CRÍTICA | "Hamnet - A Vida Antes de Hamlet"
- Guilherme Cândido

- há 17 horas
- 3 min de leitura

*Crítica publicada durante o Festival do Rio 2025
É um pecado ver a talentosíssima Chloé Zhao desperdiçar seu tempo a frente de projetos dos quais sequer tem pleno controle criativo. Após levar o Oscar por Nomadland em 2020, na famigerada cerimônia impactada pela Pandemia, a chinesa foi cooptada pela Marvel para dirigir logo no ano seguinte o infame Eternos, aventura que, vamos admitir, até possuía potencial na teoria, mas se revelou um tremendo fracasso em vários sentidos, principalmente criativo. Quase meia década depois finalmente temos Zhao de volta e devemos agradecer à escritora Maggie O’Farrell por resgatar a cineasta tal qual Orfeu fez com Eurídice, pois foi a norte-irlandesa, autora do romance original, quem convenceu a diretora vencedora do Oscar a embarcar no projeto.

O roteiro, assinado por ambas, dramatiza a ligação entre a morte do filho de William Shakespeare e a criação de sua peça mais famosa, cujo título já é uma referência trágica por excelência, mas que a cartela que abre a projeção faz questão de explicar (“Hamnet e Hamlet são nomes intercambiáveis”). Curiosamente, Hamnet – A Vida Antes de Hamlet é mais sobre Agnes (Jessie Buckley, indicada ao Oscar pelo ótimo A Filha Perdida) do que sobre seu marido, William Shakespeare (Paul Mescal, indicado ao Oscar pelo fantástico Aftersun), que, aliás, só é assim chamado com quase duas horas de projeção, atendendo por Will até lá.

Ambientada entre os séculos XVI e XVII, essa abordagem se mostra promissora logo no início, afastando modelos batidos. Dessa forma, Will é tratado como uma mera peça da engrenagem familiar, cumprindo a função de marido provedor enquanto Agnes cuida da casa e dos filhos. O que diferencia a visão de Zhao e O’Farrell de tantas outras é o fato de a câmera permanecer com a matriarca no interior inglês mesmo depois de o dramaturgo se afastar para trabalhar em Londres.

Se por um lado é bom não vermos, mais uma vez, a trajetória de Shakespeare rumo ao sucesso, por outro, sua ausência é tão sentida que nem mesmo seu retorno repentino (no dia da tragédia), compensa a vacância emocional. A sorte da produção é poder contar com uma Jessie Buckley, um talento por si só, em estado de graça, absorvendo sozinha e com desenvoltura toda a carga emocional da narrativa. Poderíamos afirmar que a irlandesa carrega o projeto nas costas, mas se sentimos falta de Will, é porque Paul Mescal é bom o bastante para deixar sua marca tão precocemente.

Se Buckley canaliza o sofrimento em termos mais viscerais, Mescal tem a responsabilidade de mostrar um homem que agoniza por dentro. Não por acaso, é através da Arte que ele finalmente expressa toda a sua dor, num belo exemplo de como algo tão belo pode sair de um momento tão duro. Esse discurso, diga-se, é o que de melhor Hamnet tem a oferecer, argumentando a cura pela Arte com uma eloquência digna de prêmios, ao mesmo tempo que joga luz sobre o processo criativo por trás de uma das obras mais famosas da Literatura Mundial.

É claro que, por se tratar de um filme dirigido por Chloé Zhao, o longa também oferece cenas deslumbrantes, nas quais a paixão da chinesa pela natureza (o que é comprovado por sua filmografia) permite planos verdadeiramente pictóricos, como por exemplo ao ressaltar a conexão de Agnes com uma floresta, complementando o vermelho forte de seu figurino com o verde quase cintilante das folhas de uma árvore. O design de produção é outro ponto positivo, sendo crucial para estabelecer a atmosfera claustrofóbica durante um parto particularmente tenso.

Pena que os minutos finais, que tinham tudo para encabeçarem listas dos melhores momentos de 2025, são atrapalhados por um didatismo até então inédito na narrativa, com uma personagem verbalizando o que vemos e explicando um simbolismo óbvio. Um tropeço decepcionante, mas não suficiente para invalidar este aguardado retorno de Chloé Zhao à boa forma.
NOTA 8









