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CRÍTICA | "Coração Selvagem"

Foto do escritor: Guilherme Cândido
Guilherme Cândido
há 14 minutos
4 min de leitura

Confesso fazer parte daquele grupo de espectadores que consegue suportar quase qualquer tipo de violência contra qualquer tipo de ser vivo, menos animais. Especialmente cachorros. Cresci com a companhia dessas criaturas capazes de oferecer amor incondicional com uma facilidade que nós humanos deveríamos aprender. Passei grande parte da vida convivendo com cachorros e se hoje opto por viver sozinho, é porque ainda sinto a dor de ter perdido Fred, meu mais recente grande amigo. Por isso, quando estreia algum filme com um cachorro tendo algum destaque no material de divulgação, fico imediatamente receoso: será que acontecerá algo com ele? Foi exatamente o que aconteceu com este Coração Selvagem, que chega aos cinemas nesta quinta-feira. Brad Pitt e Odin estampam o cartaz e o marketing promete uma grandiosa história de sobrevivência e bravura entre os personagens. Para o meu alívio, e acredito que o de muitos por aí, a projeção começa pelo final e lá está o simpático Pastor Alemão dando as caras. Com a primeira e principal pergunta já respondida, podemos nos concentrar em outra questão: e Brad Pitt? Particularmente, considero mais fácil encarar o suspense pelo destino do personagem humano da história.

James Belmont é um veterano de muitas guerras, a última sendo a do Afeganistão, da qual participou como subtenente dos chamados “Boinas Verdes”, uma força especial do exército norte-americano. Odin, era o cão de patrulha do grupamento de James, mas ambos sofreram uma emboscada e acabaram tendo suas carreiras abreviadas. O trabalho em território hostil pode ter ficado para trás, mas o estresse pós-traumático ainda atormenta os dois, mesmo na reserva e com a decisão de James em viver de forma simples e pacata numa região remota do Alasca. Longe da civilização e mais próximo da natureza, o militar passa os dias lendo, pescando, bebendo uma sofisticada cerveja belga e dividindo as noites com Odin numa pequena barraca de acampamento.

Quando o perigo se aproxima, na maioria das vezes representado por uma tempestade, James empacota as coisas e coloca em seu hidroavião, deixando o local à procura de outro mais tranquilo. Até que um acidente deixa os dois no meio de uma região selvagem repleta de perigos e o retorno à civilização coloca as habilidades de ambos à prova

A trama é tão simples quanto parece, sem oferecer grandes desafios a Cameron Alexander, diretor de videoclipes que assina um roteiro de longa-metragem pela primeira vez. Misturando tropos de O Regresso (até um urso surge em cena) e Alfa, Alexander pode até não estar reinventando a forma de se conceber uma narrativa, mas oferece uma base sólida suficiente para David Ayer relembrar seus pontos mais fortes como cineasta.

Mais acostumado a trabalhar com histórias carregadas de testosterona e bromance, Ayer troca a ambientação imprevisível dos subúrbios de Los Angeles, pelo cenário silencioso e gélido da região centro-sul do Alasca. É uma forma louvável de refrescar a carreira, afastando-se, mesmo que não muito, da temível zona de conforto. E depois de nos horrorizar com atrocidades como Esquadrão Suicida e O Cobrador de Impostos, ele volta a mostrar a mesma competência comprovada nos ótimos Marcados Para Morrer e Corações de Ferro (também com Brad Pitt). A mise en scène é praticamente perfeita, com a geografia da cena sempre compreensível e a ação conduzida de forma a evitar os tentadores cortes frenéticos. Desta forma, ele consegue focar no que importa: uma atmosfera que começa aprazível e acolhedora e aos poucos mergulha os personagens numa espiral de tensão e paranoia, com o silêncio selvagem sugerindo ameaças à espreita.

Quase não há tempo para respirar e os perigos do lugar são realçados pela fotografia do vencedor do Oscar Mauro Fiore (Avatar). As paisagens do Alasca são inquestionavelmente belíssimas, mas são tão majestosas quanto intimidadoras. Assim como alguns quadros parecem prontos para serem emoldurados e pendurados (ou “printados” e usados como fundo de tela no celular), Fiore jamais exagera no tom das cores, fazendo questão de manter a imagem realista e condizente com a situação preocupante de James e Odin.

Enquanto o personagem canino é vivido por quatro intérpretes diferentes, James Belmont exige de Brad Pitt uma de suas atuações mais viscerais. Uma escolha curiosa de carreira quando lembramos que seu papel mais recente, o astro do automobilismo Sonny de F1: O Filme, o obrigou a ser apenas uma estrela de Cinema carismática. Só não é possível dizer que Pitt leva o filme nas costas, pois Odin se coloca em pé (ou pata) de igualdade com Belmont. Ambos lutam e sofrem e a química entre eles será difícil de superar.

Não espere que eu vá revelar o final, mas se a homenagem feita ao legítimo melhor amigo do homem (“eu mostrei a Guerra para ele, mas ele não me retribui com nada além de amor e lealdade”) arrancou lágrimas da maior parte do público presente na cabine de imprensa, vá preparando a sua caixa de lenços. Mas também não deixe de se preparar para um filme envolvente, bem fotografado e que representa um bem-vindo retorno à boa forma para David Ayer, um cineasta cujas qualidades ficaram perigosamente próximas do esquecimento.


NOTA 7,5

 

Observação: Se você é sensível a cenas contendo violência contra animais, esteja avisado de que há dois momentos de impacto envolvendo lobos (uma rápida e à distância e outra longa e extremamente detalhada).

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