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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

Projeto James Bond #25: 007 Sem Tempo Para Morrer (2021)

007 Sem Tempo Para Morrer

(No Time To Die, 2021)


Quando escrevi sobre A Serviço Secreto de Sua Majestade, no sétimo episódio desta série de revisões dos filmes da franquia 007, apontei que George Lazenby, escolhido para substituir Sean Connery no papel de James Bond, havia comprometido grande parte daquele que tinha tudo para ser o melhor capítulo da série. O roteiro, afinal, era corajoso a história de uma forma extremamente sombria, surpreendendo o espectador com um momento chocante e que marcaria para sempre a trajetória de James Bond. Lamentei que, caso o espião tivesse sido interpretado por alguém minimamente razoável, o resultado teria sido infinitamente superior. Pois Cary Joji Fukunaga parecia determinado a fazer essa reparação histórica quando assumiu as rédeas de 007 Sem Tempo Para Morrer, 25º aventura oficial de James Bond, após a saída do cineasta Danny Boyle (Quem Quer Ser um Milionário?), que abandonou o projeto por discordar de algumas ideias dos produtores.

Com o intuito de permanecer fiel à postura de não oferecer spoilers, me limitarei a dizer que Barbara Broccoli e Michael G. Wilson queriam para esta fase protagonizada por Daniel Craig um desfecho ainda mais impactante do que aquele visto no filme de 1969. Craig, inclusive, revelou numa entrevista recente que o final de No Time to Die (o título original) havia sido planejado ainda durante a produção de 007 Cassino Royale, sua estreia no papel e que marcou uma mudança brusca em relação a vários aspectos da franquia, com a principal delas sendo a ruptura com o caráter episódico envolvendo as aventuras do espião. Ao invés de seguir o modelo de filmes independentes, Broccoli e Wilson traçaram um planejamento que desenvolveria não apenas uma história maior ao longo de múltiplos filmes diretamente conectados, como também o próprio James Bond. Afinal, Cassino Royale marcaria a primeira missão do agente secreto e iniciaria uma carreira que moldaria Bond especialmente como indivíduo, ganhando nuances aos nossos olhos.

Cassino Royale deu o pontapé inicial numa reformulação completa da franquia, trocando a “Fórmula Bond” por uma história mais adequada aos blockbusters modernos, resultando numa aventura mais adulta e realista protagonizada por um Bond frio e bruto. Até por isso, não houve espaço para incluir elementos clássicos dos episódios anteriores, como os gadgets e os carros turbinados; assim como a ausência de figuras recorrentes como Q e Moneypenny foram sentidas aqui e na continuação, Quantum of Solace, cujos problemas decorrentes da Greve dos Roteiristas mostraram que nem Daniel Craig estava imune ao efeito gangorra que afeta 007 desde a saída de Sean Connery.

Por outro lado, Sem Tempo Para Morrer tem mais em comum com Operação Skyfall do que com seu antecessor imediato, 007 Contra Spectre, apesar das óbvias ligações. Isso porque assim como Skyfall teve de cumprir uma série de requisitos a fim de atingir todos os objetivos exigidos pelos produtores e de quebra processar uma correção de rota após o fraco Quantum of Solace, Sem Tempo Para Morrer teve de não apenas lidar com a conclusão da história iniciada por Cassino Royale, mas também de fechar o arco aberto em Skyfall, encerrar a trajetória de James Bond e ainda oferecer uma despedida digna a Daniel Craig. Tudo isso regado a muitas referências ao passado da franquia. Mas ao contrário do terceiro filme, que soube lidar com a pressão e costurou com habilidade todos os elementos da complexa tarefa que se apresentou aos roteiristas, 007 Sem Tempo Para Morrer sofreu para atender a esses pré-requisitos.

Mesmo com 163 minutos de projeção, tornando-o o mais longo da franquia, 007 Sem Tempo Para Morrer tem pressa para amarrar várias pontas soltas dos filmes anteriores. A subtrama envolvendo a SPECTRE, por exemplo, chega ao fim subitamente numa sequência que só não chega a ser descartável por envolver a excelente participação de Ana de Armas (Entre Facas e Segredos) como Paloma, a bond girl empolgada por estar em sua primeira missão. A preocupação da atriz cubana em estar à altura do desafio de protagonizar uma sequência de ação do filme, inclusive, foi transportada para as telas, quando Paloma diz a Bond que treinou por três semanas, exatamente o mesmo tempo de preparação que teve antes de gravar.

Mais decepcionante ainda é a ponta de Christoph Waltz, retornando como Blofeld após já ter sido desperdiçado no longa anterior. É triste constatar que a produção não soube aproveitar os talentos do austríaco duas vezes vencedor do Oscar. Aqui, o vilão surge em cena apenas para compartilhar um momento constrangedor, com Bond soltando um artificial “morra, Blofeld, morra” (quem assistir ao filme ligará o comportamento antinatural do espião com uma determinada subtrama envolvendo o ‘perfume’ de Madeleine). Encerradas as trajetórias de Ernst Stavro Blofeld e sua organização criminosa, o longa finalmente pode concentrar suas atenções no vilão principal que, após sua introdução sinistra, some momentaneamente da história.

Lyutsifer Safin só faz jus aos seus antecessores através de seu nome sugestivo, pois na maior parte do tempo é sabotado pela atuação apática de Rami Malek (vencedor do Oscar por Bohemian Rhapsody) e por planos no mínimo confusos. Era de se esperar que o adversário de Bond num filme tão importante como esse fosse ao menos ameaçador, característica que Malek também é incapaz de interpretar. Após uma entrada sólida, com elementos de terror na direção e na trilha sonora, Safin aos poucos se esfarela até sobrarem apenas algumas semelhanças com o Dr. No (primeiro inimigo de Bond), como a ilha na qual concentra sua operação e o laboratório repleto de funcionários.

Num caso exatamente oposto, Daniel Craig oferece a melhor atuação de sua carreira: Absolutamente confortável como Bond a essa altura, Craig se permite adicionar um grau surpreendente de vulnerabilidade ao espião, concluindo com perfeição o desenvolvimento que começou em Cassino Royale. Afinal, Madeleine e uma determinada personagem funcionam como o ponto fraco do espião, que não faz a menor questão de esconder suas prioridades quando aceita voltar ao Serviço Secreto Britânico. Bond pode até retomar seu posto por puro patriotismo, mas ele age é para garantir um futuro às duas.

A equipe por trás das câmeras ajuda Craig a enriquecer James Bond: repare, por exemplo, nas roupas pequenas usadas pelo agente ao pescar durante sua aposentadoria, como se a vestimenta de homem comum não coubesse no eterno defensor de seu país. Ou nos planos abertos do diretor Cary Joji Fukunaga que possibilitam ao espectador testemunhar a naturalidade com que o espião, em poucos gestos, cumpre sua missão ao sair do interior de um bar em Cuba.

Fukunaga também deixa sua marca nas elaboradas sequências de ação, sempre orquestradas com o menor número possível de cortes e de forma a permitir que o público tome total conhecimento do espaço cênico. E seu repertório é vasto, abrilhantando desde as tradicionais perseguições (as duas melhores ocorrem antes dos créditos iniciais) até um espetacular plano-sequência com Bond eliminando inimigos em uma escadaria no terceiro ato.

O maior mérito do cineasta, no entanto só foi possível de se alcançar graças a seu envolvimento no roteiro. Como apontei no início, o norte-americano buscou estreitar os laços de seu filme com 007 A Serviço Secreto de Sua Majestade. Suas intenções são pertinentes, afinal, estamos falando dos dois capítulos mais dramáticos da história da franquia. Assim, qualquer fã de James Bond que assistir a 007 Sem Tempo Para Morrer pela primeira vez ficará arrepiado ao ouvir o personagem, logo nos primeiros minutos, dizer para a sua amada que eles têm “todo o tempo do mundo”, no interior de um carro enquanto percorre uma estrada europeia, espelhando o final do filme de 1969. O risco torna-se tão palpável para James Bond, que passamos a temer pelo resultado de sua missão a todo momento, mesmo que o espião dê conta do recado e seja auxiliado por agentes igualmente habilidosos.

É o caso de Lashana Lynch (Capitã Marvel), por exemplo, que faz da histórica Nomi (você saberá o motivo assim que ela explicar sua função dentro do MI6) uma agente cuja competência desafia Bond o tempo todo. A química entre Lynch e Craig, aliás, é o que de mais divertido o filme tem a oferecer em sua segunda metade, quando a montagem perde o ritmo. E se o filme anterior deu espaço para M participar da ação, agora é a sua ética que é posta à prova, gerando um debate com Bond que ganha ainda mais peso quando identificamos a melodia que está tocando ao fundo.

Trata-se do tema original de John Barry para 007 A Serviço Secreto de Sua Majestade (o meu favorito da série, diga-se de passagem), uma referência presenteada pelo compositor Hans Zimmer que deixa para trás colegas prestigiados como David Arnold e Bill Conti ao oferecer o melhor trabalho musical de 007 desde o supracitado filme de 1969. Faixas como aquela que embala a passagem por Cuba e a que acompanha os últimos segundos de Craig como 007 entram para os anais musicais da franquia. Isso para não mencionar a inclusão de “All the time in The World”, que Louis Armstrong cantou ao final da obra que serviu como inspiração para este filme. Falando em canção, a vencedora do Oscar "No Time To Die" (composta e cantada pela californiana Billie Eilish) abrilhanta a abertura com uma melodia sombria e melancólica que casa perfeitamente com o tom da narrativa.

Não só de emoção e despedidas vive o roteiro, pois se Cassino Royale era sobre abraçar o novo e Operação Skyfall tratou do dilema entre a tradição e a modernidade, o discurso de Sem Tempo Para Morrer se baseia no ato de superar, deixando para trás acontecimentos do passado, algo que se encaixa na personalidade de alguém como Bond, ainda traumatizado pela perda de Vesper Lynd e pelas tentativas sempre fracassadas de estabelecer um porto seguro emocional.

007 Sem Tempo Para Morrer está fadado a ser lembrado como o filme dramaticamente mais poderoso protagonizado por James Bond, mas isso não deveria ofuscar todo o entretenimento que também é oferecido em fartas porções, seja pelo bom humor das interações ou pelas excepcionais sequências de ação salpicadas na história e que incluem alguns dos elementos mais famosos da franquia (como o “Bondmóvel” e algumas surpresas do departamento Q).

Mesmo que o roteiro tropece ao finalizar algumas subtramas e decepcione na construção do vilão principal, Daniel Craig se despede de 007 como protagonista da segunda melhor leva de filmes sobre o personagem (atrás apenas de Sean Connery), num nível suficientemente alto para aplaudirmos não apenas o arco dramático desenvolvido com perfeição, mas também pelo legado deixado e que será assumido por alguém com a ingrata tarefa de manter o alto padrão atingido.


NOTA 7,5


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