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CRÍTICA | "O Agente Secreto"

  • Foto do escritor: Guilherme Cândido
    Guilherme Cândido
  • 1 de nov.
  • 3 min de leitura

*Crítica publicada durante o Festival do Rio 2025


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Quando O Agente Secreto enfim estrear comercialmente nos cinemas brasileiros, as comparações com Ainda Estou Aqui devem tomar conta das conversas pós-sessão e dominar as tradicionalmente beligerantes redes sociais.


Se Walter Salles dirigiu o retrato de uma família em frangalhos por ter sido diretamente impactada pelo regime militar imposto em 1964, Kléber Mendonça Filho usa esse período sombrio de nossa história como mero pano de fundo. E o tom do atual vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional não poderia ser mais diferente daquele sentido na produção escolhida para tentar o bicampeonato no ano que vem.


Pois Marcelo Alves (Wagner Moura) não está trabalhando ativamente para derrubar os militares. Aliás, em nenhum momento o vemos sequer pegar uma arma. Seu único desejo é poder viver de acordo com os próprios princípios ao lado do filho, de quem decidiu jamais se separar novamente.

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Partindo desses pressupostos, Kléber Mendonça Filho consegue a proeza de criar um mosaico vibrante, bem-humorado e multifacetado sem abandonar a seriedade de todos os temas espinhosos consequentes de uma história envolvendo a Ditadura. E o faz estabelecendo uma série de paralelos com Retratos Fantasmas (2023), projeto anterior em que combinava duas de suas maiores paixões: o Cinema e Recife. Não por acaso, o projecionista homenageado naquele documentário é reapresentado aqui, agora como personagem.

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Mas as ambições do cineasta pernambucano não param por aí, uma vez que ele aproveita cada segundo das (bem aproveitadas) quase duas horas e quarenta minutos de projeção, para contar uma história plural e humana, com destaque para a comunidade de refugiados onde Marcela passa a viver. E é curioso como ele faz uma descrição precisa de um personagem gay sem mencionar diretamente sua sexualidade.

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Um dos maiores talentos de nosso Audiovisual, Wagner Moura tem o oportunidade de encarnar o personagem mais complexo de sua rica e versátil carreira, já que Marcelo não é um sujeito explosivo e falador. Ao contrário, ele obriga o ator baiano a transmitir todas as suas nuances através do olhar e da forma como utiliza as poucas palavras que profere. Homem simples, tudo o que ele quer é estar ao lado do filho e nada mais, não sendo um problema viver discretamente como um arquivista enquanto os abusos dos milicos se faz cada vez mais presente.

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O contraponto reside na escolha da fofíssima Tânia Maria para encarnar Dona Sebastiana, a líder da tal comuna de refugiados. Mesmo provocando altíssimas gargalhadas sempre que aparece em cena, a idosa contribui para a narrativa não só com pérolas de sabedoria, mas também através de um discurso que corrobora a humanidade almejada por Mendonça Filho. Num mundo justo, Tânia Maria não só estaria sendo considerada para todos os prêmios internacionais possíveis, como estrelaria um filme derivado inteiramente focado em sua sensacional personagem.

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O Agente Secreto também é extremamente eficaz ao condensar elementos caros à cultura brasileira sem soar panfletário ou ufanista. Seja na Música, no Cinema, na Arquitetura ou mesmo através da cuidadosa recriação histórica, é impossível ver o filme sem identificar o país no qual é ambientado e grande parte dessa eficácia reside na obsessão do diretor com a verossimilhança, o que gera uma reconstituição minuciosa.

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Esses detalhes possibilitam ao diretor azeitar sutilmente as situações vividas pelos personagens. Na excepcional sequência de abertura, por exemplo, Marcelo se assusta com a presença de um cadáver no chão de um posto de gasolina. Há tempos aguardando remoção, o corpo ilustra não apenas a banalidade da violência na época, mas também o deslocamento do contingente policial para assegurar o bem-estar dos foliões recifenses, já que a narrativa se desenrola durante o Carnaval. Indo além, Mendonça Filho sutilmente tira sarro dos policiais militares ao trazer um delegado com manchas de batom e confete no cabelo ao atender um chamado.

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Trazendo inúmeras homenagens ao Cinema que vão desde a exibição de trechos de clássicos nacionais e internacionais até uma sequência surreal envolvendo uma perna mutilada (a culminância de uma referência recorrente a Tubarão), O Agente Secreto é a obra mais completa de um cineasta no auge de suas habilidades como manipulador dos signos cinematográficos.

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Filme mais premiado do Festival de Cannes (incluindo Melhor Ator e Melhor Diretor), a produção já foi escolhida para representar o Brasil na corrida pelo segundo Oscar de Melhor Filme Internacional. O percurso é longo, sinuoso e acidentado, mas caso a indicação se confirme, as chances de uma segunda vitória consecutiva são reais.


NOTA 9

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