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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

"The Post - A Guerra Secreta" traz Spielberg inspirado e grandes atuações

“As notícias são o primeiro rascunho da História”


Essa poderosa frase dita em certo momento de The Post – A Guerra Secreta, novo trabalho do emblemático cineasta Steven Spielberg é brilhante não só pela constatação “incontestável” da importância da Imprensa, como ressalta a pressão angustiante que reside nos ombros dos jornalistas aqui vistos. Uma pressão complexa que desafia valores como a ética, a liberdade de expressão, o patriotismo e, acima de tudo, o compromisso com a verdade.


Traçando um paralelo com Todos os Homens do Presidente, um dos maiores exemplares do subgênero de filmes sobre Jornalismo, e fazendo jus ao recente e excepcional Spotlight – Segredos Revelados, The Post tem início com um breve prólogo situado em plena Guerra do Vietnã, em 1966, quando temos um pequeno vislumbre de um combate na selva onde os soldados norte-americanos percebem estar perdendo, num nostálgico momento em que Spielberg relembra – de forma muito mais branda - O Resgate do Soldado Ryan, sua obra-prima.


Uma elipse depois, vemos um soldado indignado com as mentiras contadas pelo Governo – e em tempos onde a comunicação não era facilitada pelo imediatismo da Globalização e seus smartphones – tomando a audaciosa decisão de copiar documentos contendo informações altamente sigilosas sobre a guerra. Com a Casa Branca processando o The New York Times pela divulgação parcial de tais documentos e estes chegando ao editor-chefe do Washington Post, Ben Bradlee (Tom Hanks), a proprietária do jornal Katherine Graham (Meryl Streep) encontra-se num dilema, pois publicar tal material não só traria a verdade aos cidadãos (comprometendo amigos da Casa Branca) como também poderia representar uma iminente prisão e o fim de seu Jornal (herdado de seu pai).


Pressão, diga-se de passagem, é a grande tônica da narrativa, sendo ecoada não só através da composição dos atores (em especial Meryl Streep, que discutirei mais adiante), como também na boa direção de Steven Spielberg, que aqui tem a oportunidade de oferecer um trabalho muito superior ao desempenhado no questionado O Bom Gigante Amigo. O veterano cineasta, por exemplo, é hábil ao empregar a boa fotografia do sempre competente Janusz Kaminski (velho colaborador do cineasta) para construir planos quase sempre fechados em seus personagens, ressaltando uma atmosfera claustrofóbica que é acompanhada por elegantes movimentos de câmera (marca registrada de Spielberg) sublinhando a tensão subjacente, como no instante em que nos aproximamos do rosto de Streep antes de uma importante decisão ou na série de cortes que ilustram sua indecisão em meio a vários pontos de vista.


Streep, como já era de se esperar, é extraordinária ao evocar toda a pressão a que Kay é submetida, sendo capaz também de conferir humanidade ao mesmo tempo em que jamais deixa de exibir autoridade, o que pode ser resumido nas várias sequências em que ela recebe visitas inesperadas (e desesperadas) enquanto realiza tarefas do cotidiano, tendo que tomar atitudes que podem definir o futuro de seu Jornal e, por consequência, de seu país. Por isso, a produção é certeira ao equilibrar o caráter enérgico de sua personagem com passagens em que é vista interagindo com uma criança ou simplesmente prestes a deitar. E seu costume de sucumbir ao cansaço enquanto trabalha (lendo no quarto ou no escritório) também contribui para o desenvolvimento de Kay.


Outro extremamente talentoso e experiente, Tom Hanks imprime em Ben Bradlee (que já foi interpretado por Jason Robards em Todos os Homens do Presidente) um misto de confiança e ideologia, o que o leva a assumir riscos que mal é capaz de mensurar, tudo em prol da verdade. E é um deleite ver seus embates com Kay, engrandecendo a produção sempre que vemos Hanks e Streep juntos em cena. Hanks, vale ressaltar, também confere energia e personalidade a Bradlee, literalmente correndo para encontrar outra pessoa em várias ocasiões.


Tudo isso claro é corroborado pelo ótimo roteiro da estreante Liz Hannah e de Josh Singer (vencedor do Oscar por Spotlight), que estrutura-se como um legítimo filme de investigação, sem assumir o fácil caminho da sisudez, optando em vez disso pela leveza proveniente de um eficiente e diversificado humor que pontua toda a projeção, seja através de uma piada recorrente envolvendo uma criança que vende limonada, seja através do clássico sarcasmo ou até mesmo de alfinetadas inteligentes como aquelas envolvendo o presidente Nixon. Além disso, Hannah e Singer não economizam na acidez ao retratar a censura do governo americano e sua implacável perseguição à imprensa, levando a momentos celebrados como uma audiência em que membros do Post e do Times unem-se pela liberdade de expressão.


Enquanto isso, o bom design de produção de Rick Carter (Vencedor do Oscar por Avatar) faz uma irrepreensível reconstituição histórica ao mesmo tempo em que usa a criatividade para compor quadros que fogem do formalismo, chegando ao ápice numa cena em que vemos um personagem falando ao orelhão enquanto percebemos pequenos tons de azul tomando conta da tela. Já o lendário compositor John Williams segue mostrando seu impressionante talento, mesmo já tendo passado dos 80 anos, oferecendo assim mais uma grande composição que destaca-se por ser multifacetada, transitando entre a grandiosidade e a tensão enquanto jamais perde a elegância.


Equivocando-se no terceiro ato ao incluir uma constrangedora sequência em que alguém, ao telefone, grita notícias e reproduz um discurso de forma inacreditavelmente pedestre e artificial, Steven Spielberg não demonstra sinais de cansaço, exibindo a mesma energia e a mesma rotina de produção de décadas atrás sem sacrificar a qualidade de seus trabalhos que, mesmo oscilantes, seguem relevantes.


Ao final, The Post – A Guerra Secreta revela-se uma verdadeira ode à liberdade de expressão, condenando a censura e pregando a verdade acima de tudo, sem deixar de lado a ética jornalística e seu principal fundamento, que é a de informar sem desinformar o que, infelizmente, não é uma unanimidade na Imprensa e provavelmente nunca será. Felizmente sempre teremos jornalistas competentes e comprometidos com a verdade, como os vistos em A Montanha dos Sete Abutres, Todos os Homens do Presidente, O Jornal, Spotlight e, desde já, The Post.


NOTA 8,5

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