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Festival do Rio 2026 | Dia 6

Foto do escritor: Guilherme Cândido
Guilherme Cândido
há 11 minutos
10 min de leitura

Feito Pipa

(Idem, Brasil)

Enquanto a Indústria hollywoodiana segue tratando a memória tal qual commodity, um mero subterfúgio para explorar a nostalgia do público (com raríssimas exceções), o Cinema Brasileiro tem trilhado um caminho diferente, utilizando-a como um dispositivo a serviço da narrativa (com raríssimas exceções). Foi assim com Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto (vencedor e indicado ao Oscar, respectivamente), por exemplo. Em Feito Pipa (postulante ao Oscar), isso ganha contornos quase literais quando Dilma, a carismática avó do protagonista Gugu, passa a manifestar sintomas de Alzheimer. No filme de Allan Deberton, a memória está intimamente ligada à identidade. Perdê-la significa também se afastar de quem somos.

Se por um lado esse subtexto vai ao encontro dos conflitos enfrentados por Gugu pelo fato de não ter vergonha de quem é, por outro, serve à outra engrenagem narrativa, espelhando a idosa e o jovem numa situação de aprisionamento psicológico. Ela, por se submeter à convivência de uma instituição que legitima sua despersonalização. Ele, por ter de viver com o pai que faz de tudo para impedí-lo de viver livremente.

Assinado pelo próprio diretor em parceria com André Araújo (juntos também fizeram o premiadíssimo Pacarrete, exibido no Festival do Rio 2019), o roteiro passa muito longe de soar panfletário ao estabelecer os conflitos principais. A derrocada da avó, que faz desmoronar o porto seguro de Gugu e a homofobia, que o pega na curva com o novo cenário de vulnerabilidade. É interessante, no entanto, como Deberton se recuso a transformar Feito Pipa num dramalhão, permitindo ao humor uma fluência para além do alívio. A montagem com os alunos da escola do protagonista explicando uma confusão, por exemplo, cumpre dois expedientes: o de provocar gargalhadas e o de suavizar a vilania do algoz mirim de Gugu (ele é só uma criança, afinal).

Outro que ganha atenuantes do texto é o pai vivido por Lázaro Ramos, um homem que não aceita a personalidade do próprio filho. Ramos, claro, é talentoso o bastante para adotar uma composição de voz suave e olhar sincero, suficientes para humanizar o sujeito, mas é o roteiro quem dá motivos para percebermos que estamos diante de alguém que apenas é fruto de um ambiente tremendamente machista (dar uma revista masculina a Gugu reforça isso).

Também não é preciso mastigar subtextos ou martelar pautas. Ao ser perguntado se gosta de “coisas de menina”, ele responde de forma sucinta “não existe isso de coisa de menino e coisa de menina”, matando a celeuma na raiz. Ora, maquiagem e futebol são paixões excludentes? Pois faltou avisar ao nosso pequeno herói, que ama a ambos. Não mais do que a avó, vivida por Teca Pereira com uma combinação cortante de sinceridade e afeto.

Talvez Feito Pipa acabe por andar em círculos justamente ao substituir o parceiro de cena de Gugu. A avó, antes elemento fundamental através da dinâmica com o neto, torna-se uma peça sobressalente na engrenagem narrativa. Os desdobramentos prolixos abrem margem, no entanto, para o fortalecimento da conexão entre Gugu e o pai, com Yuri Gomes (uma revelação) se colocando à altura do sempre excepcional Lázaro Ramos. Até o primeiro ato, com diálogos menos naturais (o "cuidado, hein" é apenas um dos exemplos) acaba sendo absolvido com o desenrolar da trama.

Encerrando a projeção com um dos planos finais mais fortes de 2026, a força de Feito Pipa não é estridente como de outros representantes brasileiros que chegaram ao Oscar, mas silenciosa como uma história que busca mais humanidade e empatia do que qualquer legitimação “acadêmica”.


NOTA 8



Rosebush Pruning

(Idem, Reino Unido/Alemanha/Itália/Espanha)

Quem diria que o clássico de revolta política dirigido por Marco Bellocchio resultaria num provocativo deboche das classes mais abastadas? Como premissa, Rosebush Pruning (algo como podar roseiras) não está tão distante assim do longa-metragem italiano, mas o grego Efthimis Filippou não faz muita questão de mascarar a proximidade maior com Saltburn, outra sátira sobre o prazer de ver a desgraça dos privilegiados. Quem parece deslocado nessa maluquice é o brasileiro Karim Aïnouz.

Para começar, a trama se concentrar num grupo de irmãos que vive com o pai viúvo numa mansão localizada na Catalunha. Um mais fútil que o outro, o texto não economiza na acidez ao traçar um perfil de cada um, cabendo ao personagem de Callum Turner (da boa comédia Eternidade) se apresentar como o narrador da história. Em função disso, tendemos a apoiá-lo durante o show de horrores que se segue, mesmo que a estupidez não lhe escape e aqui vale destacar a sacada genial de trazê-lo convicto afirmando que a maior razão para viver na Catalunha é por esta ser a terra-natal de Balenciaga (não é).

O problema do roteiro de Filippou, cujas colaborações com Yorgos Lanthimos fazem todas as peças se encaixarem, não é a vocação, mas a ânsia de construir situações chocantes. A obsessão por escalar os níveis de desconforto elimina qualquer espaço para o desenvolvimento de uma crítica social mais contundente. Dessa forma, não há argumentação, apenas superficialidade (des)equilibrada com escatologia e baixaria. Acredito haver um certo limite para o deleite puramente voyeur de observar uma galeria de personagens desprezíveis se matando pelo simples fato de um deles decidir sair de casa.

Nem Karim Aïnouz, que recentemente se aventurou pela seara do thriller erótico com o bom Motel Destino, consegue dar algum brilho para a história. Bom, na verdade há brilho até demais na fotografia de Hélène Louvart, parceira habitual do cineasta cearense, que dá um tom quase febril ao frenesi cancelável conduzido por Aïnouz com uma energia tão maníaca que cheguei a sair zonzo do cinema, fora os ouvidos zunindo após a trilha excessivamente alta declarar guerra aos tímpanos dos espectadores.

Obviamente, o exagero faz parte do espetáculo, mas um pouco de substância não faria mal. Especialmente quando temos atores tão talentosos quanto o já citado Turner, o ótimo Jamie Bell e até o dramaturgo veterano Tracy Letts. Depois da enésima vez em que uma morte estapafúrdia precede uma sequência grotesca, seria preciso dar muito mais tempo de tela para Callum Turner a fim de tornar tudo ao menos um pouco mais divertido. Mas isso não acontece.

As comparações com Saltburn não inevitáveis e os filmes, de fato, morrem abraçados na beira da praia. Pela segunda vez naufragando em águas internacionais, talvez seja o momento de Karim Aïnouz recalcular a rota de sua carreira, privilegiando projetos mais caseiros. Todos queremos o cineasta de Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo, O Céu de Suely e A Vida Invisível de volta...


NOTA 4,5



O Filho da Puta

(Idem, Brasil)

Desde que comecei a acompanhar o Festival do Rio, em 2016 (ainda como espectador casual, embora já escrevesse para o saudoso Central 42), faço questão de incluir ao menos uma animação em minha programação. Nem sempre é possível, mas vez por outra calha de cair no meu colo uma animação brasileira sobre a qual eu sabia lhufas e que se revela uma gratíssima surpresa. Foi assim com Bizarros Peixes das Fossas Abissais (verdade seja dita, perdi a sessão no Rio de Janeiro, mas vi na Mostra de SP do mesmo ano), e acaba de se repetir com O Filho da Puta. O título pode parecer uma baixaria gratuita se tirado de contexto, mas não havia como ser mais literal.

O filme dirigido por um quarteto formado por Tânia Anaya, Sávio Leite, Erica Rocha e o pioneiro da animação autoral brasileira Otto Guerra (de obras como Wood  & Stock: Sexo, Orégano e Rock’n’Roll e Até Que a Sbórnia nos Separe) e escrito por Carla Guimarães apresenta Ismael (dublado pelo cineasta Gabriel Martins, de Marte Um e do vindouro Vicentina Pede Desculpas) um jovem famoso na cidadezinha de Veredas por ser filho de Maria Teresa (Zora Santos) uma das mais famosas profissionais do sexo na região. Eu avisei que era literal até demais.

Mas o fato de ser conhecido como filho de uma puta, diz mais sobre si do que sobre a própria mãe. Vivendo de bicos e sem muita perspectiva, ele é o pau para toda obra que conserta quase qualquer coisa, de rádios a pilho, passando por lâmpadas e até revólveres. Cansado e envergonhado, ele decide dar um basta na situação e sai de casa, acompanhado apenas por bacalhau (Matheus Nachtergaele), o cachorro de três patas que mora com ele e a mãe, mas perambula por toda a cidade durante o dia. Até aí nada de novo, exceto por um detalhe: bacalhau é um cachorro falante. A partir daí, a história se transforma num divertido Road Movie em que essa dupla improvável cruza o cerrado nordestino para que Ismael possa finalmente conhecer o pai, que segundo Maria Teresa vive em Porto Seguro.

A animação, feita de forma artesanal e com traços que lembram os primeiros trabalhos de Otto, dão personalidade a uma narrativa que é muito mais sofisticada do que o título sugere. Das referências a Moby Dick, passando por signos visuais do faroeste até as diferentes interpretações oferecidas sobre a expressão filho da puta (são inúmeras conotações, como você deve imaginar), o roteiro é um deleito que vai além das tiradas cômicas, sendo a maioria proferida por Nachtergaele através de Bacalhau. Aliás, está sendo um ano prolífico para as estrelas caninas. Depois de Coração Selvagem, só hoje foram dois filmes destacando o melhor amigo do homem (o outro é La Perra) e esse ano ainda teremos a dramática cinebiografia Minha Vida Com Shurastey.

Trazendo diálogos marcantes sobre dinheiro e religião, O Filho da Puta ainda se dá ao luxo de fechar a trama elegantemente como um círculo. O que, depois de uma galeria de personagens espirituosos e uma jornada pra lá de irreverente, é um bônus muito bem-vindo.


Vida longa às animações brasileiras!


NOTA 8



La Perra

(Idem, Chile)

Exibido na Quinzena dos Realizadores no Festival de Cannes, La Perra é o mais novo filme da cineasta chilena Dominga Sotomayor, mais conhecida por obras que valorizam o silêncio e momentos contemplativos. Esse tipo de linguagem está evidente desde o primeiro segundo de projeção, mas não até o último.


O texto é uma adaptação do romance de Pilar Quintana e acompanha Silvia (Manuela Oyarzún) uma mulher que se vira como pode numa comunidade de pescadores. Dotada de uma personalidade mais resignada e inclinada à solitude, ela resolve acolher uma filhote recém-resgatada do mar, dando-lhe o nome de Yuri. A cachorrinha cresce sob as asas da mulher, tornando-se uma companheira inseparável. A natureza estoica de Silvia, porém, esconde traumas do passado que em algum momento acabam projetados em Yuri.

Os dois primeiros atos de La Perra funcionam tão bem, pois se beneficiam das maiores virtudes de Sotomayor como cineasta. Não por acaso, os melhores momentos do filme são aqueles em que ela se limita a observar seus personagens em comunhão absoluta com o ambiente, sem a necessidade de incluir uma linha de diálogo sequer. Quando resolve verbalizar esporadicamente o estudo de personagem que tão brilhantemente começou a desenvolver, a produção perde o encanto, mas permanece íntegra através da atuação forte (física e emocionalmente) de Oyarzún.

Ela não chega a carregar o filme nas costas, pois o maior acerto do texto é fazer de Yuri mais do que um símbolo, dando-lhe espaço suficiente para revezar o protagonismo com Silvia. Isso é endossado pela escolha de Sotomayor em construir planos privilegiando o olhar da cachorra, que ao viver livre, é independente o bastante para enfrentar os próprios conflitos. Os instantes silenciosos em que apenas vemos as duas trabalhando à margem do litoral chileno correspondem ao ponto alto da história. Infelizmente, o ponto de virada negativo chega acompanhado de Selton Mello, que traz a mesma presença calorosa de sempre, mas é o pivô de um conflito que marca o início da derrocada do roteiro.

O terceiro ato, que ao invés de apenas dar prosseguimento ao que havia iniciado, é enxergado pela roteirista Inés Bortagaray como uma chance de explicar o que já havia ficado subentendido, culminando num final desastroso que além de soar artificial no confronto absolutamente gratuito entre Silvia e Yuri, força uma ambiguidade que trai a lógica apresentada até então. A falta de sutileza, a quebra da camaradagem marcada pela violência contra a cadela (os mais sensíveis devem se preparar) e, o mais importante, os simbolismos já assimilados, caem por terra de forma inacreditavelmente incompreensível.

A dúvida de que a ilha chilena que serve de ambientação para a história, representava uma extensão do interior problemático de Silvia, é equivocadamente projetada por Bortagaray no espectador e diminui o alcance deste que se revelava até então um dos melhores filmes desta edição do Festival do Rio.


NOTA 7



Levítico

(Leviticus, Austrália)

Nossa sociedade, principalmente a brasileira, está mais perto do que nunca de viver uma teocracia. E é claro que o Cinema, como um retrato de seu tempo, tem registrado esse aumento da carolice através de obras como o ácido e agridoce O Mau Exemplo de Cameron Post (2018) - também exibido numa edição do Festival do Rio – e o excepcional e brasileiríssimo Deserto Particular (2021). Aliás, o que esses dois longas-metragens têm em comum é justamente o leitmotif de Levítico, produção australiana atualmente em cartaz no banquete cinéfilo anualmente oferecido na Cidade Maravilhosa.

Nos três filmes (e no mundo, infelizmente), a relação íntima entre pessoas do mesmo sexo é tão mal-vista que é preciso escondê-las para evitar represálias imprevisíveis. Mas se entre adultos isso já é suficientemente revoltante, com adolescentes, a homofobia ganha tons de covardia. Na trama escrita e dirigida por Adrian Chiarella, dois adolescentes que ainda estão se descobrindo acabam se envolvendo amorosamente. A aproximação é tão natural que Naim (Joe Bird) até leva um susto ao se ver no reflexo do espelho ao lado de Ryan (Stacy Clausen). A surpresa, como não poderia ser diferente, leva ao distanciamento, mas os garotos não têm ideia de que o Amor pode ser mais forte do que quase qualquer impulso para ser contido.

E quando digo “quase” é porque, em algum momento, a sexualidade de Ryan é exposta, o que leva a igreja local a submetê-lo forçadamente a um ritual conduzido por um religioso misterioso que atende pelo título “Curandeiro da Libertação”. A famigerada “cura gay” faz o rapaz presenciar eventos estranhos, mais tarde revelando-se fruto de uma espécie de entidade, cujo poder se dá pela “transformação” na pessoa mais desejada por quem é submetido ao ritual para invocá-la. E o objetivo, obviamente, é seduzir para atacar brutalmente. Nada absurdo para a comunidade LGBTQIAPN+, convenhamos.

Substituir o Amor pelo medo numa relação é o que faz da alegoria construída por Chiarella funcionar de forma tão dilacerante. Ainda mais quando nos referimos a dois adolescentes, experimentando o amor pela primeira vez, sequer tendo conhecimento do mundo hostil no qual vivem. Nesse ponto, Clausen faz ótimo trabalho, mas quem se destaca é Bird, pois a densidade dramática recai quase completamente em seus ombros. É Naim quem testemunha os principais acontecimentos, quem vê a progressão dos fatos e quem tem a experiência (pela primeira vez) de ver toda uma comunidade passar a desprezá-lo. Primeiro como louco, depois por amar a quem julgam ser errado amar.

Chiarella usa a entidade para falar não apenas sobre a abominável e ridícula “cura gay”, mas especialmente da “culpa gay”, outra forma de covardia sentida na pele por Naim e Ryan. Além do texto engenhoso, o realizador exibe um apuro estético fundamental para complementar o discurso narrativo. Repare, por exemplo, como um personagem vê uma cerca torta (como se alguém tentasse derrubá-la) logo na primeira metade, num prenúncio do que aconteceria mais para frente. Ou da opção de focar Naim quase sempre isolado no quadro, mesmo quando acompanhado de outras pessoas.

Mesmo com uma parcela de perguntas sem respostas, especificamente sobre formas de identificar e enfrentar a Entidade, o que enfraquece a narrativa, Levítico é tenso, emocionante e tristemente fiel a uma realidade ainda contemporânea.


NOTA 7,5



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