CRÍTICA | "Enzo"
- Guilherme Cândido

- há 1 hora
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Curioso ter assistido a Enzo pouco tempo depois de A Praga. Ambos retratam as angústias durante a adolescência, com recortes sobre pertencimento e autodescoberta. Enquanto o segundo adota uma abordagem de terror, dando vazão aos sentimentos extremados inerentes à idade, o primeiro opta por caminhos mais convencionais, embora não menos potentes. O núcleo, no entanto, é o mesmo, partindo de questões universais.
A produção foi idealizada por Laureant Cantet, do excelente Entre os Muros da Escola (vencedor da Palma de Ouro em 2008 e indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro), que escreveu o roteiro e assumiu a direção, mas morreu de câncer antes de terminar o trabalho, que acabou indo parar nas mãos de Robin Campillo, outro cineasta de inquestionável competência, mais conhecido após ser indicado à Palma de Ouro pelo impactante 120 Batimentos Por Minuto (2017).

Campillo usa uma linguagem mais crua para contar a história de um adolescente abastado insistindo em trabalhar como pedreiro, provocando incredulidade nos pais e despertando curiosidade em quem observa de fora. A câmera fixa e os planos longos nublam as fronteiras diegéticas, com a ausência de trilha sonora ajudando a estabelecer uma atmosfera ultra-realista.

À primeira vista, o estreante Eloy Pohu é quem mais chama atenção, compondo o protagonista como um jovem pacato. A expressão quase sempre fechada e a dificuldade em manter contato visual, em contrapartida, são inteligentemente utilizadas para sinalizar a batalha interna travada por Enzo. Ajuda muito o fato de Pohu não possuir o tipo de físico esculpido em academias frequentemente visto em produções do gênero, aproximando-o do adolescente médio e facilitando a identificação.

O destaque, por outro lado, não poderia ser outro senão o fantástico Pierfrancesco Favino (Maria Callas), responsável por transformar o pai de Enzo na figura mais comovente da história ao evocar com uma precisão cortante a angústia do sujeito em relação ao filho. Mais do que preocupado com o futuro, Paolo sofre justamente por perceber em tempo real o agravamento da crise enfrentada por Enzo e a cena em que ele se desespera por não ter ideia de como ajudar é um dos grandes momentos da projeção. Ecoando a performance magistral de Michael Stuhlbarg no inesquecível Me Chame Pelo Seu Nome (2017), Favino constrói o patriarca como uma pessoa generosa, empática e profundamente afetuosa, deixando escapar através do olhar sempre expressivo a tristeza por antever o rebento se perder.

Por isso, o segundo ato de Enzo é tão eloquente, ilustrando com perfeição os anseios, desajustes e, sobretudo, o fardo que repentinamente torna-se difícil de suportar nessa época da vida. E encarar tudo isso sem ter maturidade para tal, pode ser perigoso. É aí que entra Vlad (Maksym Slivinskyi, outro novato), o operário ucraniano do qual Enzo se aproxima paulatinamente através do mútuo desencaixe social, uma vez que ambos carecem de pertencimento. De um lado, o imigrante resistindo à ideia de voltar ao país-natal para lutar na Guerra. Do outro, o menino burguês recusando os privilégios de um ambiente com o qual não se identifica. Essa busca pela conexão, inclusive, é o que leva o tradicionalmente confuso adolescente a ter dificuldades na hora de discernir os sentimentos que tangenciam o Amor e a Amizade.

Todavia, a narrativa ocasionalmente perde tração na hora de emendar esse drama pungente de autoconhecimento com a subtrama de conflitos sociais, sucumbindo com dois diapasões imiscíveis expondo a costura dramatúrgica. Planos evocativos com o protagonista encarando uma montanha gigante ou deitado à beira de um precipício minimizam os danos ao apelar para o alegórico, quando o subtexto envolvendo o atrito entre classes sociais soa frio e/ou distante demais. Felizmente, Campillo e Cantet, que de fato dividem os créditos pelo filme, recuperam o fôlego negando ao espectador um final apoteótico, deixando que o curso natural da vida seja imitado pela Arte.
NOTA 7,5









