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CRÍTICA | "Sirāt"

  • Foto do escritor: Guilherme Cândido
    Guilherme Cândido
  • há 1 dia
  • 3 min de leitura

Quando vemos um senhor acompanhado do filho caçula distribuindo panfletos durante uma rave no meio de um cenário desértico, mal conseguimos imaginar o que está por vir, muito menos Luis, Esteban e a simpática cadelinha Pipa. É o local menos provável para encontrarmos um pai de família na casa dos cinquenta anos junto de uma criança, afinal. O lugar inóspito é ocupado por uma multidão em transe, portando-se como uma horda de mortos-vivos reagindo às batidas eletrônicas por meio de espasmos ritmados. A comparação vira literalidade quando percebemos que aquelas pessoas não sabem ou talvez nem se importem se estão realmente vivas ou apenas subsistindo no purgatório, algo enfatizado pela cartela que abre a projeção explicando que, em árabe, Sirāt é a ponte que liga o mundo dos mortos ao dos vivos. Mas essa perspectiva é quebrada, veja só, pela presença dos dois forasteiros, que é justificada pela procura da filha/irmã mais velha, seguindo pistas que apontam para um circuito de raves em pleno deserto marroquino.

A despeito dos veículos pesados, das toneladas de areia e das figuras locais equipadas com vestimentas e penteados estilizados, as comparações com Mad Max ficam ainda mais fortes quando um grupamento militar chega para acabar com a festa. O rádio já havia dado sinais de uma guerra global gerando consequências imediatas nas redondezas, mas Luís (Sergi López, o Capitão Vidal de O Labirinto do Fauno) e Esteban (Bruno Arjona, em seu primeiro longa-metragem) permanecem convictos de que os ravers (como são chamados os entusiastas desse tipo de evento) os levarão à moça, tanto que resolvem seguir um comboio rebelde que dribla os militares.

Meio Rastros de Ódio (1956), meio O Comboio do Medo (1977), a produção tem uma atmosfera construída pelo franco-espanhol Oliver Laxe que vai da estranheza inicial ao desespero absoluto passando por interlúdios de tensão em seu estado mais puro, como uma sequência específica lá pelo terceiro ato (fácil de identificar) em que prender a respiração torna-se uma reação quase natural. Na realidade, o filme vencedor do Grand Prix do Festival de Cannes 2025, dentre quatro prêmios no total, oferece uma experiência cinematográfica na qual o volume de informações prévias é inversamente proporcional ao seu impacto sensorial.

Também autor do roteiro, em parceria com Santiago Fillol (o mesmo com quem fez O Que Arde, também premiado em Cannes), Laxe se certifica de amarrar sensações a simbolismos tão fartos e frequentes, que decifrá-los torna-se outro atrativo irresistível do projeto, começando com a supracitada explicação do termo Sirāt, também interpretado como a ligação entre Inferno e Paraíso. O trajeto percorrido por Luis, Esteban e seus novos amigos errantes ganha um subterfúgio maior, estando a cargo do espectador interpretá-lo à sua própria maneira. 

Dessa forma, cabe uma analogia à própria vida e a necessidade de assimilar os golpes que levamos dela. A dor da perda, o processamento do luto, sentimentos a serem superados para o objetivo maior ser cumprido: seguir em frente. Ou estamos todos condenados? Se estamos de fato, nada como a comunhão com outros desgraçados nessa marcha rumo ao precipício. Não há paraíso quando sabemos estar no inferno e ele soa tão familiar quanto inescapável. A função da Arte como refúgio aos desafortunados tem sido uma tendência em 2025, com filmes do calibre de Valor Sentimental e Pecadores estabelecendo paralelos eloquentes, mas Laxe e Fillol incrementam essa alegoria com uma visceralidade poucas vezes atingida nessa temporada.

Em contrapartida, no meio de tanta agonia, há espaço para a contemplação, permitindo especialmente a Laxe um olhar formidável para paisagens. Ora macabras, ora exuberantes, mas sempre impressionantes, ele e o diretor de fotografia Mauro Herce sabem exatamente onde filmar para causar no público a reação desejada. As rochas imensas, as cavernas ocultas, os túneis imprevisíveis, as estradas sinuosas e estreitas cortando montanhas. Tudo parece feito sob medida para encantar e oprimir ao mesmo tempo.

E em suma é exatamente esse o segredo por trás da potência de Sirāt como experiência cinematográfica, uma sobre a qual é impossível ficar indiferente, com picos dramáticos entremeando um discurso comovente. Em outra palavra: Cinema.


NOTA 8,5

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