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Festival do Rio 2026 | Dia 4

Foto do escritor: Guilherme Cândido
Guilherme Cândido
há 4 horas
8 min de leitura

Diário do Fogo

(Idem, Brasil)

 

É particularmente exaustivo ouvir de espectadores casuais comentários sobre uma suposta falta de diversidade no Cinema Brasileiro. Geralmente são detratores, pessoas que pararam no tempo tecendo críticas cujo prazo de validade expirou há décadas. Essas pessoas, claro, deixaram de dar um voto de confiança às nossas obras ou nunca o fizeram. O Festival do Rio, por exemplo, é sempre uma ótima oportunidade para dissipar qualquer dúvida sobre a riqueza da nossa produção cinematográfica. Ainda não cheguei à metade dessa edição, mas já assisti: Primeiro, uma comédia sobre troca de corpos. Ontem, um thriller político. E para que ninguém cometa o absurdo de dizer que só Rio de Janeiro e São Paulo contribuem para o Cinema Nacional, hoje, um terror social rodado em Maricá.

 

A cidade localizada a cerca de sessenta quilômetros da capital fluminense serve de palco para um terror inteligentemente escrito e dirigido por Maju de Paiva e Bernardo Florim (os mesmo de Avenida Beira-Mar, exibido na edição retrasada do Festival do Rio). Inteligente, pois a dupla cria uma história em que o medo não é provocado pelo sobrenatural (embora presente), mas sim pelas pessoas. Não por acaso, a trama começa como um típico drama cotidiano trazendo Graça (Isabel Teixeira, excelente) e a filha Duda (Juliana Veloso) lutando pelo pão de cada dia enquanto procura um lugar para viver após o prédio em que moravam pegar fogo.

 

Paiva e Florim jogam com as nossas expectativas desde o início, lançando pistas falsas que nos guiam até o primeiro ponto de virada. Acontece de forma mais clara quando Graça atende uma ligação e responde irritada “eu não faço mais isso!”. E mais sutil, quando ela vai ao hospital pedir ajuda a uma amiga médica e vê as enfermeiras transportando um homem com o corpo carbonizado se comunicando com ela. O desespero para ganhar dinheiro leva a protagonista a aceitar a oferta de um desconhecido e quando tudo apontava para a prostituição, descobrimos que ela possui uma conexão com o Além. E Duda também.

 

Mas a dupla de realizadores não se presta a sustos fáceis e constrói uma atmosfera que curiosamente se torna mais carregada quando Graça e a filha estão sozinhas ou na presença de um cobrador de dívidas e não quando um espírito tenta se aproximar pedindo ajuda. Com a câmera sempre bem-posicionada, eles dominam a imagem e só mostram ao público o que precisa ser visto, nada de choques baratos.

 

Todo esse cuidado com o desenvolvimento narrativo acaba prejudicando o ritmo no primeiro ato, fazendo com que o filme demore a engrenar. Também é possível sentir falta do personagem Souza (Higor Campagnaro), que inicia a projeção com a promessa de um arco e termina relegado a um papel de apoio, sumindo durante boa parte da história. Campagnaro, que vem construindo uma carreira sólida no Cinema ao escolher projetos sempre instigantes (especialmente Futuro Futuro), já havia brilhado em O Extermínio da Cegonha, peça do talentoso dramaturgo Pedro Uchoa que voltará em breve ao Rio de Janeiro. Outro destaque do elenco secundário é Cátia Costa, um porto seguro para Graça, mas também para o espectador, oferecendo reações com as quais podemos nos identificar.

 

Pecando esporadicamente no áudio (impossível não estranhar uma caixa de fósforos emitindo o mesmo som de bolas de sinuca colidindo entre si), Diário do Fogo é uma obra madura que trilha o caminho mais difícil ao investir num gênero renegado para oferecer uma parábola sobre mazelas sociais. E o faz com louvor.


NOTA 6,5

 


Funk

(Idem, 2026)

 

Eu já havia gostado dos primeiros trabalhos de Aly Muritiba como diretor (os curtas A Fábrica e Pátio, mas foi com o longa-metragem Deserto Particular que ele conquistou minha admiração de vez. A história de amor improvável entre duas pessoas deslocadas e de polos opostos trouxe o que de melhor o cineasta baiano tinha a oferecer. Por isso, foi com enorme estranheza que saí da sessão de Funk, mais recente projeto de Muritiba. O ritmo que nasceu nas favelas cariocas e conquistou o Brasil serve de pano de fundo para uma típica história de ascensão e queda no show business.

 

Sabrina (Duda Santos) sabe como ninguém animar um baile funk, subindo ao palco como MC e cantando versos “proibidões” enquanto exibe o próprio corpo para uma multidão em êxtase. O sonho em ser descoberta, seja por um produtor de sucesso ou por um vídeo viral de uma apresentação, passa pelas intempéries da vida. Morando com a mãe, Priscilla (MC Nem), e dividindo os dias entre o trabalho como garçonete e as noites no Morro dos Prazeres, onde vive, Sabrina é o tipo de jovem que não leva desaforo de ninguém. De personalidade fortíssima e desbocada (daí a naturalidade com o funk “proibidão”), ela tem de se esforçar dobrado para atingir o sucesso que um dia a mãe conseguiu, mas jogou fora.

 

Apesar de um início forte e contagiante, com a batida testando a potência sonora do cinema, Funk logo se entrega à banalidade, apresentando uma realidade já mostrada em outros filmes. A rotina no morro, o linguajar, os problemas sociais (geralmente envolvendo tráfico e/ou polícia)... Muritiba e os co-roteiristas Fernando Barcellos, Taísa Machado e Leandro Saraiva nada trazem de novo para esse universo, com exceção da própria Sabrina, interpretada por Duda Santos com um carisma estelar. É Santos quem carrega o filme nas costas injetando energia, presença de cena e expressividade quando o filme patina no lugar-comum.


Muritiba também merece os créditos por fazer de um texto tão formulaico um filme tão envolvente e cheio de vida. Absolutamente todas as etapas narrativas são antevistas há quilômetros de distância, mas não há tempo para bocejos e o cineasta encerra a projeção com um estrondo ainda maior do que o do início ao propor uma união de duas personagens que representa facilmente o melhor momento do filme. Justamente por ser a última cena, tende a inflar a impressão sobre a narrativa.


Começo a acreditar que Aly Muritiba é incapaz de fazer um longa-metragem apático e moroso, pois até uma matéria-prima burocrática se transforma em catarse nas mãos do habilidoso cineasta. E quando ele tem a ajuda de uma protagonista inspiradíssima, fica difícil não se empolgar.


NOTA 7

 

Ink

(Idem, Inglaterra)

 

Um dos maiores expoentes de uma geração de cineastas tremendamente influenciada pela MTV, o britânico Danny Boyle vinha de mais baixos do que altos nessa fase mais recente de sua carreira. Depois de merecidamente conquistar o Oscar pelo inesquecível Quem Quer Ser Um Milionário? (2008), o diretor de clássicos como Cova Rasa (1994) e Trainspotting (1996) entrou num leve declínio que começou com o bom, mas nada brilhante, 127 Horas (2010), passou pelo fraco Em Transe (2013), teve um efêmero momento de lucidez com o ótimo Steve Jobs (2015), mas logo foi parar no fundo do poço criativo através de Yesterday (2019), uma comédia romântica esquecível que em nada lembrava seus trabalhos anteriores. Extermínio: A Evolução (2025) foi um indício de que Boyle estava tentando dar a volta por cima e este Ink me permite ser categórico ao afirmar que ele finalmente retomou a boa forma.


A história de como o empresário australiano Rupert Murdoch se juntou ao editor de jornal Larry Lamb para transformar o The Sun num dos maiores e mais influentes tabloides do planeta se beneficia imensamente do estilo frenético de Boyle, oferecendo uma experiência quase alucinógena. Ambientado no final da década de 1960, o filme traz Guy Pearce como Murdoch e Jack O’Connell como Lamb.


Trazendo todas as assinaturas visuais que marcaram seus melhores momentos no Cinema, Boyle transforma a sequência de abertura, que por se tratar de uma longa conversa tinha tudo para entediar, num embate de ideias que ao mesmo tempo que ilustra a gênese da parceria entre os protagonistas, serve como uma bela vitrine para a personalidade dos envolvidos, sem precisar recorrer a diálogos expositivos.


Pearce, ainda em modo O Brutalista (pelo qual concorreu ao Oscar) e Jack O’Connell (esteticamente implorando para ser o novo James Bond) constroem uma química perfeita justamente pelo relacionamento turbulento entre os dois. Depois de viver os vilões principais da reavivada franquia Extermínio e do fenômeno Pecadores, O’Connell volta a ter uma oportunidade de mostrar seus dotes como o anti-herói de Ink, investindo numa composição que esbanja carisma. A trilha irrequieta de Daniel Pemberton (em seu quarto filme só em 2026) e a montagem de cortes rápidos de Fin Oates dão o compasso a essa narrativa adaptada pelo próprio James Graham, autor do livro original.


NOTA 8


 

Covarde

(Coward, Bélgica)

 

Entre 1914 e 1918 a Bélgica mobilizou centenas de milhares de jovens para lutarem na Primeira Guerra Mundial. Entre eles estão o calado Pierre e o extrovertido Francis. O primeiro cumpre com louvor as tarefas cotidianas e sai bem nos treinamentos, já o segundo acaba integrando a “gangue dos rejeitados”, que por algum motivo acabam impossibilitados de participar da batalha. Ao invés disso, trabalham para gerar entretenimento aos soldados da infantaria e nesse aspecto, Francis é uma verdadeira estrela. A vocação artística o torna popular entre os colegas famintos por escapismo, mas acaba gerando outro tipo de sentimento em Pierre.


Depois de dilacerar nossos corações com o futuro clássico Close (2022), o jovem cineasta Lukas Dhont se alimenta de contrastes para construir seu mais novo filme queer. O ambiente selvagem da Guerra é justamente onde floresce o amor entre Pierre e Francis, dois militares que precisam se esconder para sobreviver. Da mesma forma, o título do filme também se aproveita do contraditório para refletir a complexidade da narrativa. Pois Pierre, em dado momento não aguenta mais testemunhar os horrores da Guerra e busca em Francis um porto seguro emocional. O desespero é tanto, que o rapaz chega a perfurar a própria mão com uma baioneta para poder se unir à trupe mambembe do amado.


Se Close jogava ácido na ferida aberta pelo arrependimento e pelo ressentimento, Covarde representa o trabalho mais maduro e otimista de Dhont, ainda que colha frutos obviamente menos expressivos que o longa-metragem vencedor do Grand Prix em Cannes e indicado ao Oscar de Melhor Filme Internacional. O novo filme, que também fez sucesso na Croisette ao abocanhar um prêmio duplo de atuação para seus protagonistas, não se atenta à previsibilidade do texto, co-escrito pelo próprio Dhont em parceria com o colaborador habitual Angelo Tijssens, provavelmente depositando fé excessiva no romance central.


Emmanuel Macchia é um achado quase tão impressionante quanto Eden Dembrine foi no filme anterior do jovem cineasta. Enquanto Dembrine encarnou um personagem que demorou a se conectar com o próprio turbilhão de emoções, Macchia está desde o início cumprindo a função de expressar o rápido esgotamento emocional de Pierre. É uma atuação forte não apenas por ser de um estreante, mas porque gera impacto tanto na fase constrita, como nos rompantes dramáticos. Valentin Campagne, por sua vez, é o exato oposto, o tipo de personagem maior que a vida que funciona especialmente por jamais imaginarmos se envolvendo com Pierre. As percepções distintas da Guerra dão o tempero que mal sabíamos que faltava naquela reação e encorpam as referências ao título.


Assim como é nítida a falta de preocupação em construir uma trama fácil de prever, é frouxa a condução de segmento bélico, com Lukas Dhont apostando nas consequências indiretas, negando ao espectador um vislumbre das batalhas. Ele claramente prefere jogar luz sobre a camaradagem entre os soldados, o que não chega a ser um problema.

Covarde pode não ter a contundência emocional de Close, mas ambos caminham de mãos dadas para transformar Lukas Dhont num cineasta que não resiste em nos mandar destruídos para fora do cinema.


NOTA 8

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