CRÍTICA | “Família de Aluguel”
- Guilherme Cândido

- há 12 minutos
- 2 min de leitura
*Crítica publicada como parte da cobertura do Festival do Rio 2025

Precisando de alguém para lhe encorajar durante uma apresentação importante? Ou quer ajudar um amigo enlutado a ter com quem conversar? Mais, precisa de alguém para se passar outra pessoa? Acredite se quiser, mas existe uma empresa capaz de suprir todas as demandas acima. Uma não, várias, pois no Japão esse tipo de serviço é extremamente popular desde o início da década de 90, como Werner Herzog mostrou em Uma História de Família (2019).
Em Família de Aluguel, parte da seleção oficial do Festival de Toronto, Brendan Fraser interpreta Phillip, um ator com dificuldades de conseguir papéis em Tóquio, onde decidiu recomeçar a vida sete anos atrás. Solitário, ele passa as noites observando pessoas através da janela do seu apartamento, como se desejasse compartilhar da felicidade testemunhada. Até que recebe o convite de uma empresa famosa por “alugar emoções”. À procura de alguém para interpretar um “americano triste”, Tada (da premiadíssima série Xógum: A Gloriosa História do Japão) convence Phillip a aceitar o serviço de comparecer a um funeral transmitindo pesar. É apenas o início de uma inesperada carreira que fará o sujeito repensar a própria vida.

Principalmente depois de viver Kevin, o pai que abandonou a filha pequena anos atrás. A mãe, no caso, precisa da presença de uma figura paterna para passar no processo seletivo de uma importante escola. Três semanas de atuação passam tão rapidamente que ele aceita encarnar também John, repórter que "entrevistará" um ator já idoso que vive triste por ter caído no ostracismo.

Trata-se de um conceito fascinante e com alto potencial para gerar um dramalhão destinado a fazer sucesso na Sessão da Tarde, principalmente graças à presença do sempre carismático Brendan Fraser. Três anos após vencer o Oscar pelo problemático A Baleia e abrir o caminho para projetos mais voltados para o drama, o eterno Rick O’Connel da trilogia A Múmia parece talhado para o papel de Phillip. Emprestando seu carisma habitual ao enxergar o protagonista como uma espécie de gigante gentil, o ator carrega o filme nas costas mesmo quando tudo parece descambar para uma injeção de sacarose.

A diretora Hikari, mais conhecida por ter criado a série Treta (2023) da Netflix, tenta fugir da dramédia clássica, adiando conflitos e complicando dilemas, mas todos os caminhos levam ao mesmo final aveludado e edificante. O clima ameno e as piadas leves mantém o drama controlado, ganhando contornos poéticos graças ao trabalho em conjunto de Hikari com o diretor de fotografia Takurô Ishizaka (de Todos Nós Desconhecidos), que rende uma sequência evocativa com Phillip observando o escurecido prédio da frente do seu apartamento como se este fosse uma imensa HQ, com as janelas iluminadas remetendo a quadrinhos com pessoas vivenciando suas próprias histórias.

Apesar de não ser tão profundo quanto parece, Família de Aluguel nos dá a felicidade de ver um Brendan Fraser bem não apenas no aspecto dramático, mas também fisicamente. Mais magro, com mais cabelo e com um aspecto infinitamente melhor, o astro parece muito perto de voltar à velha forma e torçamos para este simpático projeto ser o indicativo de uma nova boa fase de sua carreira.









