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CRÍTICA | "Linkin Park: Unshatter"

Foto do escritor: Guilherme Cândido
Guilherme Cândido
há 4 horas
4 min de leitura

Demorou exatamente um ano, dez meses e 15 dias desde o anúncio do famigerado “filme do Linkin Park” até a estreia global deste Linkin Park: Unshatter ontem nos cinemas. Pode parecer muito tempo para qualquer um, mas não para os soldiers (como são chamados os fãs da banda californiana). Afinal, o que são 684 dias para quem esperou mais de sete anos por um retorno há muito considerado impossível? Esse era o cenário logo após a morte do vocalista Chester Bennington (1976-2017), que não apenas decretou o que parecia ser o fim de uma das maiores e mais influentes bandas de nu-metal de todos os tempos, mas também atirou seus fãs num limbo agonizante que durou dois mil seiscentos e quatro dias.

O que aconteceu durante esse período é justamente a matéria-prima desse projeto, que além de responder perguntas, homenageia Bennington e o legado construído ao lado do Linkin Park, agora de forma inquestionável a maior e mais influente banda de nu metal da atualidade. Ter uma segunda chance, se reerguer e voltar ainda mais forte não é uma tarefa para os grandes, mas uma proeza destinada apenas aos maiores.

Ao contrário de outros filmes-concerto, especialmente o recente Oasis: Don’t Look Back in Anger, Unshatter não foi feito para dar respostas ao mundo, mas sim celebrar a comunidade criada ao lado de quem acompanha a banda, desde o início ou a partir de seu reinício. Essa é a deixa para ser honesto com você, caro leitor, e fazer uma ressalva que não considerei pertinente à crítica sobre o supracitado longa dos irmãos de Manchester. Apesar de gostar bastante do Oasis, Linkin Park me acompanha desde a adolescência (mais precisamente, desde que ouvi Numb pela primeira vez na cena de abertura do filme Miami Vice, em 2006). Os Transformers de Michael Bay fizeram o restante do trabalho (leia-se: me motivar a buscar os discos) com What I’ve Done, New Divide (minha favorita) e Iridescent, e o que antes era a banda de minha juventude, hoje é a banda da minha vida. Acredito que minha análise sobre o longa-metragem só estaria comprometida caso eu omitisse de você essa porcentagem maior de subjetividade.

Dito isso, o documentário dirigido por Joe Hann (DJ, programador e diretor criativo do grupo), entrecorta entrevistas e imagens de arquivo com a gravação do show realizado em São Paulo há dois anos. A escolha por essa performance não foi ao acaso, pois marcou o lançamento do álbum From Zero, além de servir por tabela como um afago à cidade onde mais se ouve Linkin Park no mundo (segundo dados do Spotify e do YouTube).

A verdade é que 110 minutos é pouco para se aprofundar em questões como luto, reconstrução (musicalmente, inclusive), misoginia, renascimento e segundo auge, o que talvez fruste quem quiser se aprofundar na história da banda (sequer há menções à repercussão na Mídia). Mas como já deixei claro, é um projeto feito para os fãs, que certamente ficarão satisfeitos com a abordagem empregada. A propósito, Mike Shinoda pode ser acusado de ser superficial em algumas pautas, mas nunca de fugir delas. Inclusive, há um momento corajoso em que o músico admite um desarranjo com o guitarrista Brad Delson por opiniões “sobrepostas”. E não dá para mencionar a palavra “coragem” sem abordar Emily Armstrong, a melhor escolha possível para o posto de vocalista. Não bastasse o peso de suceder Chester Bennington, ela ainda trouxe uma fúria machista até então inédita ao Linkin Park.

Há momentos verdadeiramente preciosos e não me refiro aos registros intimistas da camaradagem entre os integrantes, mas sim a revelações sobre cada um deles. A referência que o novo baterista Colin Brittain faz a This is Spinal Tap diz muito mais sobre a própria personalidade do que qualquer entrevista, assim como a preocupação de Brad com o duplo sentido de uma frase e a reação de Mike. Momentos que redimem a produção de alguns segmentos claramente roteirizados (algumas respostas foram cuidadosamente planejadas). A potência sonora também merece destaque, embora o isolamento dos vocais tire um pouco da pureza caótica do show. Já o suspense que toma conta do terceiro ato só não se revela bobo, pois Mike e Emily fazem questão de pontuar o medo de fracassar com a nova turnê, tão imediatista quanto agressiva no volume de apresentações.

Quem for ao cinema apenas pelas músicas descobrirá que Unshatter é uma tremenda vitrine de From Zero, como não poderia deixar de ser, mas que também tenta contemplar todos os discos, incluindo trechos de praticamente todas as canções mais ouvidas, até mesmo New Divide, que tem revezado com Crawling nos repertórios mais recentes e ficou ausente da trilha oficial do projeto.


Pegando emprestado o título da ótima música homônima, Unshatter faz jus à sua tradução, mostrando como um ícone da Música conseguiu se reconstruir a partir dos próprios estilhaços, espelhando-se em seus próprios fãs. Muitos declarando terem sido salvos pela banda, antes de saberem que eles mesmos salvaram o Linkin Park. E o colocaram de volta no topo.

 

Observação: Há uma cena adicional após os créditos.



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