CRÍTICA | "Justiça Artificial"
- Guilherme Cândido
- há 1 dia
- 3 min de leitura

2025 terminou, mas o interesse dos roteiristas de Hollywood por histórias envolvendo inteligências artificiais permanece intocado, mantendo uma tendência não apenas sem prazo de validade, mas com viés de alta à medida que o assunto segue quente, especialmente na indústria cinematográfica. Enquanto o comportamento majoritário da ala criativa tende a ser hostil, num discurso corroborado por artistas de diferentes patamares, há produções que arriscam vislumbrar um meio-termo conciliatório, enfatizando aspectos positivos dessa tecnologia cuja evolução segue assustando. Justiça Artificial vai ao encontro dessa vertente apaziguadora e embora parta de uma premissa instigante, oferecendo tensão suficiente para manter a narrativa envolvente, tropeça justamente ao tentar articular uma entrada nesse debate.
O roteiro escrito pelo inexperiente Marco van Belle imagina um futuro no qual uma inteligência artificial superdesenvolvida é empregada para auxiliar na solução de crimes, impactando imediatamente no aumento de prisões e na redução proporcional da sensação de insegurança. Atuando como juiz, júri e executora, a ferramenta chamada “Mercy” ( “misericórdia”, em tradução livre) ganha o rosto da sueca Rebecca Ferguson (das franquias Missão: Impossível e Duna) quando a trama nos apresenta ao caso de Chris Raven (Chris Pratt, de Guardiões da Galáxia), detetive responsável por algumas das prisões mais famosas de Mercy, mas que agora é julgado pelo assassinato da esposa (Annabelle Wallis, conhecida no Cinema pelo remake desastroso de A Múmia e na TV por viver a Grace de Peaky Blinders). Ele, claro, alega inocência, mas é à supostamente implacável IA que ele deverá provar.

Se a história carece de originalidade, ao menos o cineasta cazaque Timur Bekmambetov tenta contá-la de forma atraente, pegando emprestado a estrutura que utilizou no limitado Perfil (2018), isto é, investindo numa narrativa construída diegeticamente por imagens captadas por diversos meios. Na prática, vemos Chris Pratt (mais sério, portanto menos cativante) ganhar o cachê mais fácil de sua carreira ao passar toda a projeção sentado enquanto manipula mídias numa tela em realidade aumentada interagindo com um holograma de Rebecca Ferguson (mais estranha do que artificial).

O resultado, um cruzamento entre os ótimos O Colecionador de Ossos (1999), Minority Report – A Nova Lei (2002) e Buscando... (2018) que gerará identificação imediata com aqueles viciados em rolar a tela do TikTok e do Instagram, até funciona no primeiro ato, trazendo o mesmo Bekmambetov do divertido e inventivo O Procurado (2008) ao sustentar uma atmosfera tensa sublinhada pela ótima trilha sonora de Ramin Djawadi (famoso por compor o tema de Game of Thrones). A ideia de colocar Raven para elaborar a própria defesa utilizando os recursos da IA mantém o espectador distraído enquanto deixa de abordar as consequências da falta de privacidade e da ausência de ética por parte de uma tecnologia. Também é interessante o conceito envolvendo a porcentagem necessária para condenar ou inocentar alguém, principalmente quando a máquina apresenta justificativas para tal.

Os problemas aparecem quando van Belle começa a apresentar as soluções do mistério principal; e não bastassem os clichês surrupiados de enlatados policiais de quinta categoria, o roteirista ainda resolve sabotar o termo “inteligência artificial”, transformando Mercy num claro exemplo de “estupidez emocional”, beirando o ridículo ao mostrar a ferramenta bugando ao ser confrontada a respeito de sua incapacidade de assimilar conceitos como “intuição” e “afeição”. Este último, inclusive, rende um momento patético em que a dita-cuja auxilia o protagonista, agredindo nossa complacência ao nos empurrar goela abaixo um “IA Ex-Machina” durante uma sequência crucial.

Para não deixar o roteirista se embaraçar sozinho, Bekmambetov resolve mostrar tudo o que ofereceu de pior ao radioativo Abraham Lincoln: Caçador de Vampiros (2012), ignorando a lógica que ajudou a estabelecer nos primeiros minutos. Dessa forma, temos ângulos de câmera impossíveis (o parceiro morto visto do lado de fora de um carro em movimento, com o quadro paralelo e estabilizado), enquadramentos perfeitos e planos cinematográficos (os pilotos de drones e os policiais com bodycam estão de parabéns) traindo o conceito de filmagens interceptadas. E falando em filmagem, qual o sentido de utilizar câmeras IMAX se o propósito é exibir imagens gravadas por dispositivos modestos?

Obrigando atores consagrados a defenderem o uso de Inteligência Artificial proferindo pérolas como “erramos fazendo o que somos programados para fazer”, Justiça Artificial chegou perto de entrar na categoria dos passatempos inofensivos, mas desabou tão violentamente que talvez seja lembrado no próximo Framboesa de Ouro.
E não nos esqueçamos de que Timur Bekmambetov produziu o remake de Guerra dos Mundos estrelado por Ice Cube e favorito absoluto ao “prêmio” de pior do ano...
NOTA 3,5






