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Festival do Rio 2026 | Dia 3

Foto do escritor: Guilherme Cândido
Guilherme Cândido
há 11 minutos
10 min de leitura

O Cachorro Louco da Europa

(The Mad Dog of Europe, Estados Unidos)


Mais conhecido como o co-autor da obra-prima Cidadão Kane (ou único autor, de acordo com o Mank, de David Fincher), Herman J. Mankiewicz teve uma carreira tremendamente bem sucedida, mas se engana quem pensa que seu interesse era puramente pelo Cinema. No documentário dirigido por Rubika Shah e co-escrito por ela ao lado do sócio Ed Gibbs, Mankiewicz se mudou de Nova York para Los Angeles para fazer parte da Arte dominante da década de 30. Depois de fechar um belo acordo com a Metro e assinar meia dúzia de filmes leves e esquecíveis, ele decidiu que queria partir para outra fase. Mank, passou a ser chamado pelos mais íntimos, estava preparado para fazer algo relevante, deixar um legado.


Observando a movimentação do xadrez geopolítico internacional, o roteirista conseguiu enxergar de longe a ameaça do nacionalismo, representado pela chegada de Hitler ao poder. A ideia era largar tudo para se dedicar a um projeto feito exclusivamente para derrubar o Führer. Para isso, só precisaria convencer um estúdio a investir em seu roteiro. O problema é que metade de Hollywood não comprava as previsões de Mank. E a outra metade já estava vendida aos alemães (o país europeu gerava a maior bilheteria internacional aos Estados Unidos).


Pegando emprestado o título do ambicioso script desprezado em Hollywoodland, O Cachorro Louco da Europa começa apresentando a gênese profissional de Mankiewicz, jornalista que se tornou o primeiro crítico de cinema da revista New Yorker antes de se mudar para a Meca do Cinema. Depoimentos dos netos do roteirista dão credibilidade ao documentário que aos poucos se afasta do teor biográfico para se transformar num conto de advertência, traçando paralelos desconcertantes da realidade da época com os nossos tempos.


Chamado de “o Voltaire do Central Park West”, Mankiewicz arriscou tudo pela chance de livrar o mundo da ameaça nazista. O fato de não ter conseguido, não é segredo algum, assim como ninguém fez questão de esconder as consequências de sua desilusão. Ele sucumbiu à bebida antes de ironicamente ter levado o Oscar por Cidadão Kane, filme que ainda guardava resquícios de seu projeto dos sonhos, embora tenha conseguido incluir apenas um trecho sobre Adolf Hitler.


Com mais cara de TV do que de Cinema (especialmente pelo sensacionalismo criado em torno da narrativa de que o Nazismo invadiu Los Angeles, o documentário é bem intencionado e solidamente estruturado, mas com exceção da curiosidade despertada pelo roteiro mítico de uma das figuras mais emblemáticas da Era de Ouro de Hollywood, tem de fato pouco a acrescentar e a sensação passada é a de que há opções melhores caso a ideia seja o aprofundamento em Herman J. Mankiewicz.


NOTA 6,5



Oceânico

(Idem, Brasil)


Não são muitos filmes que retratam a realidade dos pesquisadores no Brasil, ainda mais depois de enfrentarem um período de trevas entre 2019 e 2023, quando o governo da época promoveu cortes severos e bloqueios de orçamentos que praticamente paralisaram o setor de Ciência e Tecnologia do país. Inspirado em pesquisas científicas reais, como informa a cartela de abertura, Oceânico está longe de ser o filme definitivo sobre o assunto, mas chega perto ao traçar um panorama cru e direto de um departamento do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, ou simplesmente Hospital do Fundão. O objeto de estudo é o uso de psicodélicos (especificamente a Ayahuasca) para ajudar no tratamento da dependência de substâncias problemáticas (álcool e drogas, no caso).


Quem conduz o projeto é Adyr Dora, médica e pesquisadora que conforme a eficácia dos testes aumenta, é cada vez mais abordada pelo representante de uma empresa interessado em capitalizar os resultados. Claro que, inicialmente Silas Galvão se aproxima como um benfeitor, oferecendo recursos e apoiando Adyr e seus comandados, mas com a proximidade da produção de um medicamento, resolve colocar as garras de fora.

Escrito a doze mãos, incluindo as do diretor Guilherme Coelho, a produção deixa a ganância corporativa em segundo plano para fazer uma denúncia objetiva e eloquente sobre a situação do Rio de Janeiro. É de se aplaudir a coragem de apontar a Milícia como a verdadeira controladora do estado, asfixiando bairros carentes, infiltrando-se nas grandes empresas e envolvendo-se com a classe política. De acordo com o roteiro, nada é feito na Cidade Maravilhosa sem passar pelos famigerados grupos paramilitares.


O título do filme é uma referência aos sentimentos relatados por quem se voluntaria à ingestão de Ayahuasca, bebida à base de vegetais que já era utilizada há séculos pelos povos originários da Amazônia, ganhando interlúdios psicodélicos que se assemelham às digressões de Oppenheimer. Momentos que combinam ondas marítimas, imagens do cérebro humano e até abstrações que ajudam na imersão sem interromper o ótimo ritmo da narrativa.

Que se equilibra com perfeição entre o thriller político e o drama familiar. Coelho é hábil ao construir uma atmosfera pesada, em que algo grave parece sempre prestes a acontecer, provocando sustos e tensão com semelhante competência. Já o núcleo familiar é ainda mais impressionante, pois mostra a envergadura do diretor, esporadicamente alternando a paranoia por momentos de sensibilidade.


Se o drama se torna um destaque, é graças à atuação simplesmente monumental de Ana Carbatti, compondo Adyr como uma mulher íntegra, determinada e que não desiste de seus princípios. Além disso, Carbatti demonstra uma presença de cena invejável, dominando o espaço cênico e consequentemente engrandecendo o trabalho dos colegas, principalmente Caio Cabral, que interpreta o filho de Adyr. A dinâmica entre mãe e filho chama atenção pela naturalidade e fortalece as mudanças tonais do texto.

O ponto negativo fica por conta dos vilões, que não parecem ter outra função além de atrapalharem os planos dos mocinhos. Cenas com Silas bradando “vamos ganhar muito dinheiro!” enfraquece o conflito principal, pois se aproxima perigosamente da caricatura, num contraste decepcionante com os demais aspectos narrativos.


Tecendo ainda comentários sobre peculiaridades do Rio de Janeiro que misturam humor e crítica social, como na sequência em que Adyr é parada numa blitz e solta um “moro no Leblon, mas continuo preta, né?”, Oceânico é um longa-metragem envolvente, bem construído e com atuações brilhantes, principalmente de Ana Carbatti, desde já favorita ao Redentor de Melhor Atriz desta edição do Festival do Rio.


NOTA 8,5


Histórias Noturnas

(Histoires de La Nuit, França)


No centro-oeste francês, mais precisamente um vilarejo rural estrategicamente posicionado entre o nada e lugar nenhum (alguns chamariam de “onde Judas perdeu as botas”), vive um fazendeiro produtor de leite e sua família. Thomas (Bastien Bouillon, do ótimo A Noite do Dia 12) herdou a propriedade após o suicídio do pai e logo se casou com Nora (vivida pela atriz e diretora Hafsia Herzi), uma recém-chegada que logo arruma um bom emprego e melhora de vida. Juntos, eles criam a filha Ida (estreia arrebatadora de Tawba El Gharchi), que por sua vez tem bom relacionamento com Cristina (Monica Bellucci, ainda mais sensual em francês), artista que mora ao lado e simpatiza com os vizinhos. A tranquilidade deles acaba quando um trio de maus elementos invade a casa de Cristina e atrapalha os planos de uma festa de aniversário surpresa para Nora, que ganha de presente uma noite regada a tensão e muitas revelações.

O filme, uma adaptação do best-seller de Laurent Mauvignier, é escrito e dirigido por Léa Mysius como um cruzamento pouco envolvente entre Violência Gratuita e Marcas da Violência. Da cineasta, eu já havia gostado de Os Cinco Diabos, um coming of age pouco convencional que se aproveita de reviravoltas sobrenaturais para dissecar conflitos humanos. Desta vez, ela desajeitadamente tenta examinar fissuras familiares, mas só consegue regurgitar dinâmicas de filmes melhores.

Bellucci, a eterna Malena de Giuseppe Tornatore, é quem tem a tarefa mais ingrata ao protagonizar um núcleo clichê no qual tenta manipular o elo fraco dos bandidos. Bastien Bouillon prova que costuma se sair melhor interpretando personagens mais racionais, o que não é o caso de Thomas e Hafsia Herzi se desmancha à medida que passamos a conhecer melhor Nora. Do trio antagonista, Paul Hamy tenta injetar algum carisma como um capanga estereotipado e Alane Dellhayne tem ainda menos sorte ao padecer com um arquétipo unidimensional. Sobra a Benoît Magimel manter o espectador acordado com uma encarnação ameaçadora que em nada lembra o sensível cozinheiro do magistral O Sabor da Vida.

O terceiro ato, mirando no cumprimento da promessa de uma conclusão explosiva, acaba acertando é no desfecho do arco da pequena Ida, mesmo que esbarre na suspensão da descrença. El Gharchi que surpreende com uma expressividade incomum para a idade, transmite todas as nuances da maior vítima da história.


Que no final das contas serviu apenas para provar que até diretoras talentosas acabam engolidas pelas próprias ambições.


NOTA 4,5



Cartas Amarelas

(Gelbe Briefe, Alemanha)


Em seu último filme, o estupendo A Sala dos Professores, o realizador turco-alemão Ilker Çatak usou um suposto roubo no ambiente escolar como um gatilho para expor feridas sociais na Alemanha. O jeito de fazer a situação escalar num ambiente rigorosamente controlado fazia a atmosfera pulsar enquanto o espectador vasculhava a imagem em busca de respostas. Não por acaso, a produção foi indicada ao Oscar de Melhor Filme Internacional numa temporada tão forte que não deu para lamentar a vitória do soberbo Zona de Interesse. Neste Cartas Amarelas, Çatak ecoa seu trabalho anterior ao manter a câmera sempre presa aos personagens. É uma forma de nos comunicar que não importa o quanto a situação se agrave, o foco não sairá das pessoas e é através delas que sentiremos o impacto dos conflitos dramáticos.

Dessa vez, porém, o diretor amplia o escopo, saindo dos corredores escolares para passear pelos palcos do teatro turco, onde trabalha o casal Derya, atriz de talento reconhecido por todos e Aziz, professor universitário e dramaturgo prestigiado, mas famoso pelos textos politicamente provocadores. É justamente numa peça protagonizada por ela e escrito e dirigido por ele que as coisas começam a degringolar. As lentes de Çatak acompanham o olhar de Derya para um sujeito de aparência distinta na plateia, levando o celular ao ouvido assim que os aplausos finais começam a serem ouvidos.

O homem em questão, ligado ao governo, transmite a insatisfação de um regime que não hesita em punir artistas quando julga suas obras danosas à imagem do país e seu chefe de estado. Ele usa um pedido de foto negado por Derya para dar início a uma perseguição política implacável. Aziz, como um agitador nato, ainda incentiva seus alunos a participarem de uma manifestação inicialmente confusa (a pauta genérica “não à Guerra”). É o estopim para que a peça dos dois, notoriamente um sucesso de público, seja retirada de cartaz e Aziz perca o emprego na universidade. A partir daí, a família dá vários passos para trás, mas impedido pelo regime autoritário de dar outros a frente. De classe abastada, o casal passa a morar com a mãe de Aziz. De presença assídua no teatro de elite, ao rebaixamento para o cenário underground. De protagonistas do meio artístico, para a classe operária. Ela, passa a procurar bicos, ele vira taxista, tudo para manter a família erguida, mesmo que a filha adolescente naturalmente se rebele.

Cartas Amarelas, referência aos ofícios expedidos pelo poder público (como os que causam a derrocada do casal protagonista), extrapola  à linguagem a polarização política da trama. Ilker Çatak esnoba qualquer trucagem cênica ao estampar cartelas para localizar o espectador (Berlim interpretando Ankara). Os edifícios característicos da capital alemã, bem como letreiros no idioma de origem, dão um aspecto forasteiro à narrativa, com o estranhamento se assemelhando a uma espécie de censura ou exílio.

Como é de se esperar de uma obra assinada por Çatak a essa altura do campeonato, a narrativa não se limita à escancarar a repressão sofrida pela população turca, especialmente a artística, discutindo pautas envolvendo a Arte, como o papel na Sociedade, a relação com a política e até ética, algo refletido numa escolha de Derya desaprovada por Aziz.

Özgü Namal e Tanzu Biçer, respectivamente, constroem uma dinâmica de companheirismo, mas sem abandonar as próprias convicções. Ela se sacrificando para sobreviver com a família ao Capitalismo, ele negando-se a desapegar completamente do idealismo. As faíscas decorrentes desse embate, claro, contribuem para tornar a atmosfera mais enervante e chega a um ponto que nem os personagens suportam mais. Se ainda houver dúvidas a respeito do talento de Namal e Biçer, basta observá-los fazendo mágica numa sequência ambientada no interior de um carro.

Mais do que a reafirmação madura de um estilo, Cartas Amarelas é a consolidação de Ilker Çatak como um mediador sociopolítico, praticando uma linguagem cinematográfica que envolve e impacta sem precisar escancarar seu discurso. Um mestre na arte de disfarçar o leitmotif como pano de fundo.


NOTA 8



Se Eu Fosse Você 3 *

(Idem, Brasil)


Da mesma forma que comédias de troca de corpos nunca saem de moda, a nostalgia parece longe de deixar o topo da indústria. E se até Lindsay Lohan abandonou a aposentadoria para se reunir com Jamie Lee Curtis em Uma Sexta-Ainda Mais Louca Ainda, é claro que os sempre solícitos Glória Pires e Tony Ramos voltariam para permitir que o raio caísse uma terceira vez no mesmo lugar.

Ou quase isso, pois Se Eu Fosse Você 3 surfa a onda das “continuações-legado” e empurram Cláudio e Helena para o segundo plano enquanto Cléo Pires entra em cena para interpretar a filha dos ex-protagonistas e trocar com Rafael Infante. Bia e Aquiles (respectivamente?) vivem boa fase na carreira, mas enquanto o segundo está doido para ter filhos, a primeira está satisfeita com Maria Clara (Valentina Daniel), que teve aos dezessete anos. É evidente que essa discordância se soma aos desacertos do cotidiano para que um se coloque no lugar do outro. De forma literal, obviamente.

O roteiro final assinado por Leandro Soares é consciente do oportunismo da produção, mas curiosamente não capitaliza em cima da nostalgia. A abertura traz a animada canção que embalou o final do filme original, mas ele resiste à tentação de espelhar momentos marcantes (não espere por uma nova versão do “não rebola!”). Pelo contrário, Soares busca trilhar outro caminho e deixar os holofotes para Pires e Infante brilharem. Até porque, assim como os créditos iniciais deixam claro, Glória e Tony fazem uma mera participação especial, surgindo em duas ou três brevíssimas cenas, o que certamente vai decepcionar os fãs das obras anteriores.

Se Helena e Cláudio fazem falta, isso diz mais sobre o carisma, a química e, claro o talento de seus intérpretes, pois Aquiles e Bia estão muito bem representados. Aliás, se Ramos pesava na caracterização feminina para retratar Helena, dessa vez é Cléo quem exagera na “macheza” para emular a composição de Infante. Nada muito problemático para uma produção que visa um público pouco exigente e que entrará no cinema de braços abertos para reencontrar velhos amigos. Afinal, pode não parecer, mas já fazem 17 anos desde que Daniel Filho (agora apenas produtor associado) dirigiu o último longa-metragem.

Anita Barbosa recebe o bastão do veterano e entrega um arroz com feijão que se vê refletido no sorriso provocado pelas piadas bobas e inofensivas, mas nunca fora de lugar, ao contrário da inconveniente trilha sonora, onipresente ao tentar guiar cada emoção do público enquanto pontua a atmosfera de todas as cenas. O número excessivo de montagens também evidencia a percepção de que Se Eu Fosse Você 3 não tinha material suficiente para caber confortavelmente em noventa minutos, provocando um esforço hercúleo da produção para esticar tramas e subtramas.

Felizmente, os astros de alinharam perfeitamente uma vez mais para que o público pudesse curtir mais um simpático escapismo ao lado de dois dos atores mais amados do Brasil e com o bônus de trazer mais do que os tradicionais cartões postais cariocas permitindo até que o interior do estado tenha espaço para brilhar. Tá bom ou quer mais?


Se quiser mais, espere até ver a cena extra logo após o surgimento do título.


*Filme assistido dia 30 de setembro em cabine de imprensa, mas devido a embargo, a crítica só teve autorização para ser publicada a partir do dia 3 de outubro.


NOTA 6




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