"Bolero - A Melodia Eterna" é uma cinebiografia em crise de identidade
- Guilherme Cândido

- 18 de abr.
- 3 min de leitura

O décimo nono longa-metragem da diretora luxemburguesa Anne Fontaine é uma cinebiografia em crise de identidade. Sem saber se contará os bastidores da criação do Bolero de Ravel ou desnudar a vida de seu compositor, o roteiro assinado por Fontaine em parceria com Claire Barré (com quem fez o irregular Ronda Noturna) gasta todo o primeiro terço para estabelecer a personalidade do protagonista. Vivido de forma fria por Raphaël Personnaz (de Persona Non Grata), Maurice Ravel é um homem de postura pouco flexível e gestos calculados, características opostas às das mulheres de sua vida, a principal delas sendo Misia, vivida por Doria Tillier.
A mulher, inicialmente, poderia servir para dar pistas sobre a assexualidade do sujeito. No entanto, Tillier, tão adorável no delicioso Monsieur & Madame Adelman (2017), é sabotada por uma personagem que se comunica majoritariamente através de frases de efeito das mais tolas (“você não confia o bastante na vida”, “para trair, é preciso amar”, julgando-as verdadeiras pérolas de sabedoria. Em certo momento, nem o biografado aguenta mais essa ladainha frívola, embora o mesmo também seja atingido pela obviedade do texto.

“Acho que me perdi na minha própria música”, é apenas um dos numerosos diálogos escritos por Fontaine e Barré com o único propósito de transmitir sentimentos ao espectador, trapaceando dentro do próprio jogo de introspecção criado para definir Maurice, que por sua vez é uma daquelas figuras ávidas para serem entendidas. Num raro momento de inspiração, a produção mostra o homem digerindo um fracasso acadêmico, com a câmera sugerindo sua queda pela janela de um edifício. O músico, no entanto, não atentou deliberadamente contra a própria vida (“Apenas buscava a fonte de uma bela melodia e esqueci que estava no segundo andar”). E essa busca dificilmente acabava infrutífera, já que Maurice era capaz de ouvir música em qualquer lugar, até mesmo numa fábrica. “Há sempre música, basta escutar”, arremata o homem capaz de encarar ruídos como acordes.

Mas a narrativa interrompe a desmistificação do gênio para se concentrar na concepção de seu magnum opus, tocado em algum lugar do planeta a cada 15 minutos, segundo a cartela final, fazendo uma rima seca com a inebriante sequência que abre a projeção, eficaz por reverberar o alcance, a popularidade e a versatilidade da obra, manipulada e recondicionada sob os mais diversos compassos.

Como uma obra de época (começa em 1903), Bolero - A Melodia Eterna cumpre com louvor a tarefa de recriar figurinos e cenários (a produção conseguiu permissão para gravar na casa do próprio Ravel, hoje um museu), muitos retratando uma Paris aristocrática, mas não glamourosa. Não por acaso, as lentes de Fontaine ignoram o rosto de uma socialite em detrimento de suas botas voluptuosas, cujas solas chafurdam na lama. O design de produção, uma antítese à fotografia pouco colorida de Christophe Beaucarne (do ótimo Ilusões Perdidas), traz vida aos ambientes amadeirados frequentados por Maurice. Os veículos, abundantes, são atrações à parte, com modelos à manivela, conversíveis e outros mais, num luxo desavergonhadamente ostentado pela produção.

Que apesar de seus predicados técnicos e pelo fascínio despertado pelo personagem central, esbarra numa estrutura tão claudicante a ponto de induzir ao erro a montagem de Thibaut Damade (do inesquecível Dublê de Anjo). Amarrado a um molde inflexível, a película apresenta clichês cansativos, como a sequência da turnê de Ravel, trazendo-o em diversas cidades sob legendas estilizadas. Essa e outras (a entrevista dada no auge, a relação com os fãs e etc.) são passagens encontradas em praticamente todas as biografias cinematográficas, modernas ou não, uma coincidência impiedosamente ridicularizada pela sátira A Vida é Dura: A História de Dewey Cox (2007).

Além disso, o longa muda bruscamente de tom a cada ponto de virada. A cautela exibida para ilustrar a carreira de Ravel, por exemplo, é abandonada ao exemplificar seu sucesso, culminando no típico “filme de prazo” quando o compositor passa a interagir mais frequentemente com Ida Rubinstein (Jeanne Balibar, do excelente Guerra Fria), coreógrafa responsável por encomendar aquela que se tornaria sua obra-prima. A russa, por sua vez, é retratada quase como uma caricatura, prejudicando o promissor debate a respeito da melhor forma de dar vida ao Bolero de Ravel.

Felizmente, o filme que se propõe a revelar a gênese de uma música seminal é embalado por uma trilha sonora que deixaria seu compositor orgulhoso. Nem a diretora esconde o apreço pelas melodias pianísticas de Bruno Coulais (do bom A Sindicalista), utilizando-as para embalar os diferentes estágios da vida de Maurice enquanto se mistura às suas próprias performances.

No fim, ficamos no meio-termo. Bolero – A Melodia Eterna nos ensina pouco sobre a música e tampouco nos aprofundamos sobre seu compositor, deixando um gosto amargo justamente pelo material promitente, cujo potencial jamais é alcançado.
NOTA 5









