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Festival do Rio 2026 | Dia 11 (Último)

Foto do escritor: Guilherme Cândido
Guilherme Cândido
há 11 minutos
8 min de leitura

Mata

(Idem, França/Bélgica)

Há uma certa tradição no Cinema francês em contemplar filmes policiais e/ou de espionagem sob o viés das investigações, indo na contramão dos enlatados espetaculares desovados semanalmente por Hollywood. Mata tem esse pedigree europeu, adotando a paciência como norte nesse jogo de espiões, mas é acometido por uma mistura de frieza e superficialidade mais afeito aos produtos do streaming. Não por acaso, a vinheta da Netflix surge gloriosamente para abrir a projeção.


Escrito e dirigido por Rachel Lang, que concilia a carreira cinematográfica com o serviço militar (ela atua como tenente na reserva operacional das forças terrestres francesas), o filme acompanha a Capitã Mata Morin (Eye Haïdara) Que ao lado do parceiro Antoine (Raphaël Personnaz, do razoável Bolero: A Melodia Eterna) trabalham juntos para libertar reféns do domínio de terroristas. Só que a operação dá errado e eles acabam emboscados. Ela é ferida no ombro e ele é capturado pelo inimigo. O tempo passa e Antoine continua cativo, o que deixa Mata cada vez mais ansiosa, ainda mais com a morosidade de seus superiores em trazer o sujeito para casa.


Por se tratar de um filme de espionagem, é claro que reviravoltas fazem parte do pacote. Disfarces, missões na surdina, explosões repentinas… o básico desse tipo de narrativa. Mas espere também por um volume incomum de reuniões estratégicas, conspirações e outras sequências internas mais burocráticas do que práticas, no melhor estilo A Noite do Dia 12. O problema não é a priorização do clima de suspense em detrimento da ação, mas a frieza com que Lang comanda o filme. Nenhum personagem é particularmente carismático ou demonstra algum tipo de emoção, por exemplo, o que inevitavelmente afasta o público.


Eye Haïdara se esforça, mas é vítima de um roteiro desprovido de material dramático. Lang não possui a menor intenção de explorar as contradições de Mata, tampouco sua relação com a agência para a qual trabalha. O mesmo vale para o relacionamento com Antoine, que ao menos se sustenta graças à filha do agente. Por outro lado, a realizadora até tenta construir alguns momentos mais intimistas, como os deslocados interlúdios em que o rosto de Antoine enche a tela para cantarolar melodias populares, mas fracassa miseravelmente.


O esvaziamento no campo dramático encontra eco até mesmo na trama política, cujas viradas vão ficando cada vez mais previsíveis, à medida em que convenções e clichês atravessam a narrativa. E é óbvio que Mélanie Laurent (Bastardos Inglórios) não seria contratada para participar de apenas uma cena, com seu ressurgimento encarado como uma questão de tempo.


Tecnicamente, o filme também tropeça. Os efeitos sonos, em específico, apresentam problemas que vão desde o som abafado de tiros, até o foley dissonante de um sapato em contato com o carpete (mas como se fosse madeira). A fotografia, embora coerente ao adotar tons frios, deixa a imagem excessivamente escura e atrapalha sequências inteiras.


Pecando no terço final ao se explicar demais e subestimar a memória do espectador, Mata ainda tem a pachorra de incluir uma cena final tremendamente artificial para apelar ao sentimentalismo do espectador, traindo as próprias diretrizes tonais.


NOTA 5,5



Os Frutos da Terra

(Markens Grøde, Noruega)

A adaptação de Hans Petter Mølland do romance homônimo de Knut Hamsun (1859-1952) vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de Knut Hamsun pode parecer um mero filme sobrevivencialista lindamente filmado, mas há subtextos suficientes para alimentarem interpretações diversas. A começar pelo paralelo entre o casal principal com Adão e Eva e que vai desde o surgimento de ambos (bem como o fortalecimento da relação), até acontecimentos marcantes que não abordarei para evitar spoilers (me limitarei a dizer que a maçã do pecado não ficou de fora). Os Frutos da Terra foi premiado no Festival de San Sebastián e exibido fora de competição no de Toronto, antes de ser escolhido pela Noruega para tentar o bicampeonato no Oscar de Melhor Filme Internacional.


Iniciando a projeção com Isak (Herbert Nordrum, do soberbo A Pior Pessoa do Mundo) tentando se manter aquecido em meio a um ambiente montanhoso tão belo quanto inóspito. Ele tenta erguer um abrigo, mas essa claramente é uma tarefa para duas pessoas. Seus problemas acabam quando ele encontra uma moça, Inger (Asta Kamma August) com o rosto coberto e acompanhada de uma cabra. Inicialmente, o instinto de sobrevivência fala mais alto, mas logo a solidariedade prevalece à medida que eles percebem que a cooperação pode não apenas tornar a vida mais prática, como também salvá-la.


Nunca deixa de ser um deleite acompanhar o desenvolvimento dos dois, que começam como meros parceiros na hora de improvisarem um abrigo, se tornam um casal e trabalham juntos para construírem uma casa e cultivarem o próprio sustento. Parte desse deleite, evidentemente, se deve à fotografia mais que espetacular de Oskar Dahlsbakken. A opção pela razão de aspecto quadrada valoriza o caráter intimista da obra bem como a grandiosidade intimidadora da natureza.


Mesmo com quase duas horas e quarenta minutos de projeção, Markens Grøde, no original, é o tipo de produção que seduz pela beleza da imagem, envolve pelo ritmo e nos conquista por seus fascinantes personagens, que inclusive se comunicam e transmitem uma infinidade de sentimentos sem precisar de muitas palavras. Pelo contrário, basta um olhar para Isak e Inger se entenderem, como no instante comovente em que um silêncio se torna mais eficiente do que um discurso romântico para convencer a moça a retornar aos braços do amado.


Por outro lado, apesar de investir em elipses que jamais deixam de soar orgânicas, o filme comete alguns deslizes como ao impedir que cabelos e barbas cresçam (uma tesoura só dá o ar da graça na segunda metade) e a dificuldade em ilustrar o envelhecimento dos personagens. Em contrapartida, o instante simbólico em que Isak não consegue impedir o funcionamento de um relógio, diz muito sobre a visão de mundo do sujeito e seu amor por Inger, ao ponto de metaforicamente tentar parar o tempo enquanto a esposa se mantém ausente.


Nordrum e especialmente August (que reeditam a parceria de A Hipnose) oferecem atuações calcadas na expressividade, seja facial ou corporal. São composições que se complementam como numa dança meticulosamente coreografada por Hans Petter Mølland, que exerce domínio sobre a história sem sobrepujar os personagens.


Com uma trilha sonora que evita o sentimentalismo para sustentar a atmosfera realista que respeita a imponência da natureza, Os Frutos da Terra se revela muito mais do que uma história de sobrevivência, mas uma parábola com generosas inspirações bíblicas para capturar a essência da vida.


NOTA 8,5



Rose

(Idem, Áustria)

A essa altura, suspeito que toda vez que faço uma cobertura do Festival do Rio, chega o momento em que me deslumbro com a verdadeira maravilha de assistir a um filme sabendo basicamente nada além de algumas informações da ficha técnica, (como direção e elenco) e este se revelar uma experiência fantástica. Isso acaba de acontecer com Rose, produção austríaca escolhida para tentar uma indicação ao Oscar de Melhor Filme Internacional.

 

A austeridade estética da rigorosíssima condução de Markus Schleinzer captura uma vila isolada na Europa do século XVII, pouco depois do fim da Guerra dos Trinta Anos. A câmera quase estagnada combinada às poses e olhares esporádicos para a câmera dão um caráter quase documental a uma obra entrecortada pelo tom fabulesco da onipresente narração de Marisa Growaldt. Esse contraste é vital, pois se reflete na atuação transcendental de Sandra Hüller, que após surgir ao mundo com As Faces de Toni Erdmann, foi indicada ao Oscar por Anatomia de uma Queda e quase também por Zona de Interesse, dois longas notáveis lançados no mesmo ano.

 

Hüller canaliza a frieza da direção e dá peso aos diálogos, especialmente pelo dom que tem de sugerir um rancor prestes a emergir. Esse sentimento é importante, pois vai ao encontro das camadas que sorrateiramente se destrincham aos nossos olhos. Pois a história (fictícia até onde se sabe) de uma mulher que se traveste de homem para lutar na guerra e posteriormente reivindica um terreno fértil, fala menos sobre ambição e mais sobre conquistar uma liberdade que seria impossível com o uso de vestidos e camisolas.

 

É, portanto, um descendente direto de Orlando ao se assumir como um conto sobre o privilégio de gênero. Assim como a andrógina Tilda Swinton fez na obra de 2001, Hüller responde perguntas supostamente retóricas ecoando uma fluidez de gênero sem apagar a própria personalidade. E quando menos esperamos, a narrativa ainda nos brinda com a exploração do território da sororidade quando Rose se rende à convenção social do casamento, uma obrigatoriedade na época e ainda urgente em alguns segmentos atuais da Sociedade. Oportunidade bem aproveitada por Caro Braun para evoluir uma personagem que vai além do típico suporte.

 

Sem revelar pontos sensíveis, é a partir dessa virada que o filme se torna mais fascinante, usando um companheirismo forçado para debater sobre o papel da mulher numa sociedade impiedosamente patriarcal. É também quando a transcendência da performance de Sandra Hüller atinge o ápice, com direito a um monólogo tão cortante quanto a bala que desfigurou Rose (e que ela mantém num cordão apenas para mascá-la vez por outra).

 

Num filme em que absolutamente nada se desperdiça, até o ato de mastigar um projétil pode (e deve) estimular interpretações. Ansiedade? Uma forma peculiar de lidar com uma cicatriz? Ou o lembrete da gênese de seu estado atual? E o que dizer do dilacerante plano final, dando sequência a um murro de realismo desferido diretamente na boca do estômago?

 

Uma analogia que certamente não serve para descrever um filme que apesar de tão frio e brutal, consegue ser tão belo e comovente ao mesmo tempo.


NOTA 8



O Fim de Tudo

(The End of It, Estados Unidos)

Num futuro utópico em que o envelhecimento pode ser controlado e a morte se tornou opcionou, Claire (Rebecca Hall), uma artista de 250 anos simplesmente cansa da vida e decide morrer. É uma premissa instigante, ainda mais considerando os possíveis desdobramentos dessa decisão. Como Diego (Gael Garcia Bernal), marido da protagonista, encara essa situação? E a filha dela, vivida por Noomi Rapace? Podemos ir além: Se a vida não tem mais fim, o que torna cada momento especial? Afinal, a busca pela juventude eterna pode ser encarada como uma forma de negar a própria existência? E a Arte, ainda pode provocar alguma transformação em uma sociedade anestesiada pela longevidade? Infelizmente, são perguntas demais e respostas de menos nesse filme que encerra a maratona do Festival do Rio 2026 com um título para lá de simbólico e sugestivo.


Maria Martinez Bayona (sem parentesco com o cineasta Juan Antonio Bayona, de filmes como O Impossível, A Sociedade da Neve e Jurassic World: Reino Ameaçado), oferece uma direção estilosa, mas decepciona com um roteiro cheio de boas provocações e poucos argumentos. Até porque, são pouco mais de noventa minutos para desenvolver uma série discussões. Pois além da imortalidade e da superpopulação decorrente dela, a narrativa aborda a obsessão cultural pela juventude, a Arte como espetáculo, conflitos familiares e até inteligência artificial. São ideias atiradas na trama com a mesma facilidade com que são abandonadas antes de ganharem algum desenvolvimento. Em vez de aprofundar alguns conflitos centrais, o roteiro distribui sua atenção entre várias possibilidades.


Da mesma forma, há um desequilíbrio notal flagrante, já que Bayona não tem ideia se pretende construir uma comédia com pitadas satíricas ou um drama reflexivo. Claire, como uma artista chegada a provocar (olha o verbo aí de novo) seus fãs, carrega um estilo peculiar que nem o filme parece entender completamente. Assim, o espectador experimenta a curiosa sensação de não saber ao certo se está diante de uma piada ou se o texto realmente demanda seriedade.


Esse desencontro é refletido igualmente no elenco, encabeçado por uma Rebecca Hall totalmente comprometida com o papel. Destemida em cena (ao ponto de protagonizar sequências de nudez frontal), ela consegue trasmitir o desgaste de Claire, ao mesmo tempo que nos convence de que ainda há um resquício do espírito incitante de outrora. Infelizmente, Hall é a única a ter oportunidades de explorar a fundo sua personagem. Gael Garcia Bernal, por exemplo, intérprete do marido da protagonista, começa oferecendo a possibilidade de investigar a perspectiva conjugal da situação criada por Claire, mas logo é atirado ao segundo plano até sumir de vez, retornando apenas nos minutos finais.


Já o universo imaginado por Maria Martinez Bayona, apesar de fascinante, deixa uma enormidade de lacunas. Ora, se a longevidade depende de recursos financeiros quem tem acesso a ela? Como a Sociedade lida com a desigualdade entre aqueles que podem prolongar a vida e aqueles que não podem? E como instituições, relações de trabalho e estruturas familiares se transformam quando a morte deixa de ser um limite previsível?


Exagerando nos diálogos expositivos, que transformam os personagens em verdadeiros porta-vozes dos conceitos criados pela diretora e roteirista, O Fim de Tudo serve como um bom ponto de partida para discussões acaloradas, mas ficará devendo àqueles que estiverem buscando respostas mais aprofundadas.


NOTA 5













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