Festival do Rio 2026 | Dia 10

Club Kid
(Idem, Estados Unidos)

À primeira vista, Club Kid pode parecer aquele tipo de filme independente sobre o cenário queer novaiorquino. Peter, um sujeito simpático, mas irresponsável, é o protagonista perfeito para seguir a tradição hedonista desse legítimo subgênero. No entanto, a entrada em cena de um garoto de dez anos muda completamente o cenário e faz um provável filme gay de ascensão e queda se transformar numa versão underground de O Paizão (1999). Em qualquer outra circunstância, essa comparação poderia preocupar, mas sob a batuta de Jordan Firstman, até uma estrutura formulaica pode se apequenar perante as pequenas proezas dramáticas alcançadas.

E estamos falando de um cineasta estreante, vale ressaltar. Firstman, ator prolífico no circuito independente e comediante de forte presença na internet, só havia assinado curtas-metragens até aceitar o desafio de escrever e dirigir uma comédia cuja premissa clichê e potencialmente açucarada é o sonho molhado de toda plataforma de streaming. Senão, vejamos:

Peter é um promotor de festas decadente da cena underground de Nova York que aproveita para tirar uma casquinha de boates gays, curtindo com os amigos. O excesso de drogas e a escassez de noites bem dormidas o impede de crescer profissionalmente, algo que a sócia Sophie (Cara Delevingne) desiste de tolerar. Quando parece ter atingido o fundo do poço, tendo perdido o emprego e apelado para um bico como vendedor de entorpecentes, ele descobre que é pai de Arlo (Reggie Absolom), um menino britânico de dez anos que acabou de perder a mãe e está de mudança para seu apartamento. É preciso dizer que a paternidade inesperada obrigará Peter a tentar amadurecer?

Pois é, Jordan Firstman segue fielmente a cartilha aproveitada pelo filme que consolidou Adam Sandler como uma estrela de Cinema. Mas o que a produção exaustivamente reprisada nas tardes da Vênus platinada não tinha era um realizador capaz de introduzir personalidade onde só havia espaço para convenções narrativas. Firstman traz a história para um microcosmo onde Hollywood tradicionalmente só enxerga potencial para dramalhões sobre violência de gênero e o apresenta sob uma perspectiva positiva, revelando uma comunidade unida, amorosa e fiel.

Arlo é fundamental para esse olhar mais sincero, pois trata-se de uma criança que cresceu nesse ambiente (onde você acha que a mãe dele poderia conhecer alguém como Peter?). Firstman habilmente usa a irrefutável pureza infantil para contagiar o espectador com uma atmosfera vibrante e calorosa. Até quem deveria representar a função de antagonista, acaba recebendo um tratamento suave do romântico roteirista.

Desculpe insistir nas comparações com O Paizão, mas onde havia o humor pastelão e escapista de Sandler, ganha uma direção boba, é verdade, mas que provoca as gargalhadas através do contraste. Ninguém é exposto ao ridículo e até a escatologia vira uma ferramenta para complementar o afeto, esse, sim, o conceito norteador de toda a fundamentação cômica de Club Kid. Pois até as piadas nascem da empatia e do amor. Repare, por exemplo, na gag em que Peter, em tom de brincadeira, claro, empurra Arlo com força excessiva. Ou quando o pai tenta ajudar o filho que está passando mal, mas acaba vomitando junto. Absolom e Firstman forjam uma dinâmica de autenticidade irrestrita, seja nos diálogos ou nas trocas de olhares. Se é particularmente difícil sair da sessão de encerramento do Festival do Rio 2026 sem a vontade de ter um filho, os créditos vão todos para a dupla.

A mudança de comportamento do protagonista pode ser tão brusca quanto a circunstância demanda, mas o amadurecimento é sugerido gradualmente pelos figurinos de Emily Constantino (do cortante Sorry, Baby), que substituem as regatas e os blusões abertos por polos e camisas sociais. Em contrapartida, se os trajes escolhidos por Peter eram monocórdicos (um reflexo de sua mentalidade naquele momento), posteriormente ganham variações mais coloridas, em tons que até se complementam aos de Arlo (o vermelho passa a aparecer com mais frequência). Sim, nem o vermelho é escolhido ao acaso.

Nas imortais palavras do saudoso crítico estadunidense Roger Ebert (1942-2013), “não importa sobre o que é um filme, mas como ele é sobre o que é”. Exatamente por isso que a previsibilidade do desenvolvimento, cujo final pode ser telegrafado ainda na metade, acaba perdendo importância. Quando as lágrimas dos presentes na sessão de imprensa começaram a cair e provocaram uma sinfonia de fungadas, suponho que ninguém estava pensando nas engrenagens do roteiro, mas sim como esse talentoso mecânico conseguiu construir, de primeira, uma máquina tão vistosa usando peças tão enferrujadas.
NOTA 8,5
Vicentina Pede Desculpas
(Idem, Brasil)

Vicentina, uma idosa com dificuldades de locomoção é surpreendida com a notícia de que o filho motorista de ônibus morreu enquanto trabalhava. Outras várias pessoas também perderam a vida. Como Vicentina resolve processar a tragédia? Procurando a família de cada vítima para pedir desculpas em nome do filho. Cada um lida com o luto da própria forma, mas no caso da protagonista do novo filme de Gabriel Martins, é um sentimento que vem intrinsecamente ligado à culpa. Martins, cineasta mineiro responsável pelo bom Marte Um, é extremamente respeitoso ao não apressar os processos de Vicentina, consequentemente construindo um filme de quase duas horas e meia que transmite ao espectador o peso da perda através do desgaste. O tempo passa, mas a dor permanece.
Rejane Faria, vista duplamente no ano passado, quando estrelou Cinco Tipos de Medo, o grande vencedor de Gramado e o decepcionante A Melhor Mãe do Mundo, oferece uma composição em que o desgaste está estampado no rosto rasurado pelo envelhecimento. Apesar de o corpo não refletir a perfeição de outrora, os princípios seguem intactos, motivando-a a trilha uma verdadeira via crucis em busca de paz de espírito, embora nem todos que aceitam o encontro pesaroso ajam de forma convidativa.
Embora traga diversidade na galeria de personagens e as respectivas reações, Vicentina Pede Desculpas apresenta uma dinâmica repetitiva que gera esgotamento num público inicialmente vendido às nobres intenções do realizador. O ponto dissonante é mesmo Faria, objeto de um estudo minucioso que se extende à cultura de exploração do luto perpetrada pela imprensa. Não por acaso, o cotidiano de Vicentina é sempre invadido por noticiários, sejam através dos tradicionais telejornais ou pelos abjetos programas apresentados por supostos jornalistas que só sabem gritar palavras de ordem em direção à câmera. Há espaço de sobra também para conversas sobre trauma, empatia pré-julgamentos.
A atmosfera deliberadamente sombria é entrecortada por momentos de humor que aliviam a pressão de forma orgânica, sem forçarem a barra. Reações genuínas de Vicentina ou comentários de pessoas próximas também injetam algum frescor em meio à estrutura espiralada. Nesse ponto, a capital mineira serve como palco perfeito, oferecendo ruas e casas populares que refletem o calor humano entre vizinhos, contrastando com a impessoalidade dos bairros nobres, principalmente aquele onde ocorre o embate mais tenso travado pela protagonista.
Selecionado para competir pela Concha de Ouro no Festival de San Sebastián, Vicentina Pede Desculpas brigou até o fim para representar o Brasil em mais uma disputa pelo Oscar de Melhor Filme Internacional. A Academia Brasileira de Cinema acabou elegendo Feito Pipa, mas o Original Netflix quase se credenciou ao prêmio hollywoodiano através do Festival de Toronto, onde foi indicado ao Platform Award, que se tornou um atalho para o Oscar após mudanças feitas pelo prêmio máximo do Cinema. Longas imperfeitos, mas singelos e tremendamente diligentes com os temas que desenvolvem.
NOTA 7,5
Sheep in the Box
(Hako no Naka no Hitsuji, Japão)

Vindo de um cineasta como Hirokazu Koreeda, era de se esperar, ao menos na teoria, que Sheep in the Box contaria uma história de forma sensível e com foco nos sentimentos humanos. Na prática, o vencedor da Palma de Ouro 2018 pelo ótimo Assunto de Família, vê o próprio roteiro entrar em colapso com a briga interna entre sua sensibilidade habitual e uma trama que exige mais do que sentimentalismo.

Ambientado "em um futuro não muito distante", como informa a cartela inicial, Hako no Naka no Hitsuji, no original, apresenta Otone (Haruka Ayase, de Nossa Irmã Mais Nova, também de Koreeda) e Kensuke (Daigo Yamamoto, do fraco Uma Noite), um casal enlutado pela morte precoce do filho. Mergulhados numa rotina sem vida, Otone decide se inscrever para participar dos testes de uma empresa que fabrica robôs humanoides com a aparência que os clientes desejarem. É a chance de ao menos ter a oportunidade de olhar para o rosto do filho novamente, mesmo que não seja exatamente a mesma pessoa. Conforme a máquina evolui, vai alterando as vidas de Otone e Kensuke, talvez de forma irreversível.

Sheep in the Box, uma referência direta ao best-seller O Pequeno Príncipe (exaustivamente explicada), apela para o sentimentalismo barato desde o início, bebendo da fonte de obras como O Homem Bicentenário (1999) e AI - Inteligência Artificial (2001). Mas o pior é a superficialidade com que trata temas complexos, como a ética no setor tecnológico e até a forma como o robô passa a almejar autonomia. Surpreendentemente, os dilemas do casal protagonista (leia-se, a hesitação na hora de encarar o produto como o próprio filho) recebem mais espaço do que a discussão em torno das inteligências artificiais, tão em voga.

Aliás, Koreeda simplesmente esquece da existência de um personagem que só aparece para incentivar o robô a viver livremente, sumindo convenientemente até o terço final, que se revela um embaraço ainda maior ao explorar a possibilidade de uma conciliação, talvez para deixar o espectador com um sentimento positivo ao sair da sessão. Do mesmo jeito, o cineasta é superficial ao fazer provocações filosóficas, fazendo com que todo o roteiro soe excessivamente simplista e lacunar. Afinal, qual o motivo de o mecânico (ou médico?) reconhecer a cicatriz do robô e nada fazer? Qual a real intenção dos renegados?

A principal reviravolta no arco do robô é mal-trabalhada e o impacto de suas decisões é novamente substituído pelo sentimentalismo barato, enfatizado por uma trilha sonora que começa elegante e aos poucos eleva os níveis de sacarose da produção. O que infelizmente tem sido a tônica da filmografia de Koreeda após Assunto de Família, com o excepcional Monster representando uma triste exceção dessa fase recente do mestre japonês.
NOTA 4,5
Seu Inferno Particular
(Her Private Hell, 2026)

A carreira do cineasta dinamarquês Nicolas Winding Refn teve uma ascensão meteórica. Após bons filmes em sua terra-natal, incluindo uma colaboração com o magnífico Mads Mikkelsen, Refn chamou atenção com Bronson, drama estrelado por Tom Hardy, mas foi com Drive que ele conquistou o mundo do Cinema. A exibição apoteótica em Cannes, que também consagrou Ryan Gosling, o transformou num queridinho do festival. O sucesso subiu a cabeça e ele começou a fazer filmes cada vez mais autoindulgentes. Foram os casos de, em menor grau, Só Deus Perdoa (novamente com Gosling) e, num grau gigantesco, Demônio de Neon, seu último filme. Dez anos se passaram até Refn decidir voltar ao Cinema, após uma longa temporada dirigindo curtas, comerciais e séries. Todos autorais, mais tarde integrando sua plataforma de streaming, sob a marca NWR. Delírios egomaníacos à parte, Seu Inferno Particular, também lançado em Cannes, faz o espectador desejar que NWR nunca tivesse retomado a carreira.

Em poucas palavras, Her Private Hell (no original) é uma bagunça generalizada que costura os principais fetiches do diretor (neon, violência e Yakuza) com uma trama cheia de referências a obras infinitamente superiores como Blade Runner, Star Wars, 2001: Uma Odisseia no Espaço e O Iluminado. Uma Los Angeles futurista e distópica (ele nunca se decide) tomada por uma névoa misteriosa serve de ambientação para uma história que ainda inclui um assassino conhecido como Leather Man, um harém de estrelas de Cinema e um segmento completamente deslocado em que Charles Melton interpreta um soldado em pleno Japão durante a Guerra.

É triste ver Melton, tão promissor em Segredos de Um Escândalo, se sujeitar aos caprichos de um diretor mais interessado em brincar com cenários e iluminação do que fazer um filme minimamente coeso. O jovem parece ter sido escolhido apenas para esbanjar o penteado impecável e exibir o abdômen besuntado de suor. Verdade seja dita, ele protagoniza uma sequência de ação até razoável num corredor estreito. O curioso é que esse momento, o melhor do filme, é claramente "inspirado" no penúltimo Missão: Impossível. Ao menos o filme serve para nos presentear com formas criativas de acender um fósforo. (depois de usarem boca e orelha, confesso ter ficado com medo de até onde Refn iria).

Contando com diálogos sofríveis (- "Eu vi uma pessoa tatuar um feto!" - "Eca, tipo um bebê?"), Seu Inferno Particular tem a atmosfera de um pesadelo, mas não bota medo. Tem estilo, mas não substância. Nicolas Winding Refn parece ter perdido as habilidades nesse longo hiato ao qual se submeteu, transformando seu mais novo projeto numa autoparódia sem graça e profundamente entediante. Qualquer semelhança com M. Night Shyamalan, não é mera coincidência.
NOTA 2



