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CRÍTICA | "Pânico 7"

  • Foto do escritor: Guilherme Cândido
    Guilherme Cândido
  • 6 de mar.
  • 4 min de leitura

Nenhuma franquia chega ao sétimo capítulo sem passar por alguma reinvenção. Famosa por brincar com clichês e convenções do horror em slashers autoconscientes, Pânico passou por diversas mudanças ao longo dos anos. Primeiro perdeu Kevin Williamson, criador do conceito e roteirista dos dois primeiros filmes. Depois, o falecimento do diretor Wes Craven após o (ótimo) quarto filme forçou mudanças mais drásticas: A dupla Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett (do criativo Casamento Sangrento) chegou com a tarefa de promover um soft reboot, isto é, conceber aquele tipo de “continuação legado” em que os protagonistas são levados a uma trama mais moderna e em meio a novos personagens. A renovação do elenco, encabeçado pelas promissoras Melissa Barrera e Jenna Ortega (agora conhecida por Wandinha), trouxe algum frescor em Pânico 5, mas tudo ruiu no péssimo e conturbado sexto capítulo.

Sem Neve Campbell, que alegou ter sido financeiramente subvalorizada, os diretores tentaram dar um passo maior do que as pernas, superestimando suas jovens estrelas elevando os riscos ao mudar o ambiente para Nova York. Com a bilheteria ainda satisfatória, o estúdio, claro, deu sinal verde para outra continuação, mas os problemas voltaram. A dupla de realizadores saiu para respirar novos ares (leia-se dirigir o bom Abigail), o substituto, Christopher Landon (dos divertidos A Morte Te Dá Parabéns) parecia o nome ideal, mas pulou do barco em apoio às atrizes principais. Para quem não se lembra, Melissa Barrera se posicionou publicamente a favor da Palestina quando o país sofreu ataques de Israel, atitude que provocou imenso desconforto em Hollywood, principalmente entre os executivos da Paramount, estúdio por trás da cine-série. O resultado foi um efeito dominó que começou com a demissão sumária de Barrera, algo que sacudiu a Indústria. Ortega, co-estrela, exigiu que a decisão fosse revertida, condicionando sua participação ao retorno da colega. Ela não só recebeu o mesmo tratamento da Paramount, como provocou a saída de Landon, após este alegar não ter mais interesse numa história sem as protagonistas. Mas quem pensou se tratar do fim de Pânico, enganou-se redondamente…

A saída encontrada pelos produtores acabou sendo uma jogada de mestre, pois não só apelaram para a volta da estrela Neve Campbell, como devolveram a franquia aos cuidados de Kevin Williamson. Agora como diretor, ele faz Pânico dar dois passos para trás nos planos rumo ao futuro, voltando as atenções para os fãs de longa data que ficaram pelo caminho.

Seu primeiro e acertado movimento é estabelecer (textualmente, inclusive) o que todos já sabíamos, mas os produtores fingiam ignorar: Pânico perde o propósito sem a presença de sua final girl e a essa altura do campeonato, o combo Sidney Prescott/Ghostface representa para a marca o mesmo que Laurie Strode/Michael Myers representou para Halloween. Faz mais sentido retomar o rosto estabelecido e calejado de Campbell do que gastar tempo e dinheiro na tentativa pouco prática de criar um novo. O curioso é que, nesse revival forçado, Williamson permite algumas reminiscências, seja ao manter canônico o filme anterior (frequentemente referenciado) ou ao manter dois personagens do falecido núcleo rejuvenescido. Ironicamente, Mason Gooding e Jasmin Savoy Brown são encarregados de resgatar a tradição autoconsciente da série. Vê-los tentar adivinhar a identidade do assassino ou flertar com a metalinguagem ao brincarem com os clichês aproveitados por Williamson potencializam a jocosidade pós-moderna que sedimentou Pânico no imaginário popular.

Em linhas gerais, o diretor é inteligente ao manipular todos os elementos que tornou famosos em prol de uma fórmula conhecida, mas tremendamente envolvente. Embora as situações sejam conhecidas e até os jump scares possam ser antecipados com alguma facilidade, desde a despedida de Wes Craven não tínhamos um capítulo com cara de Pânico. Os dois anteriores, por exemplo, trocaram a diversão pela brutalidade. Já esta sétima edição proporciona pouco mais de uma hora e quarenta minutos de um escapismo dos mais honestos.

Sim, introduzir a filha da protagonista passa longe de ser um artifício engenhoso, mas até esse clichê proporciona uma camada a mais para Sidney, agora uma mãe superprotetora e capaz de antever os passos de seu eterno nêmesis. Nesse aspecto, Neve Campbell nunca esteve tão bem, assumindo uma confiança inédita e que transforma a mocinha numa sobrevivente tão durona e astuta que até se permite "meta-zombarias" que vão desde um hilário “Ultrapassada? Vai se foder!” Até um “faça me o favor!” Quando telegrafa as intenções do vilão. Além disso, se não tem muito a acrescentar no debate sobre Inteligência Artificial (com exceção de um “IA é a morte da civilização!”), Pânico 7 faz bom uso da tecnologia para proporcionar, inclusive, o retorno de antigos personagens que não revelarei para não estragar eventuais surpresas. O que não chega a surpreender é o entendimento de Kevin Williamson a respeito das personagens que criou, especialmente a Gale Weathers de Courtney Cox, outro destaque. Aliás, arrisco a dizer que a repórter tem seus melhores momentos desde o longa original, a começar pela entrada triunfal que ajuda a embaralhar a busca por Ghostface (injetando gás novo à trama).

Derrapando aqui e ali nos mesmos clichês dos quais sempre tirou sarro (o policial que não inspeciona o local antes de agir, a ligação na hora H), a nova produção não chega a ser sagaz como seus primeiros exemplares, mas representa uma lufada de vida justamente quando a franquia parecia dar seus últimos suspiros.


NOTA 6,5

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