio 2025


Indicado à Palma de Ouro no Festival de Cannes desse ano, Dois Procuradores é um filme de ficção que traz a marca registrada de um cineasta que também se consagrou como documentarista. Mesmo quando provoca terror ou incredulidade, a produção jamais perde de vista o realismo cru e cruel idealizado por Sergey Loznitsa, nascido onde hoje é a Bielorrússia.


Adaptada pelo próprio Loznitsa a partir das memórias do escritor russo Georgy Demidov (1908-1987), que de fato passou quase quinze anos preso por se opor ao regime implacável de Stalin, a narrativa se passa na União Soviética de 1917 ano em que o expurgo stalinista estava a pleno vapor, com perseguições políticas controlando a população através do medo.

Um desses perseguidos é Stepniak que após ser preso, envia uma carta solicitando a ajuda de Kornyev, um promotor jovem e íntegro determinado a trazer justiça, mas que esbarra não só nos desmandos criminosos do serviço de inteligência russo, como também num sistema feito para ser impenetrável utilizando a burocracia como escudo.

A partir dessa perspectiva, o mesmo teste de resiliência imposto a Kornyev é oferecido ao espectador, que sente a passagem arrastada do tempo e os seguidos obstáculos que insistem em aparecer. Para alcançar esse objetivo, Loznitsa jamais movimenta a câmera, mantendo-a estática em planos longos que aos poucos vão minando também o a plateia. Ele é especialmente inteligente ao evitar incluir legendas e outras intervenções gráficas, passando informações importantes de forma orgânica, como ao deixar um relógio visível para tomarmos nota do tempo que Kornyev foi obrigado a esperar para ser atendido, por exemplo.

O promotor é interpretado pelo ex-boxeador Alexander Kuznetsov (Chefes de Estado) com uma firmeza que é sentida através do olhar. E o fato de Kornyev manter um tom de voz baixo e ameno ajuda a construir essa aura resiliente crucial para o desenvolvimento do filme. Além disso, a paleta escurecida e fria da fotografia são um espelho da realidade sem vida na qual o protagonista está imerso. Da mesma forma, o design de produção, com seus interiores banhados a madeira (as repartições públicas) e concreto (as prisões), corroboram essa tese, merecendo créditos por sobreviverem sem danos aos planos longos de Loznitsa, que jogam luz sobre cada elemento em cena.

Contando com um desfecho que soa ao mesmo tempo pessimista e fiel ao que fora construído até então, Dois Procuradores competiu pela Palma de Ouro em Cannes 2025 e chega aos cinemas de todo o Brasil no mês que vem.


NOTA 7,5

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