CRÍTICA | "Mother's Baby"
- Guilherme Cândido

- há 2 horas
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Tem sido uma temporada desafiadora para aqueles que embarcam no sofisma de que a maternidade é uma etapa obrigatória na vida de toda mulher. Não chega a ser surpreendente ainda termos de debater esse tema em pleno século XXI, levando em consideração o estágio anacrônico de nossa sociedade, imersa num lamaçal retrógrado fortalecido pela onda conservadora que vem tomando conta do planeta. Felizmente, ainda há artistas dispostos a questionar o status quo, como fez Mary Bronstein em seu ótimo Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria, que rendeu o prêmio de Melhor Atriz à Rose Byrne (atualmente indicada ao Oscar) na mesma edição do Festival de Berlim que, por coincidência, também apresentou este Mother’s Baby, da cineasta austríaca Johanna Moder.
Na história concebida por Moder em parceria com o alemão Arne Kohlweyer, o casal formado por Julia (Maria Leuenberger) e Georg (Hans Löw) finalmente decide visitar uma clínica de fertilização após uma série de tentativas frustradas de terem um filho naturalmente. Lá conhecem o Dr. Vilfort (Claes Bang) e dão início a um processo que rapidamente culmina numa gravidez. Não que o parto tenha sido tranquilo, pois Moder faz questão de ressaltar o desconforto de Julia através da decisão de captar todo o momento num longo travelling circular, prenunciando o resultado dramático, já que a criança é movida às pressas para outra ala, mesmo com a equipe médica garantindo estar tudo em ordem. E quando o rebento finalmente é entregue aos braços de Júlia, o que já estava estranho torna-se suspeito à medida que a mulher passa questionar se aquele é realmente seu filho. A partir daí, a narrativa passa a beber da fonte do suspense ao apresentar a clássica situação em que a mulher protagonista não só é a única a perceber os sinais de algo potencialmente grave, como se mostra incapaz de se fazer ouvir.

Mesmo não sendo particularmente original, a produção não encontra dificuldades para se mostrar digna da atenção do espectador. Nesse ponto, os méritos pertencem quase exclusivamente à performance de Maria Leuenberger (do bom A Arte do Caos) e seu olhar assustadoramente poderoso. Ela não precisaria de diálogos para transmitir a desconfiança e o desespero crescentes de Júlia, que em mãos menos hábeis poderia resvalar no histrionismo. Seu maior trunfo, porém, é jamais afastar completamente a hipótese de a protagonista estar, de fato, errada. Ou pior, ser a verdadeira antagonista. Pois os sorrisos de canto de boca, a frieza com que tenta extrair alguma prova (beliscando e dando sustos no bebê, por exemplo) e o olhar de reprovação para o próprio filho, são motivos suficientes para permanecermos em alerta o tempo todo, desconfiando também dela.

Em contrapartida, Johanna Moder abraça sem reservas esse jogo com o público, plantando sementes ora para fortalecer a tese da personagem principal, ora para enfraquecê-la. E o melhor de tudo, sem menosprezar a inteligência do espectador. Note, por exemplo, como a fala aparentemente inocente da enfermeira sobre a “cabeleira” do bebê, é refutada pela primeira imagem da criança “careca” no colo de Júlia. Ou da demora em escolher um nome, o que, somado à resistência da mulher em aceitar ser chamada de mamãe, acaba reforçando o discurso narrativo, como mencionei anteriormente.

Sutilezas que ajudam a compor um quadro que reflete outro comportamento da sociedade, especialmente dos homens. Como forma de desqualificar a voz das mulheres, muitos costumam apelar para ataques que invariavelmente passam pela tentativa de pintá-las como loucas e/ou histéricas. Não por acaso, as únicas personagens que se mostram dispostas a ouvir Julia são mulheres, ao passo que Georg não hesita em abandoná-la no primeiro obstáculo que aparece, inclusive negando-se a defendê-la durante um embate com o Dr. Vilfort, interpretado de forma enigmática pelo dinamarquês Claes Bang, famoso mundialmente após estrelar o soberbo The Square - A Arte da Discórdia (2018), indicado ao Oscar de Melhor Filme Internacional.

Após dois atos tão eficientes, chega a ser impressionante como Mother’s Baby desmorona em seu terço final, especificamente quando enfim se dispõe a solucionar seus mistérios, que, verdade seja dita, não são tão difíceis assim de serem descobertos e com boa margem de distância. A previsibilidade e a simplicidade com que tudo é descortinado, fazem com que o espectador sinta-se traído pelas próprias expectativas, sempre encorajadas por Moder e Kohlweyer que ainda tomam a lamentável decisão de negar algumas conclusões, embarcando na tola crença de que alguma ambiguidade pudesse agregar à narrativa. O que, além de não ocorrer, só demonstra a insegurança da dupla acerca do próprio final.
NOTA 6









