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Festival do Rio 2026 | Dia 9

Foto do escritor: Guilherme Cândido
Guilherme Cândido
há 58 minutos
9 min de leitura

Josephine - Fragmentos de um Crime

(Josephine, Estados Unidos)

Por mais que tentemos proteger as crianças, a dura realidade é que é impossível. “Não há como passar pela vida sem que coisas ruins aconteçam e cada um tem a responsabilidade de lidar com a própria dor”, alguém diz à personagem-título, uma menina de oito anos que nunca conversou sobre sexo com os pais, mas que acaba testemunhando um estupro. O impacto devastador desse momento é encenado sem rodeios pela brasileira Beth de Araújo, que vem ao Festival do Rio após ser duplamente premiada no Festival de Sundance e indicada ao Leão de Prata em Berlim. E pode acreditar, o desenvolvimento é ainda mais pesado do que a própria premissa.


Durante uma manhã comum, Josephine (Mason Reeves) sai para correr no parque local com o pai, Damien (Channing Tatum). Uma brincadeira acaba separando os dois brevemente, mas por tempo suficiente para fazê-la flagrar de longe um homem desconhecido atacar uma mulher que também praticava exercícios no lugar. Damien chega rápido o bastante para chamar a polícia e ajudar a capturar o criminoso, mas o estrago já estava feito, tragando Josephine para um vórtice de confusão, paranoia e medo que respinga até na própria família.


Evitarei spoilers, mas uma criança descobrir o que é um estupro através de uma rápida pesquisa na internet não só é o pior meio possível de abordar um tema delicado, como serve de gatilho para desestabilizar a menina, vivida por Mason Reeves com uma expressividade devastadora. Impressiona como a jovem consegue transmitir pelo olhar, mesmo não sabendo exatamente do que a trama se trata. Momentos como aquele em que Josephine pergunta à mãe (Gemma Chan) se esta já foi violentada e a explosão de raiva ao ver o pai beijar a mãe na cama, são marcantes e deveriam credenciar Reeves a todos os prêmios possíveis da temporada.


Beth de Araújo não fica atrás ao assumir o desafio de adaptar as próprias memórias traumáticas de infância. Ela dispensa o choque barato e resolve explorar cada camada do que aconteceu, com reverberações em todos os envolvidos direta ou indiretamente. Além disso, Araújo oferece material para o elenco brilhar, dando espaço de desenvolvimento para cada personagem. Channing Tatum, por exemplo, que está se especializando no papel de pai zeloso, já havia brilhado no subestimado O Bom Bandido e aqui mostra estar em franca evolução. Gemma Chan (de Eternos), opta por uma composição diferente, estabelecendo um contraste que facilita a estratégia narrativa de alternar os “lados” tomados pela protagonista.


Afinal, ninguém sabe exatamente como abordar Josephine que, pela idade, também não sabe como lidar com o mundo após o choque. E Araújo ilustra a confusão da menina com movimentos de câmera e planos que são mais eloquentes do que qualquer diálogo (repare quando ela pensa estar sendo seguida por um homem mais velho). Nesse sentido, os pais desempenham papel fundamental nessa cadeia de consequências, ajudando o espectador a formar um mosaico que acaba sendo mais importante do que o inevitável julgamento, que apesar de possuir alguns momentos emblemáticos, é deixado de lado no momento crucial.


Sem revelar o veredito, Beth de Araújo é corajosa ao mostrar que o foco sempre esteve em Josephine e seu relacionamento com os pais, representando um filme maduro, inteligente e com alto potencial para deixar o espectador destruído emocionalmente após a sessão, espelhando o sentimento dos personagens.


NOTA 9



Zona Zero

(Gunche, Coreia do Sul)

 

Em 2016, o sul-coreano Yeon Sang-ho mostrou ao mundo que sabe fazer um bom filme sobre mortos-vivos. O sucesso global de Invasão Zumbi, no entanto, manteve o cineasta preso nesse subgênero até hoje, com uma continuação, um derivado e esse primeiro exemplar fora da franquia recém estabelecida, mas dentro das tradições iniciadas por George A. Romero. Embora o olhar apurado para a ação, especialmente mise-en-scène, permaneça intacto, suas habilidades como roteirista envelheceram como leite ao Sol.

 

A trama parte de um ponto de partida conhecido do autor: personagens confinados dentro de um amplo espaço abarrotado de zumbis maratonistas e acrobatas. No lugar de um imenso terminal de metrô, um arranha-céu cujo térreo funciona como shopping center, onde acabam se abrigando uma professora, um segurança e sua irmã cadeirante, um suposto policial entre outros que se revezaram entre heróis e vilões numa correria desenfreada da qual já sabemos que quase ninguém sobreviverá.

 

O risco de morte iminente torna o desenvolvimento de personagens a menor das preocupações de Sang-ho e do-roteirista Choi Kyu-seok, que trabalham os velhos arquétipos de sempre para refletir se virtudes e defeitos são adaptáveis ao instinto de sobrevivência. Todavia, os diálogos sofríveis, a falta de confiança na inteligência do espectador e a insegurança quanto as próprias habilidades narrativas tornam a experiência muito menos divertida do que deveria ser.

 

O começo do filme serve de imediato como um presságio da mediocridade do texto ao trazer os dois protagonistas interagindo como verdadeiras peças unidimensionais de roteiro. O constrangimento envolve (juro) uma verdadeira troca de perfis entre eles, com informações que, ou servirão para embasar uma atitude futura, ou para nos manter cientes de seu passado. Quando não estão fazendo um intercâmbio de foreshadowings, os pobres personagens se fazem de surdos ou portadores de deficiência intelectual, obrigando uns aos outros explicarem tudo duas vezes, desde simples tarefas a planos que demandam urgência (os zumbis são gentis o bastante para aguardarem o término do briefing dobrado). Ao menos, quem sofre de perda de memória recente ou acabar se distraindo, vai ter a oportunidade de ver legítimos replays de momentos marcantes travestidos de flashbacks, em mais um forte exemplo da desconfiança em nossa atenção.

 

Mesmo assim, quando se dedica à ação, Zona Zero é suficientemente ágil e divertido ao ponto de nos fazer desejar que ninguém abra mais a boca para que possamos desfrutar das boas coreografias e da ótima movimentação de câmera, que provocam tensão e adrenalina sem dificuldade. Infelizmente, os roteiristas acham de bom tom investir num suspense natimorto envolvendo a identidade do primeiro infectado, insultando uma última vez e de forma definitiva nossa inteligência. E prometo não mencionar os efeitos empregados para darem vida a macacos zumbis.

 

Guardando um último embaraço para a sequência em que alguém foge de carro (com os vidros escancarados!) e uma horda de zumbis supostamente evoluídos simplesmente se recusa a agarrar o(a) motorista, Zona Zero se sai muito melhor colocando a mão na massa do que planejando seus passos, oferecendo uma experiência notavelmente inferior ao primeiro grande sucesso de Yeon Sang-ho.


NOTA 4



A Professora de Francês

(Idem, Brasil)

Há algumas imagens simbólicas neste A Professora de Francês, mas nenhuma tão representativa quanto aquela em que a Graça (Grace Passô, um patrimônio do nosso Cinema) e a namorada Clara (Jehnny Beth) veem o próprio carro atolar durante um temporal e um grupo de desconhecidos se aproxima. Inicialmente, o medo é por alguma maldade, com as silhuetas distorcidas pelas gotas de chuva e a iluminação vermelha proveniente do freio convidando o espectador ao erro, já que os homens apenas ajudam a empurrar e liberar o carro. É uma sequência inocente se tirada de contexto, mas que sintetiza pelo que a protagonista passará nos próximos noventa minutos.


Num bairro popular de Belo Horizonte, vive uma comunidade unida, do tipo que alimenta, medica e, em outras palavras, cuida do membro mais velho da vizinhança. Esse senhor é o pai de Graça, cuja casa é uma extensão dos solícitos colegas de porta. O trânsito livre é uma faca de dois gumes, pois da mesma forma que oferece benefícios, perde-se. Em pouco tempo descobrimos que o roteiro escrito por Germano Melo é mais um daqueles a antagonizar evangélicos e gays, expondo os efeitos colaterais do conservadorismo como tantas outras obras desta e de outras edições do Festival do Rio.


Como uma mulher LGBTQIAPN+, Graça é julgada a todo tempo e a recusa em morar com o pai dá uma bela pista do porquê ela teve de sair de casa, para começar. A liberdade de ser quem é, vide Leviticus e Feito Pipa, um princípio inegociável para Graça, e Bird e Gugu. A ausência de princípios, representada pela relação promíscua entre religião e política (uma mistura cada vez menos ficcional), também marca coadjuvantes importantes, tal qual o candidato a deputado vivido por Rômulo Braga, que se esconde sob a máscara de cristão exemplar para agredir a esposa em segredo.


E a direção de Ricardo Alves Jr. (do bom Elon Não Teme a Morte), com a contribuição valorosa não apenas da trilha sonora sedutora e enervante de Florencia Di Concillio (presente no festival com Histórias Noturnas), mas principalmente da fotografia de Vasco Viana, que imagina a capital mineira como uma selva de pedra opressora e sombria, constrói uma atmosfera cuja tensão escala a níveis inéditos até então nesse Festival do Rio 2026. Como todo bom terror, a monstruosidade não está em aberrações desse mundo ou de outro, mas no próximo. Na homofobia, na misoginia, no desrespeito, na hipocrisia. O ponto fora da curva é o jovem Pedro Goifman, um vetor de exagero numa receita calculadamente sutil.


O clima quase insuportável talvez explique a decisão de encerrar a história de forma tão abrupta quanto pirotécnica, oferecendo o tipo de recompensa sensorial que costuma fazer espectadores de produções hollywoodianas urrarem nos cinemas, mas que surge como um corpo estranho nessa parábola profundamente inquietante.


NOTA 7,5



I Want Your Sex

(Idem, Estados Unidos)

Gregg Araki pode não ser o cineasta mais regular do planeta e certamente deixou de ser prolífico, mas seu retorno depois de doze anos (ou dezesseis, já que Pássaro Branco na Nevasca mal parece que foi assinado por ele) se faz muito necessário. Nesse meio-tempo, enquanto ele pagava as contas de casa dirigindo episódios de besteiras como Riverdale (2017-2023) e Os 13 Porquês (2017-2020), o mundo se tornou um lugar careta, dominado por uma geração tão avessa a um tipo mais íntimo de contato com o próximo, que mal consegue assistir a uma sequência de sexo num filme sem se escandalizar. Os jovens de hoje, talvez por crescerem em meio ao ambiente digital, sente-se mais confortável mantendo a distância, o que explica os discursos pudicos abundantes na internet, habitat natural da Geração Z. Um senhor de sessenta e seis anos teve de retomar a carreira cinematográfica para mostrar aos mais novos que não há motivo para temer o sexo.


E o californiano, através do roteiro que co-escreveu com Karley Sciortino, com quem trabalhou na série Now Apocalipse (2019), tem muito a dizer, mesmo que aqui e ali complique tanto a narrativa que seus pontos argumentativos às vezes soam como frases de efeito vazias. É sempre um mal sinal quando uma comédia com menos de noventa minutos de duração precisa perder tempo se explicando e isso não significa que os roteiristas estão menosprezando a inteligência do espectador, mas tentando desembaraçar a trama para que o discurso ainda fique visível a olho nu.


Quem se desnuda corajosamente é Cooper Hoffman, que aos poucos está deixando de ser conhecido como “o filho de Phillip Seymour”. O ator de vinte e três anos faz de Elliott uma representação quase tão fidedigna da própria geração, que a comicidade de sua química com Olivia Wilde se torna natural. O ar de “jovem Matthew Broderick” cai como uma luva para esse jovem incauto que ao ser apresentado aos prazeres da carne acaba vendo o mundo com outros olhos.


Wilde, uma intérprete que, confesso, sempre apreciei mais pela beleza do que pela competência (vide a performance careteira no ótimo O Convite), oferece facilmente o melhor trabalho de sua carreira, aparentando estar se divertindo como nunca. É da boca da artista sociopata Erika Tracey, que saem as melhores pérolas do filme. Algumas, exacerbações debochadas claramente pensadas por Araki (o primeiro encontro íntimo entre Erika e Elliott). Outras, dados que refletem o já citado estado careta da Sociedade (“a sua geração não gosta de sexo. 30% preferem se masturbar e jogar videogame”). Daveed Diggs, Mason Gooding e a cantora Charlie XCX fecham o elenco secundário.


Enquanto o primeiro tem pouquíssimo a fazer como o braço direito temperamental de Erika, o segundo é outro a curtir cada momento em cena, brincando com o estereótipo do gay moderno, ao passo que a última encarna a forma como Araki enxerga as jovens adultas de hoje. Aliás, Minerva é o tipo da estudante ambiciosa que mesmo depois de um mês sem transar com o namorado, acusa o rapaz de ser um “viciado em sexo determinado a drenar a energia” dela.


Isso tudo embalado no pacote estético de um realizador que parece não ter perdido a habilidade de se comunicar com a juventude. Estão lá as intervenções animadas, os diálogos irreverentes, a banalidade com que o sexo é (e deveria ser) tratado e os cenários artificialmente estilizados com cores fortes, como se Pedro Almodóvar resolvesse migrar para o teatro mambembe.


No final das contas, I Want Your Sex nem é tão pesado quanto parece e quem conhece a filmografia de Araki reconhece isso. Até porque, a própria dinâmica BDSM de Erika e Elliott começa a se repetir em algum momento e o vaivém da estrutura narrativa traz um conservadorismo estranho à obra do cineasta.


Pode não ser o retorno à boa forma demonstrada em Mistérios da Carne (2004), mas doze anos de silêncio foi um tempo longo demais para uma voz tão eloquente na luta contra os moralistas pudibundos de plantão.


NOTA 6,5

 

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