CRÍTICA | "Hey Joe"
- Guilherme Cândido

- há 2 horas
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A densa história de um veterano alcoólatra e depressivo da Segunda Guerra que subitamente descobre ter deixado um filho para trás enquanto esteve no fronte em Nápoles, oferece imagens deslumbrantes da costa sul da Itália e de quebra traz a fascinante relação entre dois homens de personalidades opostas tentando recomeçar. Mesmo assim, o maior atrativo de Hey Joe está fora da tela, pois trata-se do retorno do ator James Franco ao Cinema.
Para quem não se lembra, o astro de Hollywood que despontou na trilogia Homem-Aranha (2002-2007) de Sam Raimi e chegou a ser indicado ao Oscar pelo tenso 127 Horas (2010), foi acusado de assédio sexual em 2019 por quatro alunas de seu curso de atuação em Nova York.
Apesar de negar o comportamento abusivo, Franco admitiu ter mantido relações sexuais com as estudantes, alegando ser ninfomaníaco. Naturalmente, o californiano foi cancelado na internet e viu a própria vida desmoronar, perdendo contratos, papéis, parcerias e até amizades duradouras como a que possuía com o comediante Seth Rogen (colega nos sucessos Segurando as Pontas, A Entrevista e É o Fim). Fechou um acordo milionário nos tribunais e sete anos depois retoma suas atividades nas telonas, ainda que bem longe de Hollywood. Seu acolhimento na Europa não chega a ser estranho, pois o mesmo aconteceu com Johnny Depp na época em que foi massacrado durante o processo que enfrentou contra a ex-esposa Amber Heard (que mais tarde ele venceu, é bom lembrar).

O roteiro escrito por Maurizio Braucci e Massimo Gaudioso não oferece fartura ao norte-americano, pois parte de tropos desgastados pelo tempo. Grandes realizadores como Francis Ford Coppola e Paul Schrader já haviam consolidado a figura do militar quebrado pela Guerra e isso lá na década de 70, a mesma na qual se passa a trama de Hey Joe (o título faz uma alusão à forma como os italianos chamavam o pessoal da base aérea local). A primeira impressão é a de que James Franco é qualificado demais para esse tipo de papel e ele tampouco demonstra motivação para ir além do arroz com feijão.

Se personagem e intérprete acabam quites nesse tratado tácito de mediocridade, Claudio Giovannesi tenta extrair tração dos atritos que permeiam a relação entre pai e filho, figuras atormentadas pelo ambiente, mas de formas distintas. O realizador exibe mais jogo de cintura ao se defrontar com o lugar-comum do script, apostando na força de Nápoles como gatilho do imaginário cinéfilo. Os edifícios de pedra, como os bares que surgem implacavelmente no fim de vielas estreitas, estão imortalizados na cultura popular, especialmente em filmes de máfia do calibre de Gomorra (2008), que rendeu a Matteo Garrone o Grand Prix em Cannes, Nostalgia (2023) e até Piranhas (2019), dirigido pelo próprio Giovannesi.

Nem os mafiosos, porém, escapam do marasmo criativo perpetrado pelos roteiristas, que chegam a cometer o sacrilégio de entregar uma caricatura ambulante para o veterano Aniello Arena (de Dogman, outra obra de Garrone premiada na Croisette) tentar operar um milagre. Quem acaba compensando é a excelente Giulia Ercolini, essa sim, digna de aplausos por tirar leite de pedra no papel (o primeiro em longas) de uma golpista napolitana. Além de ótima química com Franco, a atriz transmite humanidade e desperta facilmente nossa empatia, o que acaba sendo fundamental para o desenvolvimento da história.

Que no final até esboça um final redentor para se reconciliar com o espectador, mas que se revela pouco até mesmo para os padrões já modestos de uma produção conformada com a própria mandriice.
NOTA 5,5









