CRÍTICA | "Kokuho - O Preço da Perfeição"
- Guilherme Cândido

- há 24 horas
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Quando um filme deixa para trás nas bilheterias obras-primas de mestres como Akira Kurosawa, Hirokazu Kore-eda e Yasujirô Ozu, a atenção do ocidente costuma ser despertada. Kokuho - O Preço da Perfeição alcança esse feito apresentando-se como um épico de quase três horas de duração sobre a Arte do Kabuki, uma mistura de performance teatral com rituais que evocam mais de 400 anos de tradição. Como as mulheres não tinham permissão para performar, os homens também interpretavam os papéis femininos. Os "onnagata", como eram chamados", passavam por uma preparação rigorosa que exigia muito do corpo e da voz. O “tesouro nacional”, como é traduzido o título original em japonês, poderia encontrar dificuldades em ganhar tração junto ao público do lado de cá do globo terrestre, mas a boa recepção da crítica, bem como os elogios recebidos em festivais do quilate de Cannes e Toronto encorajaram os distribuidores. A produção chega aos cinemas como a escolha do Japão para tentar uma indicação ao Oscar de Melhor Filme Internacional. Se falhou em abocanhar uma vaga ao lado de longas como O Agente Secreto e Valor Sentimental, Kokuho ao menos garantiu uma inesperada, mas merecida nomeação à categoria de Maquiagem e Cabelo.

A narrativa acaba tropeçando nas próprias ambições ao abarcar um longo período que vai da década de 1960 até 2014. Os saltos temporais são frequentes e irregulares, prejudicando o desenvolvimento de uma trama que, francamente, não parece ter sido a prioridade de Satoko Okudera ao adaptar o romance de Shûichi Yoshida. Os conflitos familiares, por exemplo, são datados, bem como as questões de gênero, tratados de forma fria e protocolar. A força do projeto acaba sendo justamente as sequências que retratam o Kabuki, nas quais é possível sentir a meticulosidade e a paixão empregados para levar essa forma tão particular de Arte às telas. São longas tomadas em que além do trabalho performático, saltam aos olhos os cenários e os figurinos.

A história começa em 1964, com o jovem Kikuo se preparando para uma apresentação. Ele está nervoso, pois seu pai, um dos cabeças da Yakuza, convidou Hanjiro Hanai, expoente do Kabuki para assistí-lo. O talento do garoto chama atenção, mas o espetáculo é interrompido pelo ataque de uma gangue rival, culminando num forte momento em que Kikuo vê o assassinato do próprio pai. Os anos se passam e ele, adolescente, é acolhido pelo próprio Hanjiro, agora encarregado de treiná-lo ao lado do filho, Shunsuke, que além do treinamento rigoroso, ainda carrega o peso de se tornar o sucessor do pai. A partir daí, a trama se concentra nos vaivéns da relação entre os dois rapazes, que ao longo dos anos alternam entre rivalidade e camaradagem enquanto disputam o título de “tesouro nacional” do Kabuki.

O design de produção luxuoso de Yônei Taneda (o mesmo de Kill Bill: Vol. 1) enche os olhos com ambientes absolutamente fiéis à reconstituição histórica, eclipsando o bom trabalho do elenco, que mistura promessas como Soya Kurokawa (brilhante no excepcional Monster) e o popstar Ryûsei Yokohama a veteranos como Shinibu Terajima e o lendário Ken Watanabe, de sucessos mundiais como O Último Samurai (2003), Cartas de Iwo Jima (2006) e A Origem (2010). Os figurinos cumprem com louvor a difícil missão de transitar entre várias décadas, além de sustentar os planos-fechados durante as apresentações. Falando nisso, a direção elegante de Sang-il Lee dispensa arroubos celeríferos e passeia com a câmera sem chamar atenção. O destaque, novamente, vai para as longas sequências envolvendo apresentações de Kabuki, nas quais acertadamente o foco jamais deixa de ser o que acontece no palco.

Adicionando uma pitada de misoginia para enriquecer o já complexo protagonista, Kokuho - O Preço da Perfeição mistura o primor técnico de Memórias de Uma Gueixa (2005) a reminiscências do clássico Os Sapatinhos Vermelhos (1948) ao oferecer um banquete visual difícil de esquecer.
NOTA 7









