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CRÍTICA | "Depois do Fogo"

  • Foto do escritor: Guilherme Cândido
    Guilherme Cândido
  • há 22 minutos
  • 3 min de leitura

*Crítica publicada durante o Festival do Rio 2025


Josh O’Connor está em grande fase. Após despontar em O Reino de Deus (2017), o ator britânico vem aparecendo em filmes de destaque, como La Chimera (2023), Lee (2023) e o extraordinário Rivais (2024). Não por acaso, tem se tornado requisitado em Hollywood. Tanto que só esse ano está listado em quatro produções (Pedro Pascal que se cuide). Um dos dois filmes estrelados por ele a desembarcar no Festival do Rio é este Reconstrução (o outro é The Mastermind, de Kelly Reichardt), novo trabalho do cineasta Max Walker-Silverman, também responsável pelo roteiro.


A trama se passa no Vale de San Luis, no Colorado, onde o jovem vaqueiro Dusty (O’Connor) nasceu e foi criado. Lá ele mantém um relacionamento distante com Ruby (Meghann Fahy, do fraco Drop: Ameaça Anônima), com quem possui uma filha, a encantadora Callie-Rose (Lily LaTorre). Tudo muda quando um incêndio de grandes proporções devasta as florestas locais, fazendo com que Dusty e tantos outros percam tudo com o qual viveram. Perdido, ele vagueia à procura de emprego até ser realocado num trailer pela FEMA (agência estadunidense que presta socorro a vítimas de desastres naturais). Decidido a se mudar para Montana, onde acredita que poderá cuidar de um rancho ao lado da prima, ele mal percebe que essa pode ser uma oportunidade de se reconectar com aquilo que realmente importa na vida.

No cômputo geral, o título abre margem a múltiplas interpretações, com o ponto de convergência entre elas sendo o envolvimento com a comunidade. Afinal, no parque de trailers vivem outras vítimas como Dusty. Algumas até em situações piores. Já Ruby insiste para que ele se aproxime da filha, que o idolatra mesmo sem receber a atenção que merece. Lily LaTorre, aliás, é um achado preciosíssimo, conferindo honestidade e densidade dramática dignos de uma adulta.

Josh O’Connor compõe o protagonista como um rapaz humilde, de poucas palavras e jeito modesto. Caminhando a passos curtos, sempre curvado e ocasionalmente olhando para baixo, Dusty parece manifestar fisicamente toda dor que sente por ter perdido o que acredita ter sido o legado da família. Chega a ser impressionante como o ator consegue transmitir o vazio de seu personagem com apenas um olhar.

O grande destaque do filme, por outro lado, é a atmosfera aprazível criada por Max Walker-Silverman que em muitos momentos lembra o igualmente caloroso Uma Noite no Lago, exibido no Festival do Rio 2022. Walker-Silverman não se importa de alongar os planos, permitindo-se o tempo que for necessário para desenvolver sua narrativa com paciência e profundidade. Há espaço para todo o elenco brilhar, mas Kali Reis merece créditos por imbuir humanidade à Mila, que viu o marido ser engolido pelas chamas. Brilhante na série antológica True Detective: Terra Noturna, a ex-boxeadora é outra em franca ascensão, escolhendo projetos cada vez melhores e mais ambiciosos.

Inevitavelmente estabelecendo um paralelo com os recentes incêndios que assolaram Los Angeles, Reconstrução se apresenta como um atestado de humanidade em tempos tão belicosos, algo refletido pela ensolarada fotografia de Alfonso Herrera Salcedo (também de Uma Noite no Lago), tirando bom proveito da paisagem árida do Colorado e seu relevo irregular. Por outro lado, a trilha sonora suave de James Elkington e Jake Xerxes Fussell ajuda a estabelecer o clima de calmaria, investindo em melodias à base de cordas que mantém o espectador num estado quase permanente de bem-estar.

Otimista até o último plano, Reconstrução é o feel-good movie que o povo de Los Angeles precisa no momento, pois além de vislumbrar um futuro, mostra que um voto de confiança à humanidade pode ser a chave para tornar a realidade menos dolorida.


NOTA 8


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