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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

Projeto James Bond #06: 007 - A Serviço Secreto de Sua Majestade (1969)

007 - A Serviço Secreto de Sua Majestade

(On Her Majesty's Secret Service, 1969)

Pela primeira vez o espectador sente o gosto de assistir a um filme de James Bond sem Sean Connery interpretando-o. Um gosto que se revela amargo graças a um equívoco mastodôntico dos produtores Harry Saltzman e Albert Broccoli na hora de escalar seu substituto.


Ex-vendedor de carros cuja breve experiência como modelo, por incrível que pareça, o credenciou para substituir um ator altamente talentoso num papel transformado em ícone mundial dentro de uma franquia milionária, o australiano George Lazenby conseguiu derrubar 007 A Serviço Secreto de Sua Majestade mesmo trabalhando com um dos roteiros mais lapidados de toda a série. O resultado, porém, poderia ser ainda mais catastrófico, já que Lazenby chegou a receber uma proposta contratual para estrelar sete filmes e encabeçar uma reformulação completa da franquia. Quis o destino que Lazenby se mostrasse receoso em assumir um compromisso tão longo, aceitando fechar negócio para protagonizar apenas uma produção, o que facilitou sua dispensa após a enxurrada de críticas negativas e a bilheteria inferior às aventuras da Era Sean Connery, que voltaria uma última vez logo na sequência.

A trama mais sóbria foi uma exigência dos produtores, insatisfeitos com os elementos de ficção científica dos dois últimos capítulos. Acertando o retorno do roteirista Richard Maibaum, a direção apontada foi a de Moscou Contra 007, que prezou por uma história de espionagem realista e relativamente sombria. Maibaum acabou tendo carta branca para adaptar o livro homônimo de Ian Fleming, mantendo, inclusive, seu polêmico final. Bem estruturado e o mais bem-acabado desde 007 Contra Goldfinger, o roteiro de Maibaum começa claudicante, pecando nos diálogos expositivos ao introduzir Draco, mas merece pontos pela ousadia não só do final, como também pela forma como trata a mudança de protagonista. Mantendo o suspense antes de finalmente revelar o novo rosto de James Bond, o roteirista não resiste a uma brincadeira metalinguística ao mostrar uma mulher fugindo de Bond: “Isso não acontecia com o outro camarada!”, ele lamenta jocosamente olhando diretamente para a câmera antes do surgimento dos créditos iniciais.

A abertura, aliás, surpreende pela decisão tomada de não incluir uma canção original, quebrando uma tradição que gerou preciosidades como “Goldfinger”, cantada por Shirley Bassey e “You Only Live Twice”, de Nancy Sinatra. Tal estratégia é plenamente justificada, pois destaca o tema composto por John Barry, nada menos do que seu melhor trabalho dentro da franquia, recuperando-se com louvor da trilha pouco inspirada de Com 007 Só Se Vive Duas Vezes. A melodia sombria e sofisticada dita o tom da narrativa, além de embalar a melhor sequência de ação do filme. E por falar na ação, 007 A Serviço Secreto de Sua Majestade possui as sequências mais ambiciosas de toda a série, com destaque para a eletrizante perseguição de ski que termina com uma assustadora avalanche. Diante de tantas virtudes, pavimentava-se uma trilha rumo ao sucesso, mas no meio do caminho tinha uma pedra e ela se chamava Lazenby, George Lazenby.

Substituir Sean Connery como James Bond certamente era o pior desafio que alguém poderia enfrentar naquela época, mas a produção falhou miseravelmente ao acreditar que George Lazenby pudesse ao menos atuar. Ele poderia tentar imitar o estilo do “outro camarada” ou ter a audácia de construir sua própria versão do personagem, mas não faz uma coisa nem outra, transformando James Bond num vácuo ambulante desprovido de qualquer traço de personalidade, carisma ou expressividade. Desastroso, o australiano consegue a proeza de fracassar em todas as frentes como o espião, sendo incapaz de evocar um quinto da perspicácia que Sean Connery exalava com facilidade. Além disso, seu caminhar balouçante e os modos rústicos evidenciam uma falta de elegância mortal para sua performance, que ainda por cima carece de charme. No entanto, é preciso reconhecer seu esforço durante as lutas, quando capricha nas caretas e nos grunhidos entre um movimento ríspido e outro.

Já em relação ao vilão, o novo 007 opta por dar continuidade à trama de Com 007 Só Se Vive Duas Vezes, mas toma a questionável decisão de trocar o intérprete de Blofeld, sob a justificativa de que Donald Pleasance teria dificuldades para suportar a exigência física das sequências de ação. Com isso, Telly Savallas, dois anos antes de assumir o papel do detetive Kojak na TV, encarna uma versão menos caricata (a ausência da cicatriz facial é sentida), indo ao encontro da proposta realista da trama, mas carecendo da imponência de seu antecessor. Pleasance, com sua composição marcada pelas poucas palavras e o tom de voz controlado opondo-se aos olhos arregalados, esbanjava estilo e ameaça, ao passo que Savallas opta por uma performance mais convencional.

Enquanto isso, Tracy (a Bond Girl da vez) é interpretada por Diana Rigg com toda a presença de cena que faltou ao seu par romântico, investindo numa composição complementar em que quase é possível perceber uma química entre o casal. Mais importante do que isso, Rigg permite ao espectador compreender os motivos que levam James Bond a se mostrar disposto a largar tudo por ela. É importante ressaltar que tal atitude do agente secreto quebra uma série de paradigmas, por isso seria fundamental que suas justificativas fossem bem fundamentadas, especialmente no final.

E seria impossível analisar 007 A Serviço Secreto de Sua Majestade sem abordar seus impactantes minutos finais, que propõe uma ruptura em relação a forma com que a série encerrava seus capítulos, impondo uma carga dramática tão surpreendente quanto chocante e aí, mais uma vez, a história é sabotada pela inaptidão de George Lazenby que não consegue alcançar o nível emocional demandado pela cena. Pela primeira vez apelando para o lado emotivo do espectador, essa foi apenas uma das provas de coragem dadas pela produção, que se mostrou extremamente influente nas fases mais recentes de 007.

Sem medo de se aprofundar no passado do espião, membro de uma família nobre de acordo com o que é revelado, a produção não apenas inspirou o título de uma aventura estrelada por Pierce Brosnan (“O Mundo Não é o Bastante” é mencionado aqui como o lema da família Bond), como guiou vários elementos da fase liderada por Daniel Craig: além das lutas mais brutas (007 Cassino Royale), até os alpes suíços foram reutilizados, com direito a instalação médica (007 Contra SPECTRE), mas foi no filme que marcou a despedida de Craig do papel de James Bond que as influências ficaram mais evidentes.

Pois 007 Sem Tempo Para Morrer utilizou a mesma “We Have All The Time In The World” para embalar sua história, igualmente sombria e com um desfecho ainda mais emblemático. Cantada por Louis Armstrong, a canção embalou o romance entre Bond e Tracy, mas ganhou uma aura ironicamente lúgubre ao ser nominalmente citada pelo espião em seu ato final, após passar toda a história referenciando-a como algo positivo. O mesmo aconteceu no filme de 2021.

Tentando desesperadamente estabelecer conexões com os filmes anteriores desde o início (a abertura inclui cenas de todas as produções lançadas até então) para amenizar a indigesta troca de protagonistas, 007 A Serviço Secreto de Sua Majestade inova ao trazer uma série de referências que vão desde o relógio/garrote utilizado pelo vilão Grant em Moscou Contra 007, passando pelo respirador de 007 Contra a Chantagem Atômica e culminando numa curiosa cena em que Bond passa por um faxineiro que está assobiando o tema de 007 Contra Goldfinger. A memória do público, porém, leva a um efeito comparativo tremendamente desfavorável, mas não tão prejudicial quanto a cafoníssima montagem ilustrando o namoro de Bond e Tracy, que mais parece um clipe.

A impressão que fica ao final é que caso fosse estrelado por Sean Connery, 007 A Serviço Secreto de Sua Majestade tinha tudo para se tornar um dos exemplares mais memoráveis de toda a franquia, mas teve a infelicidade de cair nas mãos do intragável George Lazenby.


NOTA 7


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