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CRÍTICA | "Truque de Mestre: O 3º Ato"

  • Foto do escritor: Guilherme Cândido
    Guilherme Cândido
  • há 1 dia
  • 4 min de leitura

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A franquia Truque de Mestre não é exatamente um arrasa-quarteirão, mas gerou filmes divertidos o bastante para serem lembrados com carinho pelo público. Talvez não ao ponto de justificar uma trilogia, mas cá estamos. Dez anos depois da última aventura, a trupe de mágicos conhecida como “Os Quatro Cavaleiros” faz um retorno pelo qual poucos pediram, mas imagino que ninguém se incomodaria de conferir. Que mal poderia fazer ver Jesse Eisenberg, Dave Franco, Woody Harrelson e Lizzy Caplan (ou Isla Fisher, dependendo do filme) de volta para tirarem mais um coelho da cartola? Se prepare, pois a resposta não é das mais auspiciosas.


Longe de serem obras superlativas, os dois primeiros filmes eram, acima de tudo, escapismos inofensivos e acredito que toda a simpatia em sua volta é justificada por um momento genuinamente cinematográfico presente em Truque de Mestre: O Segundo Ato: a sequência da carta sendo trocada de mãos (que você poderá conferir logo após esse parágrafo). São pouco mais de cinco minutos que não apenas resumem com perfeição o apelo dessa cinessérie, mas também refletem um potencial jamais alcançado novamente. Sim, a suspensão da descrença é um pré-requisito para apreciá-la, mas as habilidades de Jon M. Chu como diretor jamais seriam questionadas novamente.

Enquanto o cineasta, responsável por Ela Dança, Eu Danço 2 (e 3) e Justin Bieber: Never Say Never, evoluiu comandando o bom Podres de Rico, o excepcional Em um Bairro de Nova York e o indicado ao Oscar de Melhor Filme Wicked, Ruben Fleischer foi desperdiçando oportunidades após despontar com o divertidíssimo Zumbilândia. Pois Truque de Mestre: O 3º Ato representa o fundo do poço de uma carreira que já incluía o fraco Caça aos Gângsteres, o fraquíssimo 30 Minutos ou Menos e o terrível Venom. Zumbilândia: Atire Duas Vezes é o ponto fora da curva, indicando que esta, sim, é a franquia ao qual pertence. No entanto, Fleischer, com sua direção burocrática, passa longe de ser o único responsável pelo vácuo criativo no qual o fechamento desta improvável trilogia está imerso. 

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Escrito a oito mãos, o roteiro traz de volta o quarteto original apenas para legitimar uma passagem de bastão a uma nova geração de mágicos. Dominic Sessa, ótimo no premiado Os Rejeitados, Ariana Greenblatt, que passou ilesa por catástrofes como Borderlands e O Poderoso Chefinho 2, e o bom e rodadíssimo Justice Smith (de Dungeons & Dragons: Honra Entre Rebeldes e Pokémon: Detetive Pikachu), interpretam variações pouco interessantes dos antigos protagonistas, agora relegados ao segundo plano. E pior do que ver o estilosíssimo Jack Wilder de Dave Franco estrelar apenas uma ou duas curtas sequências é ver Woody Harrelson completamente perdido até desaparecer durante boa parte da narrativa, cuja estrutura é frágil, preguiçosa e tremendamente mal construída.

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Os roteiristas investem em foreshadowings sem a menor intenção de disfarçá-los, fazendo com que o espectador telegrafe reviravoltas a distância (o truque da bala, o guarda cujo rosto é propositalmente cortado da imagem), da mesma forma com que os péssimos diálogos podem ser completados antes dos personagens concluí-los. E quando eles resolvem falar, a situação fica ainda pior, já que há um abuso alarmante de diálogos expositivos, como na extensa e artificial sequência que apresenta cada novo integrante. Da mesma forma que cada introdução é acompanhada de um pequeno perfil, todos os truques e planejamentos são exaustivamente explicados, como se o público fosse uma criança de cinco anos com TDAH. Nem me refiro ao didatismo estilo Scooby-Doo tão comum nesse tipo de história, mas sim às irritantes passagens em que vemos alguém relembrando o que aconteceu a menos de quarenta e cinco minutos, por exemplo (“olha, é a mesma estrutura da porta!”). O terceiro Truque de Mestre ainda exagera nos momentos em que personagens complementam os raciocínios uns dos outros ao invés de finalmente fazerem o que devem (o que não aconte, pois precisam levar informações ao público, afinal). E nem mencionarei as “pérolas” de sabedoria ao final, com forte potencial de fazer os olhos dos espectadores revirarem.

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Desta vez, nem os set-pieces salvam, pois limitam-se a replicar acertos de filmes melhores (o corredor giratório de A Origem, os esquemas de Onze Homens e um Segredo, as traquitanas de… dezenas de filmes de aventura). Para não dizer que nada funciona, ao menos tiram bom proveito da música “Abracadabra” de Lady Gaga, embora esta não seja utilizada num contexto ilusionista, mas sim antes de uma perseguição a um carro de Fórmula 1 pelas ruas de Abu Dhabi (que, por incrível que pareça, funciona).

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Realizando a proeza de trazer a brilhante Rosamund Pike (indicada ao Oscar por Garota Exemplar) forçando um sotaque absolutamente esdrúxulo que distrai melhor do que qualquer mágico, Truque de Mestre: O 3º Ato ainda tem a audácia de incluir uma deixa para continuações. É triste ver uma franquia com tanto potencial ser relegada a um caça-níquel operado por profissionais claramente subqualificados para o trabalho. Caso a equipe criativa seja mantida, um iminente quarto filme talvez deva ser encarado com mais temor do que esperança.


NOTA 3

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