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CRÍTICA | 'Cinco Tipos de Medo'

  • Foto do escritor: Guilherme Cândido
    Guilherme Cândido
  • há 3 horas
  • 2 min de leitura

Histórias entrelaçadas são difíceis de serem contadas justamente em função da complexidade narrativa, demandando uma atenção crucial para o sucesso da empreitada. Quando o serviço é bem feito, temos pérolas como os indicados ao Oscar Babel e Crash - No Limite, que inclusive venceu o prêmio de Melhor Filme apesar de aumentar a base de detratores nos últimos anos. Cinco Tipos de Medo, no entanto, é uma produção brasileira baseada em relatos reais que infelizmente são apenas parte de uma problemática que afeta diretamente nosso cotidiano. Esse problema sistemático é a violência, ponto de conexão entre os cinco personagens do longa-metragem escrito e dirigido por Bruno Bini e que se sagrou o grande vencedor do Festival de Gramado 2025, com quatro Kikitos incluindo o de Melhor Filme.

Tendo como base o curta-metragem que o revelou para o Cinema (Três Tipos de Medo), Bini é hábil ao provocar empatia, pois lida com causos do tipo que não apenas vemos diariamente nos telejornais, como também vivenciamos no dia-a-dia. Afinal, quem não sofreu com a perda de um ente querido para a COVID-19, por exemplo, teve sorte, o que infelizmente não foi o caso de Murilo, interpretado por um ótimo João Vitor Silva, cada vez mais longe do Pedrinho de O Sítio do Pica-Pau Amarelo, folhetim infantil que o catapultou para o estrelato.

É justamente no hospital em que está internado ao lado da mãe que ele tem a vida cruzada com a da enfermeira Marilene, encarnada com simpatia e espontaneidade por Bella Campos. Os dois acabam se aproximando, mas não ao ponto de engatarem um namoro, pois a moça é cobiçada por Sapinho, bandido local que encontra no rapper Xamã, debutando no Cinema após o desastroso Maníaco do Parque no streaming, o intérprete perfeito. Por ser um peixe grande na periferia de Cuiabá, onde a narrativa é ambientada, ele acaba impactando a vida de outras pessoas, como a de Luciana, policial que tem o filho assassinado pelo sujeito. O desejo de vingança, no entanto, a leva a um ato impulsivo que gera consequências irreversíveis para o advogado Ivan, cuja ira interna é transmitida com sensibilidade por Rui Ricardo Diaz.

Além do peso emocional que cada história carrega, Cinco Tipos de Medo também soma pontos importantes quando se permite tirar o foco de um personagem e passar a outro, com cada alternância de perspectiva revelando elementos que agregam e muito à teia de acontecimentos engendrada por Bruno Bini. Seja ao ressignificar uma atitude, ao revelar o envolvimento de alguém num acontecimento-chave, ou simplesmente ao mudar completamente a percepção de um tiroteio, o texto é minucioso ao amarrar todas as pontas narrativas; e acompanhar as peças se encaixando só não é mais prazeroso do que ver a imagem formada com o quebra-cabeça completo.

Que apesar de forçar a barra aqui e ali com diálogos e coincidências pouco naturais, gera identificação quase imediata de um público acostumado com a brutalidade. É tudo tão amargo (embora o humor emerja esporadicamente), que quase não sentimos a doçura adicionada pelos instantes finais, quando a narrativa finalmente resolve celebrar a vida.


NOTA 8

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