CRÍTICA | "Fora de Controle"
- Guilherme Cândido

- há 12 horas
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Marie e Julien vivem um casamento estável, com duas filhas e um lar sólido, mas a chegada de uma velha amiga ameaça a harmonia da família. Isso porque o casal e Anaëlle formaram um triângulo amoroso intenso no passado e essa mera lembrança é o bastante para perturbar o estado de espírito de Marie: Afinal, Anaëlle voltou para reconquistá-lo? Mais: Julien ainda sente algo?
A paranoia toma conta da mulher ao ponto de fazê-la rastrear os passos do marido e quando recobra o bom senso, acaba encontrando casualmente o novo chefe, Thomas, que além de ser um sujeito simpático e de boa aparência, possui a valiosíssima característica de ser um bom ouvinte, especialmente quando Marie não resiste ao seu convite para tomar uma bebida. Entre umas e outras, ela acaba contando tudo a ele, que não hesita em retomar a ideia inicial de Marie em rastrear os passos de Julien. Mal sabe ela que aquele é só o início de um relacionamento altamente tóxico que testará todos os seus limites.

Relacionamentos abusivos com psicopatas obcecados já renderam tantos frutos que hoje possuem um filão próprio, capitaneado claro por Atração Fatal (1987), clássico estrelado por Michael Douglas e por uma Glenn Close em estado de graça. Ou desgraça, dependendo do ponto de vista.

José Garcia (de Truque de Mestre), por outro lado, até exibe algum charme com um sorriso ambíguo e uma fala mansa que justifica o encantamento imediato sobre Marie, mas surge completamente perdido quando o roteiro escrito por Anne Le Vy (que também assina a direção), emperra num meio-termo entre a sátira auto consciente e o thriller melodramático.

O problema é que Le Vy bate em todas as teclas que fariam do francês Fora de Controle um satisfatório filme B, daqueles que costumavam abrilhantar as madrugadas de sábado na TV, mas a realizadora jamais assume isso. Dessa forma, quando Thomas entra em cena fazendo suas peripécias e ficando prestes a soltar uma gargalhada maníaca, a narrativa logo tenta resgatar a sobriedade, jogando luz, por exemplo, sobre o relacionamento insosso entre Marie e Julien.

Sim, a premissa da possível retomada de um triângulo amoroso é instigante e rende ótima atmosfera de início, mas Élodie Bouchez (do recente Enzo), embora intensa e expressiva, passa longe de possuir química com o sempre ótimo Omar Sy (numa fase recente de más escolhas de projetos), que pra piorar, aparece apenas esporadicamente. Se o alicerce da história, o relacionamento do casal, é construído com fragilidade, sobra pouco para se sustentar.

Desse pouco, situações que ora falham em originalidade, ora testam a suspensão da descrença. Anne Le Vy, que dividiu a tela com Sy no filme que o projetou para o mundo (o arrebatador Intocáveis), possui experiência demais para se dar ao trabalho de exibir alguma insegurança quanto ao material original e o terceiro ato corrido só piora as coisas. Verdade seja dita, há uma analogia envolvendo uma arte japonesa sobre reconstruir objetos sem esconder as fissuras (ou cicatrizes), mas o fato de colocar um personagem para explicar o conceito não diminui a cafonice desse momento, e olha que não é o único "subtexto" pensado por Le Vy.
Mesmo inconsistente e com uma parcela indefensável de absurdos, Fora de Controle não peca pela falta de ritmo, o que na prática significa que ao menos faz bom uso dos pouco mais de cem minutos de projeção, engajando o espectador em troca do benefício da dúvida até finalmente decepcioná-lo de forma irreversível.
NOTA 3,5









