top of page

CRÍTICA | "Franz"

  • Foto do escritor: Guilherme Cândido
    Guilherme Cândido
  • há 13 minutos
  • 2 min de leitura

*Crítica publicada durante a cobertura do Festival do Rio 2025


Como muitos pensadores brilhantes, Kafka só alcançou relevância mundial após a morte, parte inexpugnável da vida que tradicionalmente desperta a curiosidade do público sobre a obra do falecido, especialmente se este foi um artista. E como um artista, das palavras e do pensamento, o tcheco não poderia ser menos exótico e antissocial, características que distanciavam potenciais admiradores, mas que servem como atributos irresistíveis ao conterrâneo Marek Epstein (do bom O Charlatão), que assina o roteiro dessa biografia incomum indicada à Concha de Ouro no Festival de San Sebastián.


Dirigido pela polonesa Agnieszka Holland, a produção é tão interessada no homem por trás do mito que chega ter apenas seu primeiro nome como título. Por outro lado, por mais que tente agregar dispositivos incomuns à narrativa, o modelo utilizado pelo roteiro ainda é convencional e os tormentos sofridos pelo biografado, em última análise, não são maiores do que os de tantas outras mentes brilhantes, fazendo com que o longa-metragem soe mais banal do gostaria.

A história acompanha a juventude tardia de Kafka (Idan Weiss), um homem ainda tentando caminhar com as próprias pernas, dividido entre a vocação como escritor e os planos de seu pai (Peter Kruth), que o vê como futuro parceiro nos negócios da família. Enquanto o tempo avança, amores surgem, amizades se enfraquecem, mas seus interesses permanecem intactos, prontos para marcarem a humanidade.

Entre as “novidades” propostas por Holland, acostumada a narrativas mais formais como a do ótimo Zona de Exclusão, exibido no Festival do Rio em 2023, estão recursos que vão desde o desenvolvimento não-linear até personagens quebrando a quarta parede para oferecer depoimentos diretamente ao público. Enquanto o primeiro  mais soa intrusivo por interromper bruscamente sequências rodadas no passado para suceder passagens no presente que ilustram o legado de Kafka quase em “tempo real”, o segundo é ainda mais chocante, seja pela inesperada conversa puxada pelos personagens ou pelo óbvio problema decorrente do simples fato de que eles fornecem informações que não poderiam possuir em primeiro lugar (como detalhes da personalidade do protagonista).

Idan Weiss, em seu primeiro papel no Cinema, é bem-sucedido em retratar a patetice de Kafka em algumas de suas tolas convicções, revelando-se apenas irritante nos momentos em que tenta ilustrar a teimosia do sujeito. O novato, no entanto, acaba sendo eclipsado por seus colegas de elenco, especialmente o veterano Peter Kruth (visto esse ano na comédia alemã O Grande Golpe do Leste), intérprete do rigoroso pai do protagonista. As figuras femininas também são encarnadas com mais profundidade, enfraquecendo a figura central por tabela.

Exibindo um design de produção competente e uma reconstituição histórica correta, Franz é o tipo de filme engolido por suas próprias pretensões que, mesmo compreensíveis, apenas disfarçam a natureza inexoravelmente convencional de sua narrativa.



NOTA 6

bottom of page
google.com, pub-9093057257140216, DIRECT, f08c47fec0942fa0