CRÍTICA | "Bugonia"
- Guilherme Cândido

- há 14 minutos
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Num momento em que a ansiedade e a depressão assolam uma sociedade cada vez mais dependente da tecnologia e coletivamente desconectada, o grego Yorgos Lanthimos prova ser o diretor ideal para comandar Bugonia, um filme sobre indivíduos psicologicamente frágeis ao ponto de serem seduzidos por teorias da conspiração. Como um artista cuja matéria-prima é a inquietação, não é mero acaso que suas obras provoquem uma sensação pungente de desconforto, algo que sua abordagem invariavelmente potencializa, como no uso ostensivo de lentes grandes angulares para refletirem, na tela, a natureza distorcida de personagens (no caso de A Favorita) e de seus respectivos universos (no caso de Pobres Criaturas). Desta vez, porém, ele só se certifica de atacar os nossos sentidos, seja através das cores fortes do diretor de fotografia Robbie Ryan, pela trilha sonora grandiosa de Jerskin Fendrix ou pelo design de som capaz de exacerbar os efeitos de uma joelhada, por exemplo.

Adaptado livremente do longa-metragem sul-coreano Save the Green Planet! (2003), o roteiro de Will Tracy (de O Menu e da série Succession) acompanha Teddy (Jesse Plemons, de Guerra Civil) e Don (Aidan Delbis, estreando como ator), dois primos broncos que viviam tranquilamente no interior dos Estados Unidos até o primeiro cismar que Michelle (Emma Stone), a poderosa executiva que preside a empresa em que trabalha é uma alienígena. O plano? Sequestrá-la e fazê-la conseguir uma reunião com o Imperador Andromedano a fim de convencê-lo a tirar seus conterrâneos da Terra.

Se a mulher é ou não um alienígena, pouco importa. O que floresce de fato nesse cenário estapafúrdio são as camadas que surgem e são dissecadas habilmente por dois dos intérpretes mais talentosos da atualidade. Stone, cujo reconhecimento é simbolizado pelos dois Oscars recebidos (um deles dirigida por Lanthimos), retrata Michelle com uma frieza tão desumana que, ironicamente, mais se adequa ao (terráqueo) território capitalista do que a uma natureza extraterrestre. E é chover no molhado elogiar sua competência para alimentar essa dúvida, equilibrando em sua performance as duas possibilidades que fazem as engrenagens do roteiro funcionarem. No entanto, mais estimulante do que tentar decifrar sua origem, é perceber a acidez dos comentários sobre o mundo corporativo, como os discursos ensaiados, as preocupações encenadas e as reações calculadas.

Da mesma forma, o protagonista poderia muito bem ser apenas um caipira delirante consumidor (e produtor) de narrativas mirabolantes na internet. Esse retrato de uma parcela mais extremista dos “conservadores” estadunidenses funcionaria por si só, mas Jesse Plemons dá vazão a um personagem muito mais complexo. A mente bitolada de Teddy é sutilmente investigada por Will Tracy, que aos poucos solta pistas sobre o que fragilizou a mente do sujeito ao ponto de ficar suscetível a alucinações coletivas. Algumas informações, inclusive, quase chegam a humanizá-lo, como sua relação com a mãe e uma questão envolvendo um policial local.

Como é possível perceber, o normalmente niilista Yorgos Lanthimos finalmente chega perto de demonstrar alguma fé na humanidade, mas o final (que obviamente não entregarei) manda tudo pelos ares da forma mais lanthimosesca possível, tirando proveito do fato de estarmos acompanhando a história do ponto de vista de Teddy, o que justifica algumas escolhas (perceba como o planeta é mostrado).

Astuto, incômodo e inquestionavelmente magnético, Bugonia trata com uma ironia cruel alguns dos maiores males que acometem os seres humanos na atualidade. E o fato de jamais questionarmos a plausibilidade de todo o disparate visto aqui, diz muito sobre o estado do mundo.
NOTA 8









