CRÍTICA | "Isso Ainda Está de Pé?"
- Guilherme Cândido

- há 1 hora
- 4 min de leitura

O manifesto de Anton Ego ao final de Ratatouille (2007) foi irrepreensível como reflexão sobre o papel da Crítica:
“Ganhamos fama em críticas negativas que são divertidas de escrever e ler, mas a dura realidade que nós, críticos, devemos encarar é que, no quadro geral, a mais simples porcaria talvez seja mais significativa do que a nossa crítica.”
Também foi emocionante vê-lo apontar a importância do crítico, especialmente ao defender novos talentos em tempos tristemente hostis à novidades. Quem não viu ou gostaria de relembrar um dos momentos mais emblemáticos de uma das obras-primas da Pixar, vou deixar o link aqui.

Muitos optam por pechar o crítico como alguém que tem prazer em “falar mal” de algo e normalmente quem o faz sequer lê uma crítica até o fim, limitando-se às cotações em detrimento dos argumentos feitos para sustentá-las. Um dos grandes prazeres de ser um crítico de Cinema, no entanto, é poder acompanhar a carreira de um artista desde de sua gênese, captando nuances, evoluções, características e outros elementos marcantes. E como é bom ver Bradley Cooper evoluindo, ao menos como cineasta.

Em Nasce Uma Estrela (2018), estaria como diretor e roteirista pelo qual foi indicado ao Oscar, ele apresentou uma visão singular, intimista, mas que ainda carecia de refino, principalmente na construção de conflitos, dos quais acabava fugindo sempre que os ânimos se exaltavam. Já no trabalho seguinte, Maestro (2023), Cooper aprimorou o olhar, dirigindo com esmero, porém deixou o ego falar mais alto e viu seu potencial limitado.

A involução foi evidente e confesso ter ficado preocupado com a falta de repercussão (ou hype, para adotar um linguajar moderno) de seu mais recente projeto, lançado em outubro passado no Festival de Nova York. Felizmente, Isso Ainda Está de Pé? não apenas sepulta qualquer desconfiança, como ainda revela o amadurecimento de Bradley Cooper como artista. É igualmente fascinante constatar como a obra do estadunidense gira em torno de relacionamentos, com todos os três filmes que comandou partindo de diferentes pontos para chegar ao mesmo destino: um estudo minucioso de parcerias, sejam elas amorosas, artísticas ou ambas.

O roteiro escrito por Mark Chappel (do divertido, mas inofensivo Veja Como Eles Correm) e retrabalhado por ele e Will Arnett (LEGO Batman: O Filme) adapta a trajetória do britânico John Bishop, ex-jogador de futebol semiprofissional que enveredou para a comédia stand up. No filme, é o próprio Arnett quem dá vida a Alex cujo casamento com Tess (Laura Dern) está ruindo depois de vinte e seis anos e dois filhos. O que tinha tudo para ser o início de um melodrama clássico, se torna uma comédia dramática sobre o potencial catártico da Arte e uma crônica sobre as fundações de um relacionamento.

Da parte de Bradley Cooper, estão lá a câmera nervosa de sempre, a velha obsessão com planos-detalhes de mãos e os closes durante diálogos. De novidade, a bem-vinda abordagem que despe-se completamente de qualquer traço de ego. Não restam dúvidas de que as únicas estrelas são os atores, afinal. Nesse ponto, o naturalismo compartilhado pelas performances de Arnett e Dern possibilita uma química quase simbiótica em cena, relembrando os grandes casais de Woody Allen e, mais recentemente, Noah Baumbach.

O humor, por incrível que pareça, deixa de ser um mero alívio e é absorvido organicamente pela narrativa sem qualquer esforço aparente, o que torna tudo ainda mais impressionante, especialmente o hilário momento em que Alex leva os filhos para os pais cuidarem e precisa explicar o motivo.

Isso Ainda Está de Pé? oferece o tipo de experiência que começa de forma tímida e aos poucos fisga o espectador. Quando menos esperamos, nos afeiçoamos aos personagens e estamos reagindo inconscientemente aos dilemas apresentados. Facilita o fato de Alex e Tess possuírem sentimentos de verdade, expondo-os sem rompantes dramáticos ou através de maquinações artificiais. Aqui, todos estão apenas em busca da felicidade e nada mais, utilizando de respeito e diálogo para chegar a tal.

Quem estiver buscando ainda mais profundidade, terá um prato cheio na forma como Alex lida com a dor de um divórcio inesperado. A Arte se estabelece menos como um refúgio e/ou uma válvula de escape e mais como uma terapia que potencializa a autodescoberta e uma análise mais racional da situação. E a costura dessa trama traiçoeira é feita com cuidado e paciência, sem menosprezar a inteligência de quem assiste, mesmo que aqui e ali os roteiristas enxerguem a necessidade de justificar alguma atitude, num efeito colateral que acomete personagens incapazes de resistir ao impulso de falarem abertamente sobre o que sentem.

Dispensável mesmo só a sequência claramente concebida para usufruir dos talentos vocais de Andra Day (indicada ao Oscar pelo protocolar Estados Unidos vs. Billie Holiday), soando constrangedoramente mecânica ao obrigar o elenco principal a cantar “Amazing Grace” enquanto preparam o café da manhã. A participação de Bradley Cooper também passa longe de ser um ponto alto, mas ao menos serve para apontar outro dilema instigante envolvendo o protagonista (o de servir de inspiração para divórcios).

Por outro lado, Laura Dern esbanja humanidade ao evocar todas as dúvidas e idiossincrasias de uma mulher que se permite recalcular a rota para o futuro, e seu monólogo sobre “infelicidade compartilhada” por si só já deveria ao menos render algumas indicações nessa temporada de premiações, algo impensável para Will Arnett que, mesmo oferecendo a performance mais marcante de sua carreira, ainda não seria o bastante para integrar a disputadíssima corrida pelo Oscar de Melhor Ator, por exemplo.

O que nos leva de volta a Bradley Cooper, um artista que até pouco tempo atrás mal conseguia conter sua obsessão pela estatueta dourada e, veja só, bastou abraçar a leveza do descompromisso para nos presentear com o melhor trabalho de sua ainda breve carreira como realizador. Que seja o início de uma nova e brilhante fase.
NOTA 8









