CRÍTICA | "Toy Story 5"
- Guilherme Cândido
- há 19 horas
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Quando Toy Story 3 foi lançado, muitos encararam como o fim perfeito para a saga iniciada em 1995, uma sensação validada por ninguém menos que o falastrão cineasta Quentin Tarantino. “Eu não tenho nenhum desejo de assisti-lo. Você literalmente terminou a sua história da forma mais perfeita imaginável, então não, não quero. Não me importa se o filme é bom. Para mim, acabou”, ele disse durante a repercussão do filme anterior. Sim, nem tudo que ele tem falado merece consideração, mas vamos dar o ponto para o velho autor de Pulp Fiction (1994) dessa vez. Até porque, mesmo sendo ótimo, Toy Story 4 se posicionou facilmente como o pior da franquia. E eis que, sete anos depois, nos deparamos com mais um capítulo da trajetória de Woody, Buzz e seus amigos. Todos sabemos das motivações econômicas da Disney, mas o que não sabíamos é que o diretor e roteirista Andrew Stanton realmente ainda tinha algo a dizer. E não era pouco.

Indicado ao Oscar pelo script do primeiro filme e vencedor com Procurando Nemo (2003) e Wall-E (2008), Stanton traz a franquia para modernidade com uma reflexão sólida, mas sem deixar a aventura de lado, mesclando lágrimas e risos da mesma forma que consagrou a Pixar como um dos maiores celeiros criativos da Animação. Portanto, se você ainda está receoso, fique tranquilo: Toy Story 5 não apenas retoma o nível altíssimo dos três primeiros, como posiciona a cinessérie entre as mais consistentes do Cinema. O cuidado com a marca Toy Story é proporcional à sua importância dentro da Pixar, bem como historicamente, pavimentando o domínio das animações computadorizadas.

Dessa forma, confesso ter me emocionado com o grau de excelência atingido em vários momentos mesmo depois de trinta anos. Afinal, como se não bastassem as viradas dramáticas bem executadas, Toy Story 5 guarda uma série de cartas na manga que justificam os aplausos efusivos recebidos na cabine de imprensa em que estive presente, reforçando a tese de que a genialidade ainda existe em Hollywood, por mais soterrada que esteja.

Sem revelar muito, até porque, quanto menos souber, melhor será a experiência, a rotina tranquila dos brinquedos, agora liderados pela xerife Jessie, é perturbada com a chegada ameaçadora de Lillypad, um tablet comprado pelos pais de Bonnie para ajudá-la a fazer amigos. Jessie, um brinquedo da velha guarda, acha que nada substituirá a magia da diversão à moda antiga e teme que a infância da menina seja abreviada pelo uso da tecnologia.

Como é possível perceber, o script não ignora as mudanças ocorridas desde o lançamento do primeiro filme, mas não se restringe a uma mera contextualização, já que Stanton e a parceira criativa McKenna Harris não hesitam em se aprofundar nos conflitos entre o analógico e o digital. E o melhor é que a dupla também não fica em cima do muro ao oferecer argumentos, propondo perspectivas inteligentes, sofisticadas e que agregarão nos dilemas enfrentados pelos pais contemporâneos. Outro ponto de atenção entre as crianças abordado pelo roteiro é o bullying e a necessidade de estar atento aos sinais das crianças, algo difícil considerando a vastidão do ambiente virtual (sim, até jogos online viram pauta).

Mas para além do aprofundamento em questões atuais e pertinentes, Toy Story 5 também expande corajosamente a mitologia da série, como ao construir um arco amoroso para um personagem ou ao responder uma antiga pergunta: em que ponto os brinquedos percebem que devem evitar o contato com os humanos?

Se narrativamente, a produção já merece elogios rasgados, tecnicamente não fica atrás, a começar pela atenção aos detalhes (marca registrada da Pixar), evidente na textura perolada dos novos Buzzes, que se diferenciam do clássico de forma orgânica e visualmente impressionante. Eles também são responsáveis pela manutenção da antiga tradição de referenciar clássicos do Cinema, desta vez através da divertida abertura. Seguindo essa linha, o novo longa traz planos significativos e que já nascem emblemáticos, como aquele que mostra várias janelas iluminadas por telas e outros que cumprem a dupla função de espelhar momentos marcantes da franquia (a chegada de Woody, o voo, as discussões). E se você, como eu, cresceu com os brinquedos, prepare-se para se emocionar com referências precisamente integradas à trama, com direito a frases, diálogos inteiros e os já habituais easter eggs. Nem mencionarei a caprichada dublagem localizada da Media Access Company, pois há piadas adaptadas de forma tão brilhante que merecem ser apreciadas sem conhecimento prévio.

Brilhante também é a decisão de dar o protagonismo à Jessie, uma personagem que já nasceu forte e justifica ser o centro da narrativa. Até porque, além do resgate de sua origem dolorosa (que ganha contornos ainda mais emotivos), abre espaço para o adorável Bala no Alvo ser mais do que um mero suporte, demonstrando personalidade, companheirismo e, claro, estrelando ótimos momentos por tabela. Com tantos personagens especiais, é compreensível a decisão de deslocar a maioria para o terceiro plano, principalmente se considerarmos o tempo já investido neles. Por outro lado, mesmo que fiquemos sedentos por mais cenas com o divertido Garfinho, por exemplo, todos possuem aproveitam ao menos um par de oportunidades.

Por essas e outras, a decisão de mastigar a densa moral da história ao final torna-se um pecadilho. Ora, com tantas proezas alcançadas e num nível de pressão e dificuldade sem precedentes, que não restem dúvidas aos pequenos. Assim como os adultos são contemplados com gags e sacadas, as crianças merecem ter acesso total a essa mais nova obra de arte concebida com o selo Pixar de qualidade. Uma que tenderá a encantar crianças de todas as idades, tenham elas crescido ou não.
E o senhor Quentin Tarantino que me desculpe, mas se a franquia ainda tiver o que dizer, estou pronto para o próximo filme!
NOTA 9,5
Observação: há uma cena extra absolutamente imperdível e uma brincadeira após os créditos.






